Vem aí a politicazinha

Penso que António Costa se precipitou ao fazer declarações que deixavam entender o fim da geringonça se os resultados das eleições legislativas confirmassem o das europeias. O Bloco de Esquerda já começou a falar na necessidade de discussão na AR da questão das PPP, com referência ao que a comunicação social diz ocorrer no Hospital de Vila Franca de Xira, o que parece não corresponder à verdade. O PCP, através dos sindicatos por si controlados e depois de recuperar da queda das eleições europeias, não deixará de enviar para a rua o seu povo indignado sempre que achar conveniente para a sua estratégia política. À direita do PS, os indignados com a derrota dos seus partidos nas últimas eleições descobrirão fórmulas de desestabilização política inovadoras, semelhantes àquela conhecida por Acção sobre Rodas que o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais cancelou de imediato. Tudo pode servir de pretexto para atacar o Governo neste período até às eleições legislativas. António Costa e o PS têm de estar atentos com os amigos da onça (da gering onça) e com uma direita à procura de si própria, apanhando os cacos do desastre eleitoral e arremessando-os ao Governo. Vem aí a politicazinha.

Eleições europeias

Foi uma banhada. Uma banhada do PS e uma banhada da abstenção. É indesculpável a posição daqueles que não foram votar (cerca de 70%). Estão zangados com os políticos e com a política? Mais uma razão para terem ido votar, o único meio, em democracia, de alterar a situação. Estão desiludidos porque durante esta campanha eleitoral os políticos não falaram da Europa, preferindo a política caseira e lavar a roupa suja entre eles? Outra razão para terem ido votar. As opções eram muitas e o alheamento não é solução. Vêm aí novas e diferentes eleições. Ponderem na obrigação cívica de ir votar para mudar o que acham mal. É um acto de cidadania de que não nos podemos alhear e muito menos abster.

Jornais de esquerda

Por que razão a esquerda democrática não tem nenhum jornal diário online, deixa-me estupefacto e triste. Não há jornalistas de esquerda? Não há dinheiro? Talvez a resposta seja: não há interesse. O trabalho da esquerda no governo é não desagradar à direita, desde que o governo se possa manter. É uma esquerda mansa, com interesses que se confundem em grande parte com a direita não arruaceira. Uma direita silenciosa ainda muito ligada à ideia de que a política é para os políticos, desde que estejam do nosso lado. Já não há ideologias, apesar da nomenclatura ainda se usar. Hoje é tudo muito pragmático. Se os políticos estão bem, o mundo é perfeito. O problema é que parece que sempre foi assim, com mais ou menos encenação. Daí que um jornal porta-voz do socialismo democrático não seja, afinal, uma prioridade. Volto a dizer: hoje é tudo muito pragmático e muito cheio de esquemas e conveniências. Os jornalistas trabalham por encomenda e à peça e só os de direita têm ideologia. Nascem com ela agarrada à pele. É uma doença de família. A classe média rasteirinha está mais interessada em show-off, concursos e baboseiras. É muito importante fazer uns gestos com os dedos. É a nova dimensão de vanguarda.

Brexit: a dor de cabeça

O Reino Unido anda a jogar ping-pong com a União Europeia. Esteve sempre com um pé dentro e um pé fora da Europa, talvez por ser uma ilha. As ilhas gostam do seu isolamento, ao mesmo tempo que se queixam dele. Os Britânicos estão agora a tentar resolver o problema a pés juntos. Ou seja, cada vez da pior forma, sem chegarem a um consenso. (É a política, estúpido!) Enfraquecem a União Europeia com a sua saída, sem ganharem nada em troca a não ser voltarem ao seu isolamento. Ainda não compreenderam que o Reino Unido já não é assim tão unido (se pensarmos por exemplo nos interesses autonomistas da Escócia), e deixou de ser uma potência mundial. Esse papel é agora representado pelos EUA, China, Rússia, et malgré tout, a União Europeia. Ninguém sabe o que vai sair daquelas cabeças, depois da UE ter mantido uma serenidade e um comportamento exemplar perante o problema que o Brexit colocou na União.

Penso que a História vai recordar a palavra Brexit como o nome de um medicamento para combater as dores de cabeça, retirado do mercado por efeitos secundários imprevisíveis.

God Save the Queen.

A Europa de amarelo

Todos estes movimentos sociais sem direcção nem programa, que se manifestam nas ruas da Europa, e de um momento para o outro desaparecem, são rebuçados para a extrema-direita que neles se infiltra e baralha, prevendo lucros futuros. A culpa não é das pessoas insatisfeitas que vêm para a rua manifestar o seu repúdio por políticas concertadas na UE e lideradas pela Alemanha, que uma classe de burocratas bem pagos, em Bruxelas e Estrasburgo, aplicam com o sorriso de quem está bem na vida e os outros que se lixem. A culpa é dessa classe de burocratas que tudo fazem para manter o seu status quo; e de governos de partidos tradicionais sem ideias novas nem soluções para o futuro. Na sombra (e às claras) espreitam os novos fascismos. E PARA ESTES O FUTURO É SEMPRE IGUAL AO PASSADO.

Sopa dos Pobres

A Sopa dos Pobres existe há cem anos, desde a Primeira Grande Guerra. Foi durante o consulado de Sidónio Pais que ela foi instituída pelo jornal O Século com o apoio das paróquias, tal era a fome instalada no país. Cem anos depois continua a haver sopa e continuam a existir pobres que vão à Sopa dos Pobres (ou Sopa do Sidónio, como também ficou conhecida), embora em condições diferentes e com o nome emblemático de solidariedade. Mas se não houvesse esta necessidade ainda hoje, como no passado, já não era necessária a solidariedade e o voluntariado dos eleitos da nação.

Sim, a pobreza dá muito jeito. Sobretudo, à Direita e às Igrejas, porque ajuda a conferir significado às suas acções. Dá-se a sopa e uma manta aos pobres e o problema fica resolvido. A nossa consciência também. Fazer mais, tirar aos ricos e nivelar melhor a riqueza e a Justiça, esse problema é mais do pelouro do Robin dos Bosques.

A Justiça que temos

(A direita e os seus clarins na comunicação social andaram durante meses a querer convencer o País de que, com a Joana Marques Vidal, a nossa Justiça tinha dado passos de gigante na luta contra a corrupção. Nada mais falso. Os banqueiros que roubaram milhões e milhões continuam todos à solta e, mesmo os que já foram julgados, saíram ilesos.

No dia em que a Justiça prender o Ricardo Salgado – sendo o acto transmitido ou não em directo nas televisões, como ocorreu com Sócrates e Bruno de Carvalho -, aí sim, acreditarei que “terminou a impunidade”. Aqui fica o desafio para os senhores magistrados. 

Comentário da Estátua, 18/11/2018)

Ler todo o post seguindo o link acima. A notícia, no Diário de Notícias, a que diz respeito este comentário da Estátua de Sal: Banqueiros: muitas suspeitas, poucas condenações, nenhuma prisão