Este samba no escuro

Raquel RibeiroQuem entra em Havana pelo oriente sabe que, no recorte do horizonte, as luzes da cidade vão surgir austeras atrás do morro. O Capitólio e o amarelo da cúpula. O azul quase eléctrico do Habana Libre. O verde triangular do Focsa. E uma miríade de pontos a costurar a cidade. Álvaro estava atento, no topo do camião a céu aberto, tiritando até às entranhas com a humidade da noite, à espera de que ela aparecesse como um espectro, adiante, onde o olhar alcançava. Não coçava a orelha quando a comichão assanhava, não cerrava os olhos quando o vento feria, calara a boca há várias horas quando soube que Havana estava perto e que, a partir de então, tudo o que dissesse podia ser usado contra si – mesmo o anunciado espanto boquiaberto quando a vista do Capitólio o arrebatasse.

Raquel Ribeiro in “este samba no escuro” (trecho), Tinta-da-China, Lisboa, 2013

Adeus, princesa

Ficou tudo às escuras na escada quando a porta se fechou atrás deles, e então Mitó atreveu-se a tomar a iniciativa de lhe procurar devagarinho a ponta dos dedos. Não era seu costume. Estava a tactear as paredes à procura do primeiro lance de degraus, sem sequer se lembrar do interruptor cor de laranja, colocado a meia distância entre as duas entradas, que devia lançar sobre a descida a sua luz doentia, como um sonho vago, de contornos amarelos. Ou, mesmo que lhe tenha chegado a ocorrer semelhante hipótese, foi para a rejeitar logo de seguida. Era bom mergulhar de mão dada com ele num tempo muito breve assim desprovido de formas, um mar cego, pensou. Estou navegando. Que grande pedrada.
– Anda, Helmut. Estamos quase no patamar.

Clara Pinto Correia, “Adeus, Princesa”, Clube do Autor, Lisboa, 2012

A obra literária

“Uma obra literária também desperta expectativas que precisa de satisfazer, caso contrário deixará de ser lida. As mais profundas ansiedades da literatura são literárias e, na minha perspectiva, elas definem o literário ao mesmo tempo que se tornam tudo excepto idênticas a ele. Um poema, um romance ou uma peça adquirem todas as desordens da humanidade, inclusive o medo da mortalidade, o qual se transmuda, na arte literária, na demanda de ser canónico, de ingressar na memória comum ou societal.”

Harold Bloom in “O Cânone Ocidental”, tradução de Manuel Frias Martins, Círculo de Leitores, Lisboa, (jan) 2013

Os livros de Julio Verne: grande tesouro literário da humanidade

Hablar de los libros de Julio Verne es ahondar en un mundo de ciencia ficción muy bien elaborado, propio de un genio. Ven y conoce más de su obra y su vida.

Hablar de los libros de Julio Verne es hablar de uno de los tesoros más grandes de la literatura mundial. Este escritor y poeta nació el 8 de febrero de 1828 en Nantes, Francia. Su extenso trabajo ha trascendido y es reconocido globalmente como uno de los principales y más importantes aportes que dieron paso al comienzo del género de la ciencia ficción en la literatura. Luego de una vida llena de sucesos, a la edad de 77 años y sin dejar de escribir, murió a causa de la diabetes.

Fonte: Los libros de Julio Verne son un gran tesoro literario de la humanidad.

Livros para férias

Três romances que podem adquirir online na WOOK a preços de saldo. 20% de desconto, pelo menos hoje. Os dois primeiros são do género policial, protagonizados pelo detective Eneias Trindade e por Rosarinho, a mulher da sua vida. O terceiro é a história de um homem que viveu sempre com um sorriso no rosto e cujo neto, que mal chegou a conhecer o avô, decide desvendar o mistério da sua vida, acabando por descobrir que se intitulava vendedor de felicidade, percorrendo o país com as suas artes e manigâncias. Deste último romance há uma edição em formato e-book.

 

Lançamento Literário do Mês

Com a devida vénia republicado de Livros & Saltos

Livros e Saltos

Já falamos por aqui dos lançamentos literários que me ficam debaixo de olho. Mas hoje resolvi variar um pouco e criar este novo desafio. O lançamento literário (apenas um) que mais se destaca no mês, não propriamente por ser algo que quero desesperadamente ler, mas por ser algo que devido à sua qualidade literária merece, sem dúvida, um destaque especial.

Para o mês de Julho resolvi então destacar o novo As Pálidas Colinas de Nagasáqui de Kazuo Ishiguro.

Resultado de imagem para kazuo ishiguro Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki, no Japão, mas aos seis anos emigrou com a família para a Inglaterra, sendo por isso considerado um escritor nipo-britânico. Queria ser músico mas acabou por tornar-se escritor, tendo já publicado diversos romances, contos e artigos. Venceu, em 2017, o Prémio Nobel da Literatura.

Esta obra, As Pálidas Colinas de Nagasáqui, não é realmente um lançamento, mas antes um reedição da obra de estreia do autor, que estava…

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Memórias de Adriano

Meu caro Marco:

Fui esta manhã a casa de Hermógenes, o meu médico, que acaba de regressar à Villa depois de uma viagem bastante longa pela Ásia. Devia ser observado em jejum; tínhamos marcado a consulta para as primeiras horas da manhã. Deitei-me num leito depois de ter tirado o manto e a túnica. Poupo-te a pormenores que te seriam tão desagradáveis como a mim próprio e à descrição do corpo de um homem que avança na idade e se prepara para morrer de uma hidropisia do coração. Digamos apenas que tossi, respirei e retive o fôlego conforme as indicações de Hermógenes, alarmado, a seu pesar, pelos progressos tão rápidos do mal e disposto a atribuir as culpas ao jovem Iolas, que me tratou durante a sua ausência. É difícil permanecer imperador na presença de um médico e difícil também conservar a qualidade de homem.

Marguerite Yourcenar in «Memórias de Adriano», Ulisseia, Lisboa, 1998