VIAJAR

IMG_8840Há um rumorejar de
folhas e ramos
brisa serena
trinado de pássaro
sob a sombra fresca
de uma acácia
Defronte tenho o mar
da cor das águas profundas
sigo um barco a navegar
rumo a um porto no mundo
Levanto-me da mesa do café
e faço a viagem a pé

António Garcia Barreto in “Lúcido Rumor”
(foto minha)

(A Poesia e a Vida saíram do mar)*

Foi aqui,
nas tempestades do Mar da Mancha,
perdida do alarme
do labirinto de palavras cegas
a imaginarem-se rainhas.

Foi aqui,
aos tombos do sol agreste
das bocas noruegas
que tu, Poesia,
finalmente vieste
procurar-me
– vem de novo, vem! –
no suor das palavras verdadeiramente minhas
a quererem tornar-se de ninguém.

José Gomes Ferreira in “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril Editora, 1976

* Em jeito de título e síntese do poema, como era hábito do poeta.

(O poema é uma referência ao tempo em que o autor, ainda jovem, foi cônsul de Portugal, em Kristiansund, Noruega)

18 de janeiro

Encontrei mesmo há instantes, a caminho do Café, uma moeda de cem depositada num banco.
Vou gastá-la agora mesmo. Nunca se deve ficar com o que não nos pertence.

João Luís Barreto Guimarães in “poesia reunida”, Quetzal, 2011

O museu ardeu*

ruialmeida[1]Um dia todos os museus irão arder
E seremos felizes. Imagem por imagem
Esqueceremos quem somos, deitados sobre a cinza,
Livres da angústia da memória e sem remorsos.
(…)

Rui Almeida, “Higiene”, volta d’mar editora, Nazaré, 2019

* primeira estrofe do poema tendo por motivação o fogo que consumiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro (1818-2018), em 2 de Setembro de 2018

Não sei se é possível

IMG_2316Não sei se é possível beber
as manhãs em taças de cristal
Há qualquer coisa de líquido
na aurora dos dias
lágrimas que o sol seca
com a gaze da madrugada
Reinvento a vida ao
acordar com o olhar lavado
pelas águas do rio e
seco pelo pano de sol
pendurado no céu

António Garcia Barreto

Teus olhos

ruy-cinattiTeus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,
longamente tristes, sequiosos,
como flor aberta nas sombras em busca do Sol.
Vieram com o vento e com as ondas,
através dos campos e bosques da beira-mar.
Vieram até mim, estudante triste,
dum país do Sul.

Ruy Cinatti “Antologia Poética”