A(ventura)reirismos

Escancarar a porta da democracia só serve para deixar entrar a ditadura. E ela está aí a espreitar, à procura de oportunidade, vestida de nova democracia ungida pelos Saudosistas, a cheirar a mofo e perigosa. Exige-se que os políticos democratas abram os olhos e atuem em conformidade antes que seja tarde. Não há que ter medo de proibir e enfrentar. Nem há que contemporizar. Há que ser firme, denunciar, e dar-lhes com a porta na cara. Por outro lado, há que por em prática políticas corretas que favoreçam os mais desprotegidos e reforcem a classe média, ensino adequado e útil, técnica e culturalmente, emprego com salários justos, acesso à saúde com celeridade no atendimento e resultados. Só assim se reforçará a democracia. Ser amigo do nosso inimigo, além de ingenuidade, demonstra conluio com as forças fascizantes.

Coisas da silly season

Desde o 25 de Abril que os portugueses foram educadas no usufruto das amplas liberdades, mas esqueceram-se de educá-los nos amplos deveres. Foi hoje aprovado um diploma que multa o cidadão, entre 25 e 250€, que atirar beatas para o chão. Quem faz a vigilância, quem multa, onde está? À porta de diversos serviços públicos (e em muitos outros locais) há centenas de beatas atiradas para o chão. Vão lá colocar um polícia de plantão? No outro dia a Câmara colocou nos portões do Parque dos Poetas uns cartazes a proibir a entrada de cães nos jardins, mesmo que atrelados ao dono. As pessoas continuam a levar os bobis a dejectar e a urinar sobre a relva, onde depois brincam crianças. Onde está a vigilância, quem vai multar? Nas rotundas é proibido parar ou estacionar. Ao pé de mim, há uma rotunda de constante movimento, e há estacionamento permanente na mesma, às vezes mesmo defronte da entrada para as garagens. E todos os inquilinos têm garagens. Não me façam rir.

Vem aí a politicazinha

Penso que António Costa se precipitou ao fazer declarações que deixavam entender o fim da geringonça se os resultados das eleições legislativas confirmassem o das europeias. O Bloco de Esquerda já começou a falar na necessidade de discussão na AR da questão das PPP, com referência ao que a comunicação social diz ocorrer no Hospital de Vila Franca de Xira, o que parece não corresponder à verdade. O PCP, através dos sindicatos por si controlados e depois de recuperar da queda das eleições europeias, não deixará de enviar para a rua o seu povo indignado sempre que achar conveniente para a sua estratégia política. À direita do PS, os indignados com a derrota dos seus partidos nas últimas eleições descobrirão fórmulas de desestabilização política inovadoras, semelhantes àquela conhecida por Acção sobre Rodas que o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais cancelou de imediato. Tudo pode servir de pretexto para atacar o Governo neste período até às eleições legislativas. António Costa e o PS têm de estar atentos com os amigos da onça (da gering onça) e com uma direita à procura de si própria, apanhando os cacos do desastre eleitoral e arremessando-os ao Governo. Vem aí a politicazinha.

Eleições europeias

Foi uma banhada. Uma banhada do PS e uma banhada da abstenção. É indesculpável a posição daqueles que não foram votar (cerca de 70%). Estão zangados com os políticos e com a política? Mais uma razão para terem ido votar, o único meio, em democracia, de alterar a situação. Estão desiludidos porque durante esta campanha eleitoral os políticos não falaram da Europa, preferindo a política caseira e lavar a roupa suja entre eles? Outra razão para terem ido votar. As opções eram muitas e o alheamento não é solução. Vêm aí novas e diferentes eleições. Ponderem na obrigação cívica de ir votar para mudar o que acham mal. É um acto de cidadania de que não nos podemos alhear e muito menos abster.

