O cio das manhãs

É só para relembrar. Poesia. Em breve nos locais habituais e online, e também no Brasil. Preço da edição em Portugal 12€. No Brasil R$32. E-book 5€.

“O cio das manhãs”. Poesia. Astrolábio Edições.

Melancolia

Contigo viajo à procura do sol
de sorrisos cristalinos
como o orvalho das manhãs
para acender a luz e
iluminar a minha tristeza

Minha amiga, alma gémea
minha caderneta de versos
que escrevo nas manhãs cinzentas
quando tu vens procurar
o meu silêncio e dormir a meu lado
num conforto de palavras

Não penses que te amo
embora andes sempre a meu lado
desafiando-me a quebrar
Não conseguirás impedir-me
de procurar o sol das tardes mornas e
doces, de produzir canções alegres
e de caminhar pela vida
de rosto iluminado e olhar determinado
Não me derrotarás, melancolia.

© António Garcia Barreto

Cartas de Amor (3)

Essa capacidade de ser diferente num tempo de estereótipos fê-lo sair do anonimato que tanto preservava. Teve, à sua escala, dias de glória. Mas nos últimos anos a procura dos seus serviços diminuíra tanto que passava dias sem escrever uma única carta. Os tempos eram outros, reconhecia, contrafeito. Às vezes, paravam junto à sua banca com intenção de encomendar uma carta, mas depois olhavam o relógio e diziam que não tinham tempo. Ficava para outra vez. Camilo Kappa pensava, amargurado, que o amor deserdara o mundo. Agora havia apenas pressa, desinteresse, frivolidade. Como era possível viver sem enviar uma carta de amor a alguém? Parecia inexplicável. Como não tinha praticamente nada para fazer ocupava o tempo a observar os outros. A conclusão a que chegou depois de muito observar, foi que as pessoas levavam o dia num jogo de aparências. De fingimentos. E competiam por pequenos nadas com uma ferocidade doentia, mostrando-se desinteressados das grandes causas. Ou, pelo menos, alheadas. Isso tudo era falta de amor. De cartas de amor, também. E uma dúvida assaltou-o num desses momentos de desencanto e falta de trabalho: como seria o futuro sem cartas de amor? Seria certamente triste, como o seu presente. Nos últimos quinze dias ninguém o procurou para escrever uma única carta. Chegou a pensar que queriam ver-se livre dele, esquecendo-o. O ostracismo pode matar com a eficiência e a voluptuosidade de um gás. Agora que tinha todo o tempo do mundo, sentia-se vazio, inútil. E bastaria escrever uma carta de amor para regenerá-lo com a vida. Foi então que percebeu que nunca tinha escrito a sua carta de amor. Essa revelação desassossegou-o. Do pensamento ao acto foi obra de um impulso. Esmerou-se nas frases e na caligrafia, no sentimento. Saiu uma carta perfeita, como, aliás, todas as outras que escrevera ao longo da vida. E correu ao posto de correios para expedi-la em Correio Expresso.
Semanas depois a carta era-lhe devolvida num sobrescrito fechado, juntamente com algumas palavras inesperadas:
«Helena, a destinatária, morreu há dez anos cansada de esperar por uma carta de amor que lhe fora prometida».

FIM

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de Amor (2)

(continuação)

Em resultado destes factos, ou talvez não, acabou por assentar banca, permanente, sob o plátano centenário, deixando de procurar pelas aldeias os corações apaixonados que pretendiam os seus serviços de caneta, papel e alma. Tudo acondicionado em sobrescritos de cor azul ou rosa, consoante a tradição e o encomendador exigiam. Agora, quem necessitasse de uma carta de amor escrita a preceito, procurava-o sob o plátano e ditava as linhas-mestras da missiva. De imediato Camilo Kappa elaborava a carta com uma eficácia desarmante. Em seguida, lia-a ou dava-a a ler e, se preciso fosse, era também ele que a expedia no posto de correios da localidade. Sempre em Correio Expresso ou outra forma prioritária, que o amor é impaciente, esclarecia. E nesse aspeto mostrava-se atualizado.
As cartas de amor que Camilo Kappa escrevia tinham o dom ou a arte de unir os namorados para o resto da vida, felizes, como nos contos de fadas. Talvez por isso as mães recomendassem às filhas apaixonadas que, pelo menos uma vez, passassem pela banca de Camilo e lhe pedissem para escrever uma carta para os namorados. E as mães de rapazes casadoiros mandavam dizer o mesmo por interposta pessoa. Estava em causa a felicidade dos filhos. Realmente dava gosto ler uma carta, qualquer que fosse o modelo, escrita por Camilo Kappa. Não era só o sentimento que as habitava, belo e estranhamente perfumado, mas também a ternura, alguma malícia, a felicidade em tons de azul e oiro. A própria letra com que as cartas eram escritas era tão bela, que só podia sair das mãos de um calígrafo de coração apaixonado. Pelo menos, era o que afirmavam os mais acérrimos defensores das cartas de amor escritas por Camilo Kappa.

