A burocracia mata

Depois de assistir a este filme é fácil constatar que a burocracia mata. Ela está aí à nossa espera todos os dias, ao lado do desprezo pelos mais necessitados, os mais velhos, os pobres, os enjeitados pelas forças do BEM: o Estado, Igrejas, políticos, papagaios das normas e da burocracia.

O filme passou dias atrás na RTP2.

Internet

A Internet é uma grande preocupação para quem pretende controlar o mundo. Espero que, hoje, o Parlamento Europeu não lhe dê uma machadada tão grande que acabemos por ter uma Internet-pãozinho-sem-sal. Só coisas tolas para atoleimar mais ainda quem só gosta de tolices. E na Internet já há muitas.

Somos bons

Se lermos os jornais e acompanharmos os outros media, é fácil constatar que se está a generalizar a ideia de que agora, o país, nós, os portugueses, somos bons em tudo. Ou quase tudo. Desde o turismo, à segurança interna, ao futebol, à investigação, etc. Ainda agora li que “a democracia portuguesa é a 10.º melhor do mundo”. Confesso que isto me agrada, como deve agradar ao ego de qualquer português que se preza de o ser. A única coisa que me deixa de sobreaviso é essa dinâmica tão nossa de conseguirmos atingir o pico da montanha com a mesma facilidade com que, logo a seguir, damos um trambolhão que nos remete ao lugar anterior. A História mostra-nos como temos tido uma vocação de iô-iô, ora em cima, ora em baixo.

Devíamos continuar a aperfeiçoar as boas práticas para nos mantermos no topo (embora com naturais oscilações mínimas), fazendo disso o nosso objectivo nacional. A qualidade dos cidadãos e a qualidade dos políticos têm uma importância determinante no atingir desse objectivo. E a Cultura e a Educação são fundamentais. De outro modo, acabamos por assumir, definitivamente, a vocação de iô-iô.

Vaidades

— Todos eles escrevem livros. É a última doença dos poderosos e dos de boas famílias. Na realidade, não querem escrever mas quem ser escritores. Querem o nome deles na contracapa de um livro. Richard, para além disso, é um “editor de vaidades”, de primeira. As pessoas pagam a um editor de vaidades para ele promover os seus livros. Richard não faz nada disso. É tão discreto e tão selectivo com as suas edições de vaidades que, na realidade, ninguém se apercebe delas. E há muita gente rica e bem colocada que lhe está grata. Em certa medida, é tão poderoso quanto um ministro. Eles entrem e saem mas Richard permanece. Avança na sociedade em todas as direcções.

V. S. Naipul, “Uma vida pela metade”, Dom Quixote.

Esta obra foi publicada, originalmente, em 2001. Estas vaidades chegaram há pouco tempo a Portugal e os “Richard’s” logo apareceram. Não foram tanto os poderosos e de boas famílias, porque cá não há tanta gente assim, e são geralmente discretos. Não gostam dos holofotes da comunicação social. Quem lhes tomou o lugar foram os fabricantes de sonhos bem pagos. Uma classe média alta, mas baixa de pergaminhos, próxima dos media e do jogo da bola, que se autopromoveu através de biografias e autobiografias, talvez escritas por escritores fantasmas.  Já não estamos assim tão atrasados naquilo que menos interessa.

As ameaças à Cultura

O que aconteceu ao Museu Nacional do Rio de Janeiro é um facto irremediável, mas demasiado triste para se poder descartá-lo de ânimo leve. Aquele acervo nacional do Rio de Janeiro, sendo brasileiro não era só do Brasil. Pela sua importância, pelas suas peças, fazia parte do acervo histórico mundial, do acervo da nossa história humana colectiva. Era uma casa de estudo, porque era um museu de história natural.

Reflectindo sobre a infausta ocorrência sou levado a pensar na probabilidade de ocorrer um incidente semelhante com os nossos museus, qualquer deles, e estou a lembrar-me do Museu Nacional de Arte Antiga, do Museu Grão Vasco, em Viseu, etc. Tantos e tantos outros que em Portugal vivem com o desprezo com que o Estado trata em geral a Cultura, que vive com as migalhas do OE. Sabemos da falta de pessoal, da falta de catálogos, da falta de incentivos na área da Cultura, sem o desenvolvimento da qual a vida humana será muito mais difícil e infeliz. A Cultura ajuda-nos a viver melhor. Tratá-la mal, abandoná-la à sua sorte, é tratar mal os cidadãos, é tratar mal todos nós.

