O cio das manhãs

É só para relembrar. Poesia. Em breve nos locais habituais e online, e também no Brasil. Preço da edição em Portugal 12€. No Brasil R$32. E-book 5€.

“O cio das manhãs”. Poesia. Astrolábio Edições.

Melancolia

Contigo viajo à procura do sol
de sorrisos cristalinos
como o orvalho das manhãs
para acender a luz e
iluminar a minha tristeza

Minha amiga, alma gémea
minha caderneta de versos
que escrevo nas manhãs cinzentas
quando tu vens procurar
o meu silêncio e dormir a meu lado
num conforto de palavras

Não penses que te amo
embora andes sempre a meu lado
desafiando-me a quebrar
Não conseguirás impedir-me
de procurar o sol das tardes mornas e
doces, de produzir canções alegres
e de caminhar pela vida
de rosto iluminado e olhar determinado
Não me derrotarás, melancolia.

© António Garcia Barreto

Gratidão


Não pense que sou grata por tuas pequenas
gentilezas.
Gosto de pequenas gentilezas.
De facto as prefiro à gentileza mais
substancial, que está sempre a te cravar os olhos,
feito um grande animal sobre o tapete
até que a tua vida inteira se reduza
a nada além de levantar manhã após manhã
embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.

Louise Glück, poeta, Prémio Nobel da Literatura, 2020

Tradução de Pedro Gonzaga, poeta e tradutor brasileiro, retirada da revista de cultura Estado da Arte.

não me peças perdão (fado)

não me peças perdão. a culpa não é minha:
foi este tempo todo descuidado,
foi não achar que o fim um dia vinha
foi ficar sem defesas a teu lado

foi nunca te lembrar em sobressalto
foi não deixar falar a tua boca
foi não pensar em ventos no alto mar
foi tanta coisa, tanta, hoje tão pouca

foi deixar-me viver em falsa paz
foi afagar-te as mãos sem as prender
ou foi prendê-las mal e tanto faz
julgar que se morria de prazer

agora é tarde, sim, tarde demais,
tropeço às cegas nesta dura lei,
não sei se vale a pena dar sinais
e o que te hei-de dizer também não sei.

Vasco Graça Moura in "Mais Fados & Companhia", 
edição Corda Seca e Jornal Público, (2004 ?)

Menina, não sei dizer

Menina, não sei dizer, 
Vendo-vos tão acabada,
Quão triste estou por vos ver
Fermosa e mal empregada.

Quem tão mal vos empregou,
Pouco de mim se doía,
Pois não viu o quanto me ia
Em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
Lindeza tão extremada
Que digam quantos a vêem:
- Fermosa, e mal empregada!

Tomastes da fermosura
Quanto dela desejastes
E com ela me guardastes
Pera tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
Matais agora em casada;
Matais de toda a maneira,
Fermosa, e mal empregada.

Luiz Vaz de Camões, "Lírica"

Exercícios de palavras

Visto minha roupa de 
baile e vou dançar sobre
as águas do rio.

§

As flores do meu jardim
moram à sombra do regato e
do canteiro de jasmim.

§

Destapo a panela e
convido-te a cear o
aroma da sopa de beldroegas.

§

Dei com a lua estilhaçada
nas pedras do meu quintal
A gravidade portou-se mal.

(agb)

Importante é subir o monte

Enamorei-me dos teus pés
dos passos que eles dão
no espaço da minha imaginação

Juntei os meus aos teus pés
para percorrermos a vida
lado a lado, de lés a lés

Atravessamos charnecas em flor
subimos ao cimo dos montes
os meus pés à frente
ou teus pés atrás
ou vice-versa tanto faz

Importante é subir o monte
chegar ao cume e olhando o
que a vista alcança
ter a certeza que a subida
não foi vã esperança

© António Garcia Barreto