(continua e termina na próxima postagem)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de amor (1)

Contemporânea Editora. Edição esgotada
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Camilo Kappa era escritor. Um escritor de cartas de amor. Sentava-se todas as tardes debaixo de um plátano centenário, no largo do mercado da aldeia, com uma escrivaninha improvisada e uma grande placidez no olhar. Na sua frente o material de escrita: uma caneta de tinta permanente, um bloco de folhas de papel e alguns modelos de cartas para auxiliar a escolha do cliente. Um dia perguntaram-lhe por que usava caneta de tinta permanente numa época em que as esferográficas dominavam o mercado. Explicou que uma carta de amor tinha de ser escrita com uma caneta nobre, porque o amor merecia-o. Ninguém mais se atreveu a fazer-lhe a mesma pergunta. De início, outros prestadores de serviços ambulantes, oferecendo-se para plastificar cartões ou preencher impressos oficiais, montaram banca ao lado de Camilo Kappa. Mas este depressa os abandonou e preferiu o lugar solitário debaixo do plátano, pretextando que escrever uma carta de amor exigia solidão.
Às duas da tarde, nos dias amenos, Camilo Kappa abria o escritório. Sentava-se num banquinho de lona aguardando pela chegada dos clientes. O seu olhar neutro e uma pose simpática, embora distante, agradava à clientela. Afinal, uma carta de amor exige discrição e Camilo Kappa aparentava-a. Há muitos anos que escrever cartas de amor era a sua profissão. E também a sua forma de contribuir para a felicidade do mundo. Viajara de aldeia em aldeia aproveitando os dias de mercado para escrever as cartas que as raparigas e os rapazes lhe solicitavam, a troco de uma gratificação deixada ao livre arbítrio do encomendador. Nos últimos anos, porém, registara-se um acentuado decréscimo de interessados em cartas de amor. Camilo Kappa andava triste, não só por ver diminuir o seu já parco rendimento, mas porque escrever cartas de amor era parte fundamental da sua vida. As cartas de amor alimentavam-lhe o estômago e a alma. Um desses dias confessou mesmo a uma cliente que as pessoas aparentavam ter cada vez mais estômago e menos alma. Por isso não escreviam cartas de amor. Houve quem tentasse fazê-lo compreender que actualmente existiam outras, muitas e diversas solicitações à nossa volta. Que o mundo da informação globalizou os sonhos e os gestos, que as pessoas namoravam à velocidade de bytes por segundo através da Internet, por e-mail e telemóvel. Já ninguém falava do seu amor por carta, preferindo praticá-lo nas suas diversas vertentes e ensejos. E sorriam perante o seu olhar apagado e distante. Um professor com quem às vezes bebia um copo no bar do mercado, confessou-lhe que o pragmatismo invadira o mundo. Os sonhos eram moldados pelos programas de televisão e o amor transformara-se num jogo com vencidos e vencedores. Camilo Kappa encarava as pessoas e as suas opiniões sem lhes dar muito crédito. Respondia-lhes que os sonhos tinham sete fôlegos, como os gatos, não sendo fácil reduzi-los a estereótipos. O amor trocado através de cartas ficava registado não só no coração, mas também em suporte de papel, para mais tarde recordar. Rematava que não se pode reduzir o amor e a vida a escassos momento de ventura física.