Feiras medievais

Não sou apreciador das feiras medievais que, no verão, a pensar sobretudo nos emigrantes e em quem está de férias, são montadas um pouco por todo o país. Em geral são um arremedo do que seria uma feira medieval; algumas limitam-se a vender produtos actuais e comida por vendedores trajando “à época”. Também nunca percebi porque só existem feiras medievais. O país não teve outras épocas históricas? No Minho, por exemplo, que deu tanta gente para o Brasil, alguns regressando de lá, no século XIX, encordoados em ouro, brasileiros de torna-viagem, barões disto e daquilo, edificando solares e palacetes para morarem, poderia muito bem servir de tema para manifestações culturais semelhantes. Talvez não na rua, mas dentro de palacetes ou solares, que os há. E quem fala no século XIX, pode falar também no século XVIII, época de D. João V, ou anteriormente, na época dos Descobrimentos e do Renascimento. Enfim, só feiras medievais, parece-me um pouco redutor. Ainda mais quando apanhamos a desfilar uma personagem com óculos escuros, tipo Ray Ban. É forçar muito o medieval.

Blogs-selfies

Peço desculpa de fazer o papel de advogado do diabo. Tenho-me confrontado com o desinteresse das temáticas de muitos e muitos blogs em diversas plataformas. A ideia presente em muitos deles é de que o seu autor, ou autora, escreve apenas para si próprio: um diário aberto à comunidade. São blogs-selfies. Auto-retratos muitas vezes melancólicos de uma realidade pessoal. Compreendo, por um lado. São pessoas muito jovens que ainda andam à procura do seu lugar na vida, da forma de participar no colectivo social. Por outro lado, lembro-me bem da época, há uns anos, em que surgiram os blogs, cujas abordagens eram muito mais interessantes do que se lê hoje em dia, talvez por estarem voltados para o exterior e não para o interior da pessoa que os escreve. Há tanta coisa no mundo interessante a que prestar atenção, a que criticar ou apoiar — a divulgar –, que é uma perda de tempo voltar todos os dias à conversa centrada nas angústias ou nos sonhos individuais. Isso só interessa ao próprio. Divulgá-lo não acrescenta nada ao valor dos blogs. É verdade que se vive uma época de individualismo, em que quase tudo se centra na pessoa e não no colectivo. A prova disso é a tendência para se andar quase todo o dia com o nariz enfiado nos smartphones lendo ou teclando mensagens, jogando, ou de phones nos ouvidos. Há um desprezo/alheamento pelo que se passa fora do pequeno mundo individual, que por vezes toca a misantropia.

Panteão Nacional

De vez em quando leem-se umas notícias de carácter político e não se acredita. Ainda há pouco se ouvia falar de deputados que se achavam no direito de receber subsídio de alojamento embora não estivessem deslocados. Verdade, mentira? Coisas bizarras da política de um Estado e dos seus representantes que têm a sublime inclinação para se ocupar de coisas menores. Adiante. Agora é peregrina ideia dos representantes do PS e do PSD determinarem que todos os Presidentes da República falecidos vão para o Panteão Nacional. A que propósito? Dizem as más línguas que a ideia é feita à medida do Dr. Mário Soares, único Presidente do tempo democrático já falecido. Não sei. Não li a notícia com fita métrica. O que sei é que por este andar qualquer dia o Panteão será um saco roto onde cairá todo aquele que o momento político entenda merecedor de se juntar aos grandes da Pátria. Não vejo que o cargo de Presidente da República seja, por si só, merecedor da alta distinção de figurar entre aqueles que se destacaram como portugueses, de uma forma superlativa. Mais ainda, dar lugar, à priori, no Panteão Nacional a alguém que ainda não prestou provas do seu desempenho na mais alta magistratura da nação.

Eu, se tivesse de escolher entre um Presidente da República conhecido pelo seu amor ao bolo-rei e um futebolista que levou o nome de Portugal, com honra e glória, aos cinco continentes, escolheria sem hesitar o futebolista.

Momento político-económico

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O momento político-económico assinala-se pelo trabalho dos gestores de empresas portuguesas em colocá-las a jeito para serem adquiridas pelo capital chinês, no todo ou em parte. É um grande esforço patriótico. (Patriotismo? Bahhh! Não está na moda). Os clubes de futebol, todos eles muito bem geridos, também começam a ser alvo do capital chinês (à semelhança do que acontece em Inglaterra e outros países europeus. Viva a União Europeia de Funcionários Bem Pagos!) O Aves e o Tondela já foram fisgados (provavelmente, haverá outros), pelo que ouvi dizer a quem sabe do assunto. Será que o Bruno Carvalho também está a colocar o clube a jeito para ser adquirido por um imperador chinês? (E eles são tantos.) A TAP vai muito bem com os brasileiros, mas já começam a pedir ao governo que injecte uns milhares de euros na coisa. Bom, cambada jovem, preparem-se para aprender mandarim e servirem os vossos futuros amos de olhos em bico. Já aqui tivemos o Império Romano a dar ordens, o Muçulmano, o Espanhol, agora vem aí o Chinês. Para não falar do Império Alemão e Americano que estão em todo o lado, democraticamente.

Mas o que é que isso interessa? Sai uma bejeca e uma bifana aqui para a mesa do canto.