Lançamento Literário do Mês

Com a devida vénia republicado de Livros & Saltos

Livros e Saltos

Já falamos por aqui dos lançamentos literários que me ficam debaixo de olho. Mas hoje resolvi variar um pouco e criar este novo desafio. O lançamento literário (apenas um) que mais se destaca no mês, não propriamente por ser algo que quero desesperadamente ler, mas por ser algo que devido à sua qualidade literária merece, sem dúvida, um destaque especial.

Para o mês de Julho resolvi então destacar o novo As Pálidas Colinas de Nagasáqui de Kazuo Ishiguro.

Resultado de imagem para kazuo ishiguro Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki, no Japão, mas aos seis anos emigrou com a família para a Inglaterra, sendo por isso considerado um escritor nipo-britânico. Queria ser músico mas acabou por tornar-se escritor, tendo já publicado diversos romances, contos e artigos. Venceu, em 2017, o Prémio Nobel da Literatura.

Esta obra, As Pálidas Colinas de Nagasáqui, não é realmente um lançamento, mas antes um reedição da obra de estreia do autor, que estava…

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Memórias de Adriano

Meu caro Marco:

Fui esta manhã a casa de Hermógenes, o meu médico, que acaba de regressar à Villa depois de uma viagem bastante longa pela Ásia. Devia ser observado em jejum; tínhamos marcado a consulta para as primeiras horas da manhã. Deitei-me num leito depois de ter tirado o manto e a túnica. Poupo-te a pormenores que te seriam tão desagradáveis como a mim próprio e à descrição do corpo de um homem que avança na idade e se prepara para morrer de uma hidropisia do coração. Digamos apenas que tossi, respirei e retive o fôlego conforme as indicações de Hermógenes, alarmado, a seu pesar, pelos progressos tão rápidos do mal e disposto a atribuir as culpas ao jovem Iolas, que me tratou durante a sua ausência. É difícil permanecer imperador na presença de um médico e difícil também conservar a qualidade de homem.

Marguerite Yourcenar in «Memórias de Adriano», Ulisseia, Lisboa, 1998

Debaixo do vulcão

A república é atravessada, mais ou menos de norte a sul, por duas cadeias de montanhas que formam entre ambas um bom número de vales e de planaltos. Sobranceira a um desses vales, o qual, por sua vez, é dominado por dois vulcões, ergue-se, a uma altura de seis mil pés acima do nível do mar, a cidade de Quauhnahuac. Fica bastante a sul do trópico de Câncer, ou, para falar com mais exactidão, no paralelo 19, quase à mesma latitude a que, a oeste do Pacífico, se encontram as ilhas Revillagigedo, ou, ainda mais para oeste, a ponta mais meridional do Hawai e, para leste, o porto de Tzucox, situado na costa atlântica do Iucatão, perto da fronteira das Honduras Britânicas e, finalmente, muito mais para leste, na baía de Bengala, a cidade indiana de Juggernaut.

Malcolm Lowry in “Debaixo do Vulcão”, Relógio D’Água, 2007

Pela estrada fora

Conheci Dean pouco depois de a minha mulher e eu nos termos separado. Eu acabara de recuperar de uma doença grave de que não vou dar-me ao trabalho de falar a não ser para dizer que teve a ver com essa ruptura extremamente deprimente e a minha sensação de que tudo fracassara. Com a chegada de Dean Moriarty começou o período da minha existência a que se pode chamar a minha vida pela estrada fora. Antes disso sonhara muitas vezes ir para oeste a fim de ver o país, sempre a planear vagamente sem chegar a partir. Dean é o tipo ideal para a estrada, pois nasceu mesmo na estrada, quando os seus pais atravessavam Salt Lake City numa velha carripana, a caminho de Los Angeles, em 1926.

Jack Kerouac in “Pela Estrada Fora”, Relógio D’Água, 1998

À espera do centeio

Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que fazem os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastante suscetíveis com coisas do género, especialmente o meu pai.

J. D. Salinger in «À Espera no Centeio», Quetzal, 2014

O que é um romance?

Um romance é aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…

Al Berto, in “Entrevista à revista Ler (1989)”

Oficiais e Cavalheiros

Evelyn Waugh, autor do celebrado «Reviver o Passado em Brideshead», aborda em «Oficiais e Cavalheiros» a retirada dos ingleses de Creta durante a II Guerra Mundial, oferecendo-nos um espectáculo de desorganização e fuga, nos antípodas da ideia que sempre tentaram passar da sua actuação no conflito. A escrita é sublinhada por fina ironia. Lê-se na contracapa: «Crouchback vê-se envolvido na derrocada militar e na evacuação de Creta, acção pormenorizadamente descrita numa obra em que o autor emprega o seu reconhecido talento satírico.»

Edição da Relógio D’Água, Lisboa, Julho de 2012. Tradução de José Miguel Silva.