A poesia

A criação poética é um mistério indecifrável, como o mistério do nascimento do homem. Ouvem-se vozes, não se sabe de onde, e é inútil preocuparmo-nos em saber de onde vêm.

A poesia é a união de duas palavras que nunca se supôs que se pudessem juntar e que formam uma espécie de mistério.

Federico García Lorca (1898-1936)

O lume desses sinais

Izidro AlvesAinda guardo na minha carteira
o número do teu telefone
os bilhetes de cinema rasgados
o totoloto feito a meias.
Não sei porque guardo tudo isto
eu que não gosto de recordações.
Mas talvez seja por nada já fazer sentido
ou pelo sentido que tudo isto ainda faz.
Agora que até para morrer é tarde
ainda guardo na minha carteira
o lume desses sinais.

Izidro Alves in “Terna Ausência”, Porta do Cavalo, Lisboa, 2005

Vou-me embora pra Pasárgada

biografia-e-obras-de-manuel-bandeiraVou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira in “Bandeira a Vida Inteira”, 1986

Entro no café

(Fase de resistência nos Cafés dos Boatos)

josegomesferreira

Entro no café
e vejo as cabeças do costume
em redor da Fogueira Resistente
num bafo de voz curva,
boatos de lume,
boca semiviva.

E assim combate há anos esta gente.
A forjar armas de nuvens
com aço de saliva.

José Gomes Ferreira, “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril, 1976