Sem título

(Inscrevi-me no batalhão Académico e, termi-

nada a Aventura de Monsanto, parti para o

Norte, a arder de Esperança.)

Para que me serve agora essa Esperança

e o passado tal como o penso

visto pelos olhos arrancados

aos meus fantasmas de criança

que trago atados num lenço

e de quando em quando desembrulho

(com a sensação de viver sufocado de silêncio

debaixo de entulho)?

José Gomes Ferreira, “Poesia VI”, Diabril Editora, Lisboa, 1976

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira in “Matura Idade”

Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual 
prende um casal abismado 
Ele está segurando as duas mãos dela nas suas 
Ela está beijando as mãos dele 
Estão olhando-se nos olhos de muito perto 
Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo 
Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo 
Agora estão a examinar as palmas das mãos um do outro como se fossem mapas de Paris ou do mundo como se estivessem à procura do Metrô que os levasse juntos através dos caminhos subterrâneos através das «estações do desejo» até ao terminal do amor até às portas da cidade-luz 
É um caso sem saída e estão perdidos 
nas linhas cruzadas das suas palmas enlaçadas suas linhas de cabeça e linhas de coração suas linhas de sorte e linhas de vida ilegíveis e misturadas no mons veneris da sua paixão

Lawrence Ferlinghetti in "A Boca da Verdade, Antologia Portuguesa", tradução de André e Isabelle Lima, 1986
(O poeta faleceu a 22/02/2021, aos 101 anos).


			
		

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Apeteces

 O teu amor
 não sei como te dizer
 descobriu-me um dia
 e depois abandonou-me

 Quando me chamas
 sei que não me amas
 Quando me esqueces
 sei que não me mereces
 
Mas tu que não me amas
 e me esqueces… apeteces

© António Garcia Barreto 
(do livro em preparação "Lúcido Rumor")