“Deixo sempre alguém fora de mim”

(Decidi partir para Portugal, fui despedir-me
da autoridade local que ficou pasmada. Quando
cheguei a Kristiansund tinha-me esquecido de
ir cumprimentá-la.)

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Deixo sempre alguém fora de mim em mim
no lugar de onde parto
flor que a si mesma se corta no jardim,
olhos pegados no espelho,
sempre a ver-me jovem na cama do quarto.

E a mão direita? Onde deixei essa mão?
Nos teus seios, talvez. Ou na melodia escandinava
em que a vizinha do 2.º andar, deitada ao comprido
no chão,
tentava ouvir o próprio coração
no piano em que eu tocava
– ponte sem sentido
de solidão para solidão
num espelho partido.

José Gomes Ferreira in “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril, Lisboa, 1976
(O poema refere-se ao breve tempo em que José Gomes Ferreira foi cônsul em Kristiansund, na Noruega, e ao seu alheamento poético. Ou andar sempre nas nuvens…)

Décima IV

LoboTodos quantos aqui estão,
Excepto sòmente nós,
São do vício mais atroz
A mais perversa união:
O que é homem é cabrão;
As mulheres, sem disputas,
Têm três diversas condutas:
As velhas são feiticeiras,
As outras alcoviteiras,
As raparigas são putas.

António Lobo de Carvalho, “O Lobo da Madragoa” (séc. XVIII)
“Poesias joviais e satíricas” in “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica“, selecção de Natália Correia com ilustrações de Cruzeiro Seixas, edições Afrodite

Poesia

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Para quem gosta de poesia, eis uma coleção muito interessante (e de preços muito razoáveis) editada pela volta d’mar, uma editora da Nazaré. Há mais títulos. Os pedidos podem ser feitos para a editora através do email voltadmar@gmail.com. A página da editora no Facebook .
Aqui ficam quatro títulos: “Ferido“, de m. parissy; “Aprendiz“, de manuel a. domingos; “Si Dispensa dai Fiori“, de José Ricardo Nunes e “Higiene“, de Rui Almeida.
Para a semana divulgarei outros títulos.

A poesia

A criação poética é um mistério indecifrável, como o mistério do nascimento do homem. Ouvem-se vozes, não se sabe de onde, e é inútil preocuparmo-nos em saber de onde vêm.

A poesia é a união de duas palavras que nunca se supôs que se pudessem juntar e que formam uma espécie de mistério.

Federico García Lorca (1898-1936)