Trecho de “A Malta da Rua dos Plátanos”

MaltaPlátanos“O dia estava tão alegre quanto nós ficámos ao travar a corrida dentro da sala da Avó Mariana. O canário que o Avô Bernardo cuidava com tanto esmero parecia participar da exaltação geral, pois trinava com floreados sonoros dignos de enlevar um surdo. Com os pulmões à boca, dificilmente cumprimentámos os presentes, cirandando o olhar em redor à procura da novidade. Por fim, reparámos no único objeto que não era das nossas relações.
– O que é aquilo, Quicas? – adiantou-se Filhoca.
– É uma televisão. Cinema em miniatura.”

(antónio garcia barreto)

Cabeça de Tuba

AcaciasV_300O tenente Coutinho parecia talhado para carranca de brigue. Ou por isso, ou pela fisionomia larga e algo bronca, o certo é que era mais conhecido por Cabeça de Tuba. Um Adamastor sem brilho e sem história que as vicissitudes da vida haviam transformado em oficial menor de um exército moribundo, na véspera de uma retirada definitiva. A bizarria do seu porte e a eficácia do seu gesto assumiam o valor de um arcabuz na guerra moderna. Contava-se que conseguira os galões após vinte anos de tarimba, almoçando feijão com massa em messes fedendo gorduras, remoendo desditas e decorando o código de disciplina militar, vírgula a vírgula, num esforço de meninges assolapadas. Teriam sido anos difíceis, os dessa ascensão lenta mas perseverante, marcando passo ao som de clarins roufenhos tocados por músicos de banda filarmónica desviados da função. Anos a receber ordens sobranceiras de superiores atacados por crises de bílis que sonhavam com campanhas napoleónicas no decurso de digestões difíceis. A seguir a tanto esforço castrense obteve a recompensa de ser subalterno. Isto numa idade em que outros ou eram generais ou já tinham mudado de vida. Era natural que se sentisse oficial de segunda linha, suportando a pedra no sapato, mas não. Pavoneava os galões com o orgulho tosco de quem chegou no fim da jornada e recebeu um prémio de consolação. Mas isso era o menos. O pior é que era um tremendo chato, um manipulador de ódios, fomentando complicações onde só existiam pequenas falhas humanas, destruindo prazeres em nome de um conceito muito próprio de «dever e serviço».

António Garcia Barreto in “À Sombra das Acácias Vermelhas“, Roma Editora, Lisboa

Guerra colonial

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“Quem habita situações como as que estão referidas neste livro habitualmente tarda em publicitá-las, devido à carga emocional que a elas está ligada. Existem sentimentos de humilhação, coisas más que frenam a espontaneidade e necessitam de um tempo decorrido para o esbatimento desejável e libertador. Permite-se, assim, ao leitor a fruição de um testemunho mais distanciado e crítico, porventura mais coerente. António Garcia Barreto é um autor com uma vasta obra publicada na área do romance e literatura infanto-juvenil.” (da contracapa)

Trailer sobre os meus livros

“A malta da rua dos plátanos” é o primeiro romance de António Garcia Barreto, publicado na sua primeira versão, em 1981, e traduzido para russo em 1983, numa edição de cem mil exemplares.
A história desenrola-se na Rua dos Plátanos, em torno de um grupo de crianças, filhos da classe operária, que divide os seus dias em brincadeiras e aspirações a um futuro melhor.
A “malta” são as crianças sem infância de uma época quase esquecida, decorrida entre o final da década de 40 e o 25 de Abril. Crianças, depois adolescentes e adultos, que do nada fizeram tudo, lutando e construindo o seu próprio futuro. Que das privações erigiram pensamentos e da repressão elevaram sonhos e esperança.
Um romance assente na singela beleza de uma amizade de jogos de peão, abrigados pelos plátanos de uma rua que é o retrato social de uma sociedade e de um país de outros tempos, que, não esqueçamos, ajudaram a edificar o presente.

Ana Monteiro – agência literária

O rosto da Malta

“A malta são as crianças sem infância de uma época quase esquecida, decorrida entre o final da década de 40 e o 25 de Abril. Crianças, depois adolescentes e adultos, que do nada fizeram tudo, lutando e construindo o seu próprio futuro.”

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Já viram que bonita é a capa deste livro? E o conteúdo, já conhecem? Estão à espera de quê, meus amigos?

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