Nuno Bragança

“Nuno Bragança? Não conheço nenhum escritor com esse nome”

Passamos a apresentar: aristocrata da casa de Bragança, descendente do rei D.Pedro II, boxeur, boémio, radical fundador das brigadas revolucionarias, libertador da língua portuguesa, escritor.

(in jornal Observador)

nuno_braganca

Um dia peguei numa caneta, em um tinteiro e em uma folha de papel, e fui sentar-me a uma pequena mesa em um pequeno gabinete, e escrevi no alto da folha e em letras grandes:
U OMÃI QE DAVA PULUS
Depois chupei o rabo da caneta, que sabia a lavado e a polido, e escrevi por baixo e em letras pequenas o seguinte:
U omãi qe dava pulus era 1 omãi qe dava pulus grãdes.
El pulô tantu qe saiu pêlo tôpu.
Isto feito levei o papel ao meu tio Maurício, que estava sempre a ler jornais. O tio Maurício olhou para o meu escrito e foi-se embora com ele sem me dar palavra. Dois dias mais tarde reuniu-se o III ConselhodeFamíliaporcausadoPequeno.

Nuno Bragança, “A Noite e o Riso” in “Obra Completa”, Dom Quixote, 2009

A Morgada de Romariz

Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no Teatro de S. Geraldo. Tanto a morgada, como seu marido, o comendador Francisco José Alvarães, choravam, às vezes; e, outras vezes, riam-se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras untuosas e joviais dos quarenta anos sadios, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquele Santo António do século XIII recitou às raparigas uma poesia madrigalesca de Brás Martins – bom homem que esteve quase a regenerar o teatro nacional como ele deve ser. A poesia rezava assim nesta prosa inocente:

Mimosa nasce a flor e vive linda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vício não trabalha prà perder.

Camilo Castelo Branco in “Novelas do Minho”

Compra vantajosa

Hoje, por mero acaso, entrei num centro comercial onde na área central estava instalada uma feira do livro, igual a outras que se encontram, no verão, numa espécie de insufláveis junto às praias. Vendem restos de coleções a metade do preço, ou mais. Mas também lá encontrei livros acabados de sair, como o último do John Le Carré, e. g. É preciso escolher bem, pois também se encontram muitos monos. Comprei:

  • Mais Fados & Companhia“, de Vasco da Graça Moura (poeta, ensaísta, tradutor, gestor público) – por 5 euros (ainda intacto numa bolsa de celofane)
  • Felicidade na Austrália“, de Liberto Cruz (poeta, romancista, ensaísta) – por 2 euros
  • O Olimpo dos Desventurados“, de Yasmina Khadra (pseudónimo do escritor argelino Mohammed Moulessehoul, antigo oficial do exército, que usa o nome da mulher como pseudónimo, pois à época em que começou a escrever ainda era militar no activo. Tem vários títulos traduzidos em Portugal e editados pela Editorial Bizâncio) – por 3 euros
  • O Último Olhar de Manú Miranda“, de Orlando da Costa (escritor, copywriter, militante comunista, pai de António Costa, atual primeiro.ministro, e de Ricardo Costa, jornalista) – por 5 euros

Total: 15 euros. E uma manhã feliz. 🙂

Pedro Páramo

Juan rulfoVim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-lhe que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo. “Não deixes de ir visitá-lo” – recomendou-me. “Chama-se assim e assado. Tenho a certeza de que gostará de conhecer-te.

Juan Rulfo

Mediterrâneo

IMG_2285BREVIÁRIO MEDITERRÂNICO, de Predrag Matvejevitch.  Prefácio de Claudio Magris e tradução de Pedro Tamen. Quetzal Editora.

Um livro denso sobre o Mediterrâneo, a sua história e a sua envolvente mais próxima e mais longínqua, da Europa, de África e do Médio Oriente. De ontem e de hoje (anos 80). Para ler com tempo e reler. Ainda há gente capaz disso? (*****)