A perna

Um homem sentado num banco de jardim com um ar visivelmente cansado, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça enfiada entre as mãos, soltou um prolongado suspiro. Uma mulher que acabara de se sentar na outra extremidade do banco, sem que ele desse por isso, olhou-o de forma perscrutadora. Parecia querer adivinhar-lhe as narrações da alma.
— Sente-se bem? — perguntou com uma amabilidade impositiva.
Ele pareceu acordar da sua dor.
— Esta maldita perna não me dá descanso.
— Precisa de ajuda?
O homem sorriu. Um sorriso doloroso. Levantou a calça até ao joelho e desmontou a perna artificial, que lhe magoava o coto.
— Eu cá me arranjo — acabou por responder.

António Garcia Barreto, “A Menina Eva e Outras Estórias de Vizinhança”

O Menino

O que o Menino gostava era da aventura de viajar de comboio até à terra dos avós. Todos os anos pelas férias grandes. Uma aventura como aquelas que lia nos livros onde aprendera a soletrar ainda antes de ir para a escola. Uma viagem que demorava horas embalado pelo ligeiro solavanco da carruagem a deslizar sobre os carris, o som do apito da máquina a vapor varando o espaço, aviso da sua circulação junto a passagens de nível ou na curva dos caminhos. Cheirava a fumo largado pela chaminé da locomotiva, uma nuvem de um branco-cinza, resultado da queima do carvão na fornalha da máquina aquecendo a água da caldeira produzindo a pressão do vapor que fazia a locomotiva puxar as carruagens. Tudo isso lhe ensinara o avô, antigo maquinista dos caminhos de ferro.
Gostava daqueles minutos de paragem nas estações principais onde umas mulheres se aproximavam das janelas para vender pequenas bilhas de água fresca, pastéis de feijão, arrufadas e, às vezes, cachos de uvas. O Menino tinha sempre vontade de beber água, comer um pastel de feijão ou uma arrufada, e um galho de uvas. A viagem continuava com a paisagem a fugir do vidro da janela pela esquerda alta.

(agb)

O futuro

O gato ultrapassou a janela aberta com os seus passinhos de nuvem, continuando a caminhar como se pisasse algodão até se imobilizar numa pose de verdadeiro felino. A seguir deu um salto e imobilizou a presa, uma ave ainda nova, que despiu de penas e comeu com regalado prazer.

No dia seguinte, a Polícia dos Animais deteve o gato por homicídio, em função da queixa apresentada por um homem amante de aves canoras. O tribunal condenou o gato a 5 anos de gatil, apenas com uma hora diária de recreio ao sol. Corria o ano de 2050.

(agb)

O teu sorriso

Como é bom
vestir o teu sorriso e
usá-lo logo pela manhã
quando os pardais
chilreiam nas árvores
Fica o dia mais claro
o peito mais livre de canseiras
a fadiga mais suave no coração
Como é bom
vestir o teu sorriso e
tê-lo sempre à mão

António Garcia Barreto in “Lúcido Rumor”