(continua)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Importante é subir o monte

Enamorei-me dos teus pés
dos passos que eles dão
no espaço da minha imaginação

Juntei os meus aos teus pés
para percorrermos a vida
lado a lado, de lés a lés

Atravessamos charnecas em flor
subimos ao cimo dos montes
os meus pés à frente
ou teus pés atrás
ou vice-versa tanto faz

Importante é subir o monte
chegar ao cume e olhando o
que a vista alcança
ter a certeza que a subida
não foi vã esperança

© António Garcia Barreto

O Palácio do Engano

O viscondezinho ganhou corpo muito depressa. Cresceram-lhe as pernas em jeito de andas, o peito era uma tábua, no rosto cresceu-lhe uma penugem de passarinho novo, e o olhar dir-se-ia envergonhado do corpo a que pertencia. Dedicou-se aos estudos com entusiasmo discreto e não mais se ouviu falar nas suas diabruras irritantes. Continuava a escrever num caderno pautado, tendo De Sotto explicado tratar-se de um diário, conquanto De Lucas não divulgasse o teor da sua escrita. Também podia estar em experiências da fase de poetar. Estrofes de amor por alguém. Ou de rancor, quem sabe. De Lucas já mostrara ser um rapaz de extremos, embora os outros devessem ter bom senso. Aos poucos foi perdendo a aura que tinha de líder dos miúdos que se reuniam nos jardins, ou no Palácio da família, para jogos e brincadeiras. Tornara-se igual a tantos outros rapazes da sua geração. Nada o fazia sobressair ao olhar dos colegas, nem mesmo a estatura esganiçada. Nessa época, a população de Longomar andava preocupada com o aumento do custo de vida, a escassez de mão de obra para trabalhos pesados, vivendo o pesadelo de ver os filhos arregimentados para uma guerra inútil. Algumas detenções de vizinhos de quem os familiares desconheciam o paradeiro, aliado a terem sido levados num automóvel preto que não fazia serviços de aluguer nem de táxi, também preocupava as pessoas. Eram mistérios que as noites guardavam num silêncio suspeito, a que só algumas lágrimas vertidas pelas famílias, no interior das habitações, pareciam conferir significado. De Sotto também crescera, embora noutro formato, e afastara-se um pouco do primo e amigos comuns por causa de uma rapariga que usava vestidos às bolinhas e o cabelo apanhado com uma fita preta, levando os dias a ouvir música dos Beatles. Além disso, e talvez mais importante do que isso mesmo, era o facto de ter olhos cor de azeitonas verdes, pintar os lábios de um carmim intenso e quando beijava De Sotto tudo à volta dele arder. Chamava-se Ana Dori, era cheiinha de corpo, sem ser gorda, e aguada por coisas de sexo. Quando estava perto de um homem parecia que toda ela tremia e não era de frio nem de medo. Isso logo aos catorze anos. Os seus olhos brilhavam como os de uma criança perante um doce. Segundo os entendidos, que nestas coisas surgem sempre com a sageza das suas afirmações, era o sangue a borbulhar nas veias de Ana Dori que a deixava naquele estado. Entrara numa idade em que as hormonas comandam a vida. A sua vida, em particular. Nessa idade já conhecera o pecado e pecara de todas as formas e feitios. Ainda havia de dar muitos calafrios a De Sotto depois de o surpreender com o fogo de inusitados calaquentes.

António Garcia Barreto, “O Palácio do Engano”, trecho do romance registado no IGAC – Inspeção-Geral das Atividades Culturais.

Balada do Jardim de Pedras

A noite iluminou-se com a luz de mil archotes. Era dia sendo noite. Uma chuva de estrelas desabou sobre a minha cabeça evocando uma cascata de fogo-de-artifício. Não foi alegria o que senti, mas um repentino e inexplicável aperto no peito, um sufoco de adeus-vida. Algo de muito grave estava a acontecer e eu não podia impedi-lo, nem fugir. A cidade já sofrera, séculos atrás, um abalo devastador, que a reduzira a cinzas e a pó. Nos meus ouvidos repercutiam-se os gritos aflitivos dos sobreviventes. O receio de que a tragédia se estivesse a repetir roubou-me o discernimento. Senti-me perdido num mundo em derrocada. Minutos depois, compreendi que estava apenas a acordar de um sonho agitado após uma noite de insónia. Olhei para o teto das águas-furtadas com um olho fechado e o outro aberto, tirando a prova dos nove à realidade. O estuque estava no seu lugar e o mundo também. Senti um forte desejo de tomar uma chávena de café, aromático e fumegante. Era urgente acordar. Sou muito lento a reagir pela manhã. Preciso de algum tempo de adaptação antes de poder desafiar o sol e explorar a vida.

