A política tradicional não tem futuro

O discurso político tradicional está completamente estafado, gasto, inoperante. Os políticos, os sindicalistas, não conseguem dar a volta ao texto. Preferem dar a volta ao cidadão fazendo-o acreditar que não há outra maneira de fazer as coisas, que estão no caminho certo. Estafam o tempo em areópagos onde aquilo que deviam discutir, e os resultados a que deviam chegar, se transfere para nova oportunidade, novo conclave. E assim tudo se adia. Entretanto, os bispos dos vários dogmas e interesses vão se infiltrando no quotidiano das pessoas, de braço dado com os vários lóbies que se instalam propagando a única verdade: a dos seus interesses particulares. O mundo continua à espera de resoluções e atuações que exigem prontidão imediata. Mas dificilmente chegaremos lá a tempo de recuperarmos a sanidade do planeta em que vivemos com os políticos e as políticas tradicionais.

A(ventura)reirismos

Escancarar a porta da democracia só serve para deixar entrar a ditadura. E ela está aí a espreitar, à procura de oportunidade, vestida de nova democracia ungida pelos Saudosistas, a cheirar a mofo e perigosa. Exige-se que os políticos democratas abram os olhos e atuem em conformidade antes que seja tarde. Não há que ter medo de proibir e enfrentar. Nem há que contemporizar. Há que ser firme, denunciar, e dar-lhes com a porta na cara. Por outro lado, há que por em prática políticas corretas que favoreçam os mais desprotegidos e reforcem a classe média, ensino adequado e útil, técnica e culturalmente, emprego com salários justos, acesso à saúde com celeridade no atendimento e resultados. Só assim se reforçará a democracia. Ser amigo do nosso inimigo, além de ingenuidade, demonstra conluio com as forças fascizantes.

Arturo Pérez-Reverte 

(Nota: estas citações foram retiradas da revista Visão de 18/09/2016) 

Arturo Pérez-Reverte, o escritor espanhol mais lido no mundo, acredita que a humanidade “já viveu a sua melhor época”. À VISÃO, fala do seu novo livro, Homens Bons, e carrega no pessimismo: “O mundo é um sítio perigoso, cheio de filhos da puta”

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Sim, claro. O mundo é um sítio perigoso, cheio de filhos da puta. O terrível é que o Ocidente e tudo o que custou tanto a construir ao longo dos séculos, liberdades e direitos, com os bons e nobres valores de que falam os protagonistas do meu romance, está a morrer, a desaparecer… E não voltará. Os jovens ignoram-no. Nem se ensina nas escolas…

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É uma cultura de facilidade. Temos medo de traumatizar os meninos com a Ilíada, ou com a História… O objetivo principal passou a ser não haver insucesso escolar, e nivela-se tudo muito por baixo. Os sistemas de educação no mundo ocidental, hoje, são feitos para normalizar e desprezam os mais inteligentes. Não se valorizam nada as elites, a própria ideia de elite está mal vista, tem muito má imprensa… Veja-se a mediocridade na política espanhola, ou europeia, ou portuguesa. Onde está um Churchill, um Adenauer, um Kennedy? Logo na escola olha-se de lado para um indivíduo singular, brilhante, destacado. Torna-se suspeito e parece que é preciso igualizar todos. Mas nós não somos todos iguais!

Fonte: Visão | “Estamos desorientados. Mas tenho 65 anos, já não quero saber”

Vem aí a politicazinha

Penso que António Costa se precipitou ao fazer declarações que deixavam entender o fim da geringonça se os resultados das eleições legislativas confirmassem o das europeias. O Bloco de Esquerda já começou a falar na necessidade de discussão na AR da questão das PPP, com referência ao que a comunicação social diz ocorrer no Hospital de Vila Franca de Xira, o que parece não corresponder à verdade. O PCP, através dos sindicatos por si controlados e depois de recuperar da queda das eleições europeias, não deixará de enviar para a rua o seu povo indignado sempre que achar conveniente para a sua estratégia política. À direita do PS, os indignados com a derrota dos seus partidos nas últimas eleições descobrirão fórmulas de desestabilização política inovadoras, semelhantes àquela conhecida por Acção sobre Rodas que o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais cancelou de imediato. Tudo pode servir de pretexto para atacar o Governo neste período até às eleições legislativas. António Costa e o PS têm de estar atentos com os amigos da onça (da gering onça) e com uma direita à procura de si própria, apanhando os cacos do desastre eleitoral e arremessando-os ao Governo. Vem aí a politicazinha.

