Esmeraldinha

Esmeraldinha estava sentada no sofá, a pintar as unhas dos pés de cor verde. No final, os dedos dos pés pareciam um relvado. Inexplicavelmente, começaram a nascer pequenos malmequeres amarelos e brancos, e florinhas azuis, nas unhas. O seu chihuahua deu um salto para o sofá, cheirou-lhe os pés, alçou a pata traseira e marcou território com uma esguichadela de urina.
— Malvado! — gritou Esmeraldinha.
E não é que o cão sorriu.

António Garcia Barreto

A livraria

A3ED0984-5127-44AC-B220-15FB73F0FFF8Passei quase cinco anos da minha juventude a trabalhar numa grande livraria do Chiado. Grande, de ocupar todo um prédio de três andares. Fui para lá, a meu pedido, depois de ter reprovado um ano. Estava um pouco cansado da escola. A verdade é que a situação se conjugou com outra semelhante: a minha mãe conhecia a mulher do gerente e o filho deles também tinha reprovado nesse ano. Éramos da mesma idade e cábulas.
Eu gostava de livros, lia tudo o que me caía nas mãos. Além de revistas de histórias aos quadradinhos, como o Cavaleiro Andante, jornais infantis e revistas com mulheres nuas, de procedência desconhecida. Lembro-me que nas duas primeiras semanas me foi dado como tarefa única, percorrer, de pescoço no ar, todas as secções da livraria, do rés-do-chão ao último andar, familiarizando-me com títulos, tipos de livros e lugares de arrumação. Só para terem uma ideia, havia secções tão díspares como medicina e direito; desporto e viagens; agricultura e livros infantis; literatura e engenharia; arte e livros estrangeiros; história e livros escolares, além de secções de revistas nacionais e estrangeiras.
Ao fim dessas duas semanas, não conseguia baixar o pescoço. Aquilo era um castigo. Por ter reprovado? Ou porque o trabalho castigava? Estive quase para bater em retirada, saindo pela porta dos fundos, sem me justificar. Mas eu gostava de livros, do cheiro do papel impresso, e da possibilidade e surpresa de descobrir mundos sempre que abria um livro. E adorava aquelas revistas estrangeiras que me davam a conhecer outras realidades. Não sendo despiciendo para o meu interesse de adolescente as fotografias, a cores, de atrizes de cinema, em biquini, que a minha imaginação logo despia totalmente. Continuar a ler “A livraria”

Detetive Eneias Trindade

Feitas as abluções matinais, vesti um fato de tecido leve, escolhi um chapéu de tom claro e saí de casa disposto a tomar o pequeno-almoço na leitaria Mimosa. Café com leite e uma torrada bem coberta de manteiga, a que o meu compadre Artur acrescenta duas colherzinhas de doce de gila, para deixá-la com um sabor peculiar. A felicidade pode ser um instante assim.
Na leitaria, as mesas estavam quase todas ocupadas pelos clientes habituais. Um jornal, em cima da mesa, apertado na régua de madeira, esperava que alguém decidisse pegar-lhe. Ler o Heraldo de Lisboa é uma das minhas rotinas diárias mal saio à rua, antes de ir para o escritório. Através da montra aprofundei o contacto com o movimento da cidade. Lisboa encanta-me mesmo quando a realidade que nela se vive me desencanta. Sou sensível aos seus cheiros e à sua luz, aos pregões e à maresia que, em dias de brisa, sobe do Tejo. Funcionários de rosto inexpressivo dirigiam-se para os bancos e repartições públicas, num ritmo de passada imposto pela rotina. O pregão de um ardina ecoou dentro da leitaria. Era uma voz de criança enrouquecida pelo excesso de uso e pela friagem das madrugadas à porta das oficinas gráficas. Logo a seguir, chegou-me o chiar do rodado de um elétrico da Carris. Buzinadelas e outros sons difíceis de interpretar completavam a melodia desse início de manhã. Continuar a ler “Detetive Eneias Trindade”

sangriaHá sardinhas no prato ao lado de
uma travessa com sardinhas
Há salada no prato ao lado de
uma travessa com salada
Há um copo de sangria ao lado de
um jarro de sangria

Só falta a companhia

António Garcia Barreto

(imagem: Gerador)