Feitas as abluções matinais, vesti um fato de tecido leve, escolhi um chapéu de tom claro e saí de casa disposto a tomar o pequeno-almoço na leitaria Mimosa. Café com leite e uma torrada bem coberta de manteiga, a que o meu compadre Artur acrescenta duas colherzinhas de doce de gila, para deixá-la com um sabor peculiar. A felicidade pode ser um instante assim.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras“, romance (trecho inicial) protagonizado pelo detetive Eneias Trindade. Registado no IGAC – Instituto de Gestão de Atividades Culturais, sob o n.º 3530/2016

Os filhos da ganza

Era domingo. Alvores do dia. Primeiro chegou ela. Abriu a malha de rede que vedava todo o prédio em construção e, num passo demasiado inseguro, subiu pela escada interior em cimento e chegou ao telhado, à altura de um terceiro andar. Aí sentou-se no vértice das abas do telhado, deixando de lado a mochila e uma garrafa quase vazia de um qualquer refrigerante. Acendeu um cigarro ou uma ganza, e ficou a olhar o rio largo, duzentos metros à sua frente, que refletia os primeiros raios da alvorada. Passado uns vinte minutos chegou ele, mochila ao ombro, passo trocado. Do alto onde se encontrava ela vi-o chegar e veio à aba do telhado indicar-lhe onde ficava a entrada sem porta do prédio. Ele subiu não sem antes abrir a porta do WC de rua que servia, em dias de trabalho, os operários. Chegado ao telhado, deixou cair a mochila e não se aguentando sobre o vértice que unia as telhas caiu de costas. Passado pouco arrastou-se sentando-se ao lado da parceira. Era-lhe muito difícil controlar os movimentos. Ficaram ali a fumar, a mascar palavras, enquanto olhavam as águas do rio. Passaram duas horas e o sol incidia forte sobre o telhado de chapa metálica. Ela deitou-se no plano inclinado das telhas e adormeceu. Pouco depois, ele tentou fazer o mesmo, caiu de lado e assim ficou a dormir atravessado sobre as telhas. A noite metera certamente muita bebida, muitos shots, ganzas, muitos voos interiores. Os filhos da ganza.

O bife

Naquela família modesta, de operário e costureira, com dois filhos, a vida corria ao sabor do dinheiro que entrava em casa. Do dinheiro e do vinho. Explico-me: o dinheiro não abundava, às vezes faltava mesmo, e, nessa ocasião, entrava o vinho.
O vinho até entrava de modo engraçado, sempre pela boca e comportamento de Jesualdo, pai e marido, bom homem a quem faltara o carinho de mãe na idade em que ele faz sempre falta. Jesualdo, nos dias mais ingratos, em que a vida lhe corria mal, metia-se nos copos com os amigos e transformava-se, bebesse pouco ou bebesse muito. Se bebia pouco, azedava, ficava atravessado com a bebida, arranjando complicações por tudo e por nada; se bebia muito dava-lhe para o sentimento e chorava sem saber por quê, junto da mulher e dos filhos. Benilde gostava mais desta fase, mas não era ela que mexia os cordelinhos do comportamento do marido. Jesualdo ficava num estado emocional frágil, que um café e uma noite de sono regenerava.
Piores eram os dias em que chegava a casa de olhar fustigador implicando com Benilde e com os filhos a propósito de coisas sem razão, de que só um bêbado se lembra. Foi o que aconteceu naquele dia de verão, ao jantar. Jesualdo entrara em casa a implicar com a mulher por causa de uma camisa mal passada. Depois calou-se, sentando-se à mesa. O jantar, por sinal, ou capricho de Benilde, era um luxo para época: bife com batatas fritas.
— Este bife é rijo! —vociferou com o olhar vermelho, a prometer borrasca.
— Pedi no talho que arranjassem bifes tenros por causa dos meninos — justificou-se Benilde, perante o alheamento das crianças, felizes pelo manjar tão raro em dias de semana.
— Este bife é rijo! — tornou Jesualdo, levantando-se e abrindo a janela da cozinha que dava para um descampado. Pegou no prato com o bife e as batatas fritas e atirou-o pela janela.
Vestiu o casaco e voltou para a taberna. Benilde não chorou. Apenas encolheu os ombros, depois sentou-se à mesa a jantar com os filhos. As crianças comeram tudo. No final, foram à janela ver onde tinha ido parar o prato com o bife e as batatas fritas que o pai atirara pela janela fora.
— O bife era bem bom, mãe — disse uma das crianças. O irmão concordou. A mãe sorriu.

António Garcia Barreto in “Contos Curtos”