Manipulador de palavras

Hoje as palavras andam devagar dentro de mim
Devem estar cansadas porque nunca lhes dou descanso
Ou ainda não encontraram o trilho certo
para me acenarem um adeus encorajador

É muito difícil trabalhar com as palavras
São amigas inteligentes, velhas como séculos
sábias como os sábios de Alexandria

E eu sou apenas um manipulador de palavras
que as usa e delas abusa sem nunca protestarem
Sabem que são valiosas titulares do saber
Sem elas o que hei-de dizer?
Sem elas o que vou fazer?

© António Garcia Barreto in “O Cio das Manhãs” (obra registada no IGAC)

Soneto de felicidade

Viniciusdemoraes-610x350De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E, assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive);
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes in “O Poeta Apresenta o Poeta”, Dom Quixote, Lisboa, 1970