VIAJAR

IMG_8840Há um rumorejar de
folhas e ramos
brisa serena
trinado de pássaro
sob a sombra fresca
de uma acácia
Defronte tenho o mar
da cor das águas profundas
sigo um barco a navegar
rumo a um porto no mundo
Levanto-me da mesa do café
e faço a viagem a pé

António Garcia Barreto in “Lúcido Rumor”
(foto minha)

Vamp

A gaja entrou-me no quarto como se me quisesse comer todinho, ali assim, desprevenido, como vim ao mundo, mas em formato actualizado. Fiquei a vê-la avançar de olhos brilhantes, seduzindo-me com a sua vozinha estrídula e as suas pernas longas. Quando se aproximou puxei o gatilho do spray e matei-a. Detesto melgas.

António Garcia Barreto (da série Microcontos)

Plátanos

Os plátanos são árvores do género Platanus e da família Platanacae de folhas palmilobadas cujas flores são uns globos verdes do tamanho aproximado de uma bola de golfe. Chegam a atingir os 50 metros de altura. À medida que crescem e os troncos engrossam, crescem também os ramos com folhas largas produzindo uma sombra agradável no verão. É uma árvore de folha caduca, pelo que, a partir do outono as folhas amarelecem, como as das videiras, e caem, deixando a árvore despida durante todo o inverno. Os plátanos são as árvores da minha infância por várias razões, que não vêm agora ao caso (ou virão?). Sempre gostei do seu porte altivo e dessas flores em formato de pequena bola que serviam, na minha meninice, ainda longe de equipamentos como a televisão, o computador e o telemóvel, que passariam a captar a atenção de miúdos e graúdos; pequenas bolas que serviam, dizia eu, para jogar hóquei no asfalto das ruas com stiques improvisados pela imaginação dos rapazes — a Malta da Rua dos Plátanos. Foi um pouco por causa da beleza e aconchego dessas árvores da minha rua, da infância que tive e dos amigos com quem convivi, que um dia publiquei um livro (entre muitos outros), que agora teve nova edição, revista, e que espero possa ser do agrado de muitos leitores. A sua tradução em russo, em 1983, teve uma tiragem de cem mil exemplares, numa editora já desaparecida: a Ráduga. E também nela aparecem as folhas dos plátanos.

Esta nova edição do livro pode ser adquirida nas livrarias e também online, em diversos sites: BOOK COVER (a editora), WOOK, BERTRAND, FNAC, ANA MONTEIRO (a agente literária), etc.

 

Outono

Agora que o outono começa a abandonar as folhas das árvores, como os pássaros largam as penas em época de mudança de roupa, e o céu se cobre de um cinzento nostálgico, percorro o parque no meu exercício matinal e apenas o brilho de uma chuvinha esparsa substitui o brilho do sol ausente. Mesmo assim há quem esteja sentado a ler um livro, ou quem faça exercícios de manutenção física. Rapazes de telemóvel em punho, o olhar vidrado no ecrã, participam num jogo coletivo enquanto percorrem o parque de alto a baixo. Rolas, pombos, melros, alvéolas e outras avezitas anónimas tomam a refeição da manhã. Para que o dia tenha majestade falta-lhe umas pinceladas de sol e de azul no céu. Talvez amanhã, quem sabe?

Benzidos pela chuva

IMG_2363Quando os homens chegam à obra, por volta das oito horas, ou um pouco antes, está a chover. Trabalhar à chuva numa profissão fisicamente dura, é ainda mais duro. Andam todo o dia dobrados construindo as caixas de cofragem ou colocando painéis pré-fabricados que substituem a madeira em algumas situações. Os homens do ferro montam as suas estruturas sobre mesas toscas de madeira e depois colocam a malha de ferro dentro das cofragens para serem cheias com o cimento que as betoneiras transportarão mais tarde. Se constroem o piso andam dobrados apertando as malhas do ferro que o guindaste elevou e depositou sobre a base de madeira. Continua a chover. Não é uma chuva torrencial. É de molha tolos, como se diz. Mas os operários não são tolos: precisam apenas de fazer o seu trabalho porque tem prazos a cumprir. Melhor sorte tem os pedreiros que elevam as paredes de tijolo já mais protegidos da chuva, mas não das correntes de ar que sopram pelos canais abertos entre as paredes. Quando chegar o meio-dia recolhem-se debaixo de um telheiro e almoçam o que trouxeram de casa. No final, dão uma corrida até ao café mais próximo, tomam uma bica e, provavelmente, cortam-na com aguardente.

Domingo de outono na praia

PraiaEra um belo dia de outono. A praia não perdera ainda o seu encanto dos meses mais quentes, apenas tornara esse encanto mais suave. O sol secara o areal e algumas pessoas deitaram-se na areia, com a roupa que traziam no corpo, aproveitando para receber a bondade daquele calor macio que ajudava a retemperar forças. Era domingo, um dia bom para conviver com a natureza após o almoço. Um casal apanhava seixos; outro passeava os seus cães ao longo da praia. No mar surfistas defrontavam a ondulação forte, que ali não era tarefa para amadores. As ondas morriam no areal em cachoeiras de espuma, que permanecia sobre a areia até à próxima rebentação. Um pai jogava com o filho um jogo de tabuleiro sentados a uma mesa e pareciam felizes. À porta de um restaurante de praia, uma casa antiga erguida em cima de umas palafitas, dois homens com ferros e sacos de rede, à sua ilharga, de apanhadores de polvo, bebiam cerveja. No alto das arribas, pessoas olhavam o mar como se dele esperassem algum sinal. De entre elas, algumas conversavam do que a vida lhes sugeria, outras aproveitavam para uma fotografia tirada com o telemóvel. Cada qual, a seu modo, aproveitava esses momentos de serenidade de modo a recuperar o equilíbrio do corpo e da alma.

Tobias, um gato a dias

cat-3687275_960_720Estou a olhar para um gato que, na rua, recolhido numa nesga de sol faz a sua higiene diária. Está agora indeciso entre subir ou não subir um muro. Decidiu-se pela subida. E lá continua ao sol, agora em cima do muro, junto a uma romãzeira, prosseguindo na higiene. Solitário como todos os gatos de rua, sabe no entanto onde ir tomar o pequeno-almoço. A sua atenção foi agora despertada por uma lagartixa. Que entretanto se escondeu num buraco. Um pequeno caracol desliza pelo muro a uma velocidade capaz de irritar um cágado. O gato dá-lhe uma sapatada que o derruba. É a hora do caracol por os corninhos ao sol. Mas o gato não gosta de cenas canalhas. Lá terá as suas razões. Alguém terá de explicar-lhe que na ponta daquelas antenas vão os olhos do caracol. Não serei eu a fazê-lo. Pé ante pé vai agora até à porta de uma casa onde deve ter refeição prometida. É um gato novo, de pelagem cinzenta. Vou chamar-lhe Tobias. Um gato a dias.