O Atelier de Noite

AnaTeresaPereiraUm trabalho literário excelente, com matéria repescada de muitas leituras, policiais em grande medida, mas que não se encaixa naquilo que eu gosto de ler num livro. É a matriz de Ana Teresa Pereira. Talvez precisasse de outro fôlego literário para contar uma grande estória. Mas será que lhe interessa esse tipo de escrita? Lamento as três estrelas para um livro de uma autora de quem possuo várias obras e a quem reconheço um grande domínio da palavra escrita e da efabulação literária. Sabe-me sempre a pouco, como se houvesse qualquer coisa que ficou por dizer e que o leitor não está apto a desenvolver ou nem lhe interessa. O hermetismo de certas passagens leva-me a pensar ser um livro que privilegia os fãs da sua obra.

Ana Teresa Pereira, “O Atelier de Noite”, Relógio D’Água, Lisboa, 2019

Na praia de Chesil

Na Praia de ChesilUma história de amor, quase sempre intensa, mas a que estava vedado, no final, o relacionamento sexual pela frigidez da mulher, que só o revelou na noite de casamento, como se guardasse um segredo. O desencontro de duas pessoas que diziam amar-se, mas apenas de uma forma mais ou menos platónica, de uma das partes, e que não foram capazes de tentar uma mudança no relacionamento. Nada de extraordinário, afinal, no mundo em que vivemos. Apesar da quase banalidade do tema, nos dias de hoje, uma novela bem escrita. ***

Ian McEwan, “Na praia de Chesil”, 5.ª ed., Gradiva, 2019

Nuno Bragança

“Nuno Bragança? Não conheço nenhum escritor com esse nome”

Passamos a apresentar: aristocrata da casa de Bragança, descendente do rei D.Pedro II, boxeur, boémio, radical fundador das brigadas revolucionarias, libertador da língua portuguesa, escritor.

(in jornal Observador)

nuno_braganca

Um dia peguei numa caneta, em um tinteiro e em uma folha de papel, e fui sentar-me a uma pequena mesa em um pequeno gabinete, e escrevi no alto da folha e em letras grandes:
U OMÃI QE DAVA PULUS
Depois chupei o rabo da caneta, que sabia a lavado e a polido, e escrevi por baixo e em letras pequenas o seguinte:
U omãi qe dava pulus era 1 omãi qe dava pulus grãdes.
El pulô tantu qe saiu pêlo tôpu.
Isto feito levei o papel ao meu tio Maurício, que estava sempre a ler jornais. O tio Maurício olhou para o meu escrito e foi-se embora com ele sem me dar palavra. Dois dias mais tarde reuniu-se o III ConselhodeFamíliaporcausadoPequeno.

Nuno Bragança, “A Noite e o Riso” in “Obra Completa”, Dom Quixote, 2009

A Morgada de Romariz

Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no Teatro de S. Geraldo. Tanto a morgada, como seu marido, o comendador Francisco José Alvarães, choravam, às vezes; e, outras vezes, riam-se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras untuosas e joviais dos quarenta anos sadios, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquele Santo António do século XIII recitou às raparigas uma poesia madrigalesca de Brás Martins – bom homem que esteve quase a regenerar o teatro nacional como ele deve ser. A poesia rezava assim nesta prosa inocente:

Mimosa nasce a flor e vive linda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vício não trabalha prà perder.

Camilo Castelo Branco in “Novelas do Minho”