Gratidão


Não pense que sou grata por tuas pequenas
gentilezas.
Gosto de pequenas gentilezas.
De facto as prefiro à gentileza mais
substancial, que está sempre a te cravar os olhos,
feito um grande animal sobre o tapete
até que a tua vida inteira se reduza
a nada além de levantar manhã após manhã
embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.

Louise Glück, poeta, Prémio Nobel da Literatura, 2020

Tradução de Pedro Gonzaga, poeta e tradutor brasileiro, retirada da revista de cultura Estado da Arte.

No ano em que assinala 50 anos de vida literária, Luísa Ducla Soares abre-nos a porta da sua intimidade ao recordar neste livro momentos da sua vida e da sua carreira que irão fazer as delícias de todos os seus leitores – crianças e não só! Através de histórias, ilustrações e fotografias, ficamos a conhecer…

* por Clara Castilho via LUÍSA DUCLA SOARES – 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA — A Viagem dos Argonautas 

“Deixo sempre alguém fora de mim”

(Decidi partir para Portugal, fui despedir-me
da autoridade local que ficou pasmada. Quando
cheguei a Kristiansund tinha-me esquecido de
ir cumprimentá-la.)

josegomesferreira

Deixo sempre alguém fora de mim em mim
no lugar de onde parto
flor que a si mesma se corta no jardim,
olhos pegados no espelho,
sempre a ver-me jovem na cama do quarto.

E a mão direita? Onde deixei essa mão?
Nos teus seios, talvez. Ou na melodia escandinava
em que a vizinha do 2.º andar, deitada ao comprido
no chão,
tentava ouvir o próprio coração
no piano em que eu tocava
– ponte sem sentido
de solidão para solidão
num espelho partido.

José Gomes Ferreira in “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril, Lisboa, 1976
(O poema refere-se ao breve tempo em que José Gomes Ferreira foi cônsul em Kristiansund, na Noruega, e ao seu alheamento poético. Ou andar sempre nas nuvens…)

Luis Sepúlveda, RIP

O céu era um inchada barriga de burro, pendendo ameaçadora a escassos palmos das cabeças. O vento morno e pegajoso varria algumas folhas soltas e sacudia com violência as bananeiras raquíticas que ornamentavam a frontaria da administração da circunscrição.
Os poucos habitantes de El Idilio, mais um punhado de aventureiros chegados das redondezas, estavam reunidos no cais, esperando a vez de se sentar na cadeira portátil do doutor Rubicundo Loachamín, o dentista, que aliviava as dores dos seus pacientes graças a uma curiosa espécie de anestesia oral.
– Dói-te? – perguntava ele.
Os pacientes, aferrados aos braços da cadeira, respondiam abrindo desmesuradamente os olhos e a suar em bica.
Alguns pretendiam retirar das respetivas bocas as mãos insolentes do dentista e responder-lhe insultando-o como ele merecia, mas as suas intenções esbarravam nos braços fortes e na voz autoritária do odontologista
– Quieto, carago! (…)

Luis Sepúlveda, “O Velho Que Lia Romances de Amor”, 8.ª ed., Edições ASA, Porto, 1996

Rubem Fonseca, RIP

Nunca pensei que um dia me pediriam para matar uma pessoa, mas isso aconteceu ontem. Até dois dias atrás eu alugava um cubículo num sobrado velho no centro da cidade, mas fui despejado de lá. Agora estou aqui na estação rodoviária, sentado num banco, fingindo que espero um ónibus.
Meu cubículo era um canto da sala onde os inquilinos viam televisão, isolado por um tabique de madeira envernizada de pouco mais de dois metros de altura; o pé direito da sala devia ter mais de quatro metros; um espaço grande entre o tabique e o tecto permitia a entrada de ar mas também tornava possível a alguém, trepado numa cadeira, me espiar dormindo na cama estreita. Eu tinha horror que me observassem dormindo. Ao deitar, quando sentia uma coceira no rosto, sinal de que o sono estava chegando, eu cobria a minha cabeça com o lençol.

Rubem Fonseca in “O Buraco na Parede”, Campo das Letras, Porto, 1996

 

Poeta e Cardeal

No dia em que o poeta e arcebispo português José Tolentino Mendonça vai ser nomeado cardeal pelo Papa Francisco, deixo aqui um dos seus poemas:

Cardeal

Epitáfio para R.M. Rilke

quando as palavras
buscarem amparo
em teu secreto canto

serás ainda
o único pastor
do meu silêncio

José Tolentino Mendonça

Parabéns, Bocage

BocageDe cerúleo gabão não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto;

Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso,
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto.

Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes.

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultrage,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto: é o Bocage!

Manuel Maria de Barbosa l’Hédois du Bocage in “Poesias”

(nos 254 anos do seu nascimento)

O extenso nome de um grande artista

Pablo Picasso, expoente máximo do cubismo foi um notável pintor. Embora não fosse699556b00c15d2b75b9b95ff363bf8e6
grande em tamanho teve um nome que respaldou todo o seu enorme talento artístico, como se o nome Picasso fosse demasiado pequeno para obra tão grande e incontornável. Assim, quiçá adivinhando protagonismos, a família baptizou-o com o nome de:

Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso