A obra literária

“Uma obra literária também desperta expectativas que precisa de satisfazer, caso contrário deixará de ser lida. As mais profundas ansiedades da literatura são literárias e, na minha perspectiva, elas definem o literário ao mesmo tempo que se tornam tudo excepto idênticas a ele. Um poema, um romance ou uma peça adquirem todas as desordens da humanidade, inclusive o medo da mortalidade, o qual se transmuda, na arte literária, na demanda de ser canónico, de ingressar na memória comum ou societal.”

Harold Bloom in “O Cânone Ocidental”, tradução de Manuel Frias Martins, Círculo de Leitores, Lisboa, (jan) 2013

O que é um romance?

Um romance é aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…

Al Berto, in “Entrevista à revista Ler (1989)”

Incentivos à leitura

Onde é que estão os incentivos à leitura? Que ideias tem o Governo para a dinamizar junto de escolas, bibliotecas, na rua, nos transportes, etc? Falo da leitura e do livro, a que estou mais ligado. Mas podia falar do teatro, do cinema, da arte em geral. Pedir apenas aos escritores e ilustradores que, mais ou menos à borla, vão por esse país fora perorar junto dos alunos, é muito pouco e mal pago. Com imaginação e pouco dinheiro até era possível dinamizar o gosto pela leitura. O carreirismo, porém, embota as ideias e a falta de dinheiro e a burocracia dão cobertura à ineficácia. A desculpa é a alienação com as redes sociais, os smartphones, os computadores e, claro, o orçamento exíguo. Não precisamos de um ministro da Cultura. Para o que se faz basta-nos um chefe de departamento.

Arturo Perez-Reverte

Eva, o mais recente livro de Arturo Perez-Reverte, é tão nostálgico quanto provocador. Numa conversa em Lisboa, diz que, ao contrário do que rezam algumas acusações que lhe foram feitas, este é um romance profundamente feminista, que a década de 30 foi a grande oportunidade perdida e que o Ocidente não tem salvação.

Uma entrevista a merecer uma leitura e uma reflexão. Sigam o link. Jornal Público.

Fonte: Arturo Perez-Reverte: “Acusam-me de ter escrito um romance machista” | Livro | PÚBLICO