Turismo de massas

IMG_1587O navio de grande porte sulca o rio, vagarosamente, pelos canais abertos à navegação, até encontrar, mais à frente, as águas do Atlântico. Trata-se de um navio de cruzeiros, cheio de turistas, que demandaram Lisboa no dia anterior. Como este vêm outros quase todos os dias, nesta época do ano. Lá dentro é um hotel com diversões várias; ou melhor vários hotéis, pois há o muito caro e o razoável, consoante as companhias e o mercado com que trabalham. Estes navios podem transportar, consoante o tamanho, entre algumas centenas a vários milhares de passageiros, para além da tripulação. A cidade de Lisboa é um encanto para esses turistas que procuram sol, boa comida mediterrânea, monumentos que revelem o passado do país cuja História muitos deles desconhecem. A juntar a tudo isso há a beleza da subida do Tejo até Santa Apolónia, e depois a descida de volta ao oceano. Entretanto, com algum alvoroço, correm de bombordo a estibordo e da proa à ré, para tirarem fotografias que trocarão com amigos e familiares e com as quais vão enchendo as redes sociais. Depois de descobrirmos mundos, o mundo começa a descobrir-nos. Enfim, são modas, épocas, negócios. E divertimento para a classe média e média alta que nos procura.

Reflexão ao pequeno-almoço

Há dias em que leio muito, sobretudo romance e poesia, e outros em que espreguiço as leituras. Aquilo que se escreve hoje em dia já pouco me interessa. Há muita gente a escrever e a publicar, e outra tanta a desejar fazê-lo, mas a verdade é que os temas abordados são tão superficiais e descartáveis que raro merecem mais que um olhar cansado. O que acontece com a literatura sucede um pouco com a arte em geral, em que não se ultrapassa uma certa mediania criativa. Há exceções, claro. Mas à medida que há mais informação e instrução escolar não parece corresponder uma maior qualidade, o aparecimento de grandes autores capazes de nos agarrar. Daí que, aos poucos, me vou voltando para a leitura e releitura de escritores que o mundo parece ter esquecido. E o mesmo se passa em relação à música, pintura, jornalismo, cinema e teatro. A bitola está cada vez mais baixa em termos de exigência. Desiludido? Não. É uma fase. Outras virão, de melhor cepa.

Jornais de esquerda

Por que razão a esquerda democrática não tem nenhum jornal diário online, deixa-me estupefacto e triste. Não há jornalistas de esquerda? Não há dinheiro? Talvez a resposta seja: não há interesse. O trabalho da esquerda no governo é não desagradar à direita, desde que o governo se possa manter. É uma esquerda mansa, com interesses que se confundem em grande parte com a direita não arruaceira. Uma direita silenciosa ainda muito ligada à ideia de que a política é para os políticos, desde que estejam do nosso lado. Já não há ideologias, apesar da nomenclatura ainda se usar. Hoje é tudo muito pragmático. Se os políticos estão bem, o mundo é perfeito. O problema é que parece que sempre foi assim, com mais ou menos encenação. Daí que um jornal porta-voz do socialismo democrático não seja, afinal, uma prioridade. Volto a dizer: hoje é tudo muito pragmático e muito cheio de esquemas e conveniências. Os jornalistas trabalham por encomenda e à peça e só os de direita têm ideologia. Nascem com ela agarrada à pele. É uma doença de família. A classe média rasteirinha está mais interessada em show-off, concursos e baboseiras. É muito importante fazer uns gestos com os dedos. É a nova dimensão de vanguarda.