Jornais de esquerda

Por que razão a esquerda democrática não tem nenhum jornal diário online, deixa-me estupefacto e triste. Não há jornalistas de esquerda? Não há dinheiro? Talvez a resposta seja: não há interesse. O trabalho da esquerda no governo é não desagradar à direita, desde que o governo se possa manter. É uma esquerda mansa, com interesses que se confundem em grande parte com a direita não arruaceira. Uma direita silenciosa ainda muito ligada à ideia de que a política é para os políticos, desde que estejam do nosso lado. Já não há ideologias, apesar da nomenclatura ainda se usar. Hoje é tudo muito pragmático. Se os políticos estão bem, o mundo é perfeito. O problema é que parece que sempre foi assim, com mais ou menos encenação. Daí que um jornal porta-voz do socialismo democrático não seja, afinal, uma prioridade. Volto a dizer: hoje é tudo muito pragmático e muito cheio de esquemas e conveniências. Os jornalistas trabalham por encomenda e à peça e só os de direita têm ideologia. Nascem com ela agarrada à pele. É uma doença de família. A classe média rasteirinha está mais interessada em show-off, concursos e baboseiras. É muito importante fazer uns gestos com os dedos. É a nova dimensão de vanguarda.

Brexit: a dor de cabeça

O Reino Unido anda a jogar ping-pong com a União Europeia. Esteve sempre com um pé dentro e um pé fora da Europa, talvez por ser uma ilha. As ilhas gostam do seu isolamento, ao mesmo tempo que se queixam dele. Os Britânicos estão agora a tentar resolver o problema a pés juntos. Ou seja, cada vez da pior forma, sem chegarem a um consenso. (É a política, estúpido!) Enfraquecem a União Europeia com a sua saída, sem ganharem nada em troca a não ser voltarem ao seu isolamento. Ainda não compreenderam que o Reino Unido já não é assim tão unido (se pensarmos por exemplo nos interesses autonomistas da Escócia), e deixou de ser uma potência mundial. Esse papel é agora representado pelos EUA, China, Rússia, et malgré tout, a União Europeia. Ninguém sabe o que vai sair daquelas cabeças, depois da UE ter mantido uma serenidade e um comportamento exemplar perante o problema que o Brexit colocou na União.

Penso que a História vai recordar a palavra Brexit como o nome de um medicamento para combater as dores de cabeça, retirado do mercado por efeitos secundários imprevisíveis.

God Save the Queen.

A Europa de amarelo

Todos estes movimentos sociais sem direcção nem programa, que se manifestam nas ruas da Europa, e de um momento para o outro desaparecem, são rebuçados para a extrema-direita que neles se infiltra e baralha, prevendo lucros futuros. A culpa não é das pessoas insatisfeitas que vêm para a rua manifestar o seu repúdio por políticas concertadas na UE e lideradas pela Alemanha, que uma classe de burocratas bem pagos, em Bruxelas e Estrasburgo, aplicam com o sorriso de quem está bem na vida e os outros que se lixem. A culpa é dessa classe de burocratas que tudo fazem para manter o seu status quo; e de governos de partidos tradicionais sem ideias novas nem soluções para o futuro. Na sombra (e às claras) espreitam os novos fascismos. E PARA ESTES O FUTURO É SEMPRE IGUAL AO PASSADO.

Sopa dos Pobres

A Sopa dos Pobres existe há cem anos, desde a Primeira Grande Guerra. Foi durante o consulado de Sidónio Pais que ela foi instituída pelo jornal O Século com o apoio das paróquias, tal era a fome instalada no país. Cem anos depois continua a haver sopa e continuam a existir pobres que vão à Sopa dos Pobres (ou Sopa do Sidónio, como também ficou conhecida), embora em condições diferentes e com o nome emblemático de solidariedade. Mas se não houvesse esta necessidade ainda hoje, como no passado, já não era necessária a solidariedade e o voluntariado dos eleitos da nação.

Sim, a pobreza dá muito jeito. Sobretudo, à Direita e às Igrejas, porque ajuda a conferir significado às suas acções. Dá-se a sopa e uma manta aos pobres e o problema fica resolvido. A nossa consciência também. Fazer mais, tirar aos ricos e nivelar melhor a riqueza e a Justiça, esse problema é mais do pelouro do Robin dos Bosques.