O Palácio do Engano

O viscondezinho ganhou corpo muito depressa. Cresceram-lhe as pernas em jeito de andas, o peito era uma tábua, no rosto cresceu-lhe uma penugem de passarinho novo, e o olhar dir-se-ia envergonhado do corpo a que pertencia. Dedicou-se aos estudos com entusiasmo discreto e não mais se ouviu falar nas suas diabruras irritantes. Continuava a escrever num caderno pautado, tendo De Sotto explicado tratar-se de um diário, conquanto De Lucas não divulgasse o teor da sua escrita. Também podia estar em experiências da fase de poetar. Estrofes de amor por alguém. Ou de rancor, quem sabe. De Lucas já mostrara ser um rapaz de extremos, embora os outros devessem ter bom senso. Aos poucos foi perdendo a aura que tinha de líder dos miúdos que se reuniam nos jardins, ou no Palácio da família, para jogos e brincadeiras. Tornara-se igual a tantos outros rapazes da sua geração. Nada o fazia sobressair ao olhar dos colegas, nem mesmo a estatura esganiçada. Nessa época, a população de Longomar andava preocupada com o aumento do custo de vida, a escassez de mão de obra para trabalhos pesados, vivendo o pesadelo de ver os filhos arregimentados para uma guerra inútil. Algumas detenções de vizinhos de quem os familiares desconheciam o paradeiro, aliado a terem sido levados num automóvel preto que não fazia serviços de aluguer nem de táxi, também preocupava as pessoas. Eram mistérios que as noites guardavam num silêncio suspeito, a que só algumas lágrimas vertidas pelas famílias, no interior das habitações, pareciam conferir significado. De Sotto também crescera, embora noutro formato, e afastara-se um pouco do primo e amigos comuns por causa de uma rapariga que usava vestidos às bolinhas e o cabelo apanhado com uma fita preta, levando os dias a ouvir música dos Beatles. Além disso, e talvez mais importante do que isso mesmo, era o facto de ter olhos cor de azeitonas verdes, pintar os lábios de um carmim intenso e quando beijava De Sotto tudo à volta dele arder. Chamava-se Ana Dori, era cheiinha de corpo, sem ser gorda, e aguada por coisas de sexo. Quando estava perto de um homem parecia que toda ela tremia e não era de frio nem de medo. Isso logo aos catorze anos. Os seus olhos brilhavam como os de uma criança perante um doce. Segundo os entendidos, que nestas coisas surgem sempre com a sageza das suas afirmações, era o sangue a borbulhar nas veias de Ana Dori que a deixava naquele estado. Entrara numa idade em que as hormonas comandam a vida. A sua vida, em particular. Nessa idade já conhecera o pecado e pecara de todas as formas e feitios. Ainda havia de dar muitos calafrios a De Sotto depois de o surpreender com o fogo de inusitados calaquentes.

António Garcia Barreto, “O Palácio do Engano”, trecho do romance registado no IGAC – Inspeção-Geral das Atividades Culturais.

Balada do Jardim de Pedras

A noite iluminou-se com a luz de mil archotes. Era dia sendo noite. Uma chuva de estrelas desabou sobre a minha cabeça evocando uma cascata de fogo-de-artifício. Não foi alegria o que senti, mas um repentino e inexplicável aperto no peito, um sufoco de adeus-vida. Algo de muito grave estava a acontecer e eu não podia impedi-lo, nem fugir. A cidade já sofrera, séculos atrás, um abalo devastador, que a reduzira a cinzas e a pó. Nos meus ouvidos repercutiam-se os gritos aflitivos dos sobreviventes. O receio de que a tragédia se estivesse a repetir roubou-me o discernimento. Senti-me perdido num mundo em derrocada. Minutos depois, compreendi que estava apenas a acordar de um sonho agitado após uma noite de insónia. Olhei para o teto das águas-furtadas com um olho fechado e o outro aberto, tirando a prova dos nove à realidade. O estuque estava no seu lugar e o mundo também. Senti um forte desejo de tomar uma chávena de café, aromático e fumegante. Era urgente acordar. Sou muito lento a reagir pela manhã. Preciso de algum tempo de adaptação antes de poder desafiar o sol e explorar a vida.

Feitas as abluções matinais, vesti um fato de tecido leve, escolhi um chapéu de tom claro e saí de casa disposto a tomar o pequeno-almoço na leitaria Mimosa. Café com leite e uma torrada bem coberta de manteiga, a que o meu compadre Artur acrescenta duas colherzinhas de doce de gila, para deixá-la com um sabor peculiar. A felicidade pode ser um instante assim.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras“, romance (trecho inicial) protagonizado pelo detetive Eneias Trindade. Registado no IGAC – Instituto de Gestão de Atividades Culturais, sob o n.º 3530/2016

Os filhos da ganza

Era domingo. Alvores do dia. Primeiro chegou ela. Abriu a malha de rede que vedava todo o prédio em construção e, num passo demasiado inseguro, subiu pela escada interior em cimento e chegou ao telhado, à altura de um terceiro andar. Aí sentou-se no vértice das abas do telhado, deixando de lado a mochila e uma garrafa quase vazia de um qualquer refrigerante. Acendeu um cigarro ou uma ganza, e ficou a olhar o rio largo, duzentos metros à sua frente, que refletia os primeiros raios da alvorada. Passado uns vinte minutos chegou ele, mochila ao ombro, passo trocado. Do alto onde se encontrava ela vi-o chegar e veio à aba do telhado indicar-lhe onde ficava a entrada sem porta do prédio. Ele subiu não sem antes abrir a porta do WC de rua que servia, em dias de trabalho, os operários. Chegado ao telhado, deixou cair a mochila e não se aguentando sobre o vértice que unia as telhas caiu de costas. Passado pouco arrastou-se sentando-se ao lado da parceira. Era-lhe muito difícil controlar os movimentos. Ficaram ali a fumar, a mascar palavras, enquanto olhavam as águas do rio. Passaram duas horas e o sol incidia forte sobre o telhado de chapa metálica. Ela deitou-se no plano inclinado das telhas e adormeceu. Pouco depois, ele tentou fazer o mesmo, caiu de lado e assim ficou a dormir atravessado sobre as telhas. A noite metera certamente muita bebida, muitos shots, ganzas, muitos voos interiores. Os filhos da ganza.

O bife

Naquela família modesta, de operário e costureira, com dois filhos, a vida corria ao sabor do dinheiro que entrava em casa. Do dinheiro e do vinho. Explico-me: o dinheiro não abundava, às vezes faltava mesmo, e, nessa ocasião, entrava o vinho.
O vinho até entrava de modo engraçado, sempre pela boca e comportamento de Jesualdo, pai e marido, bom homem a quem faltara o carinho de mãe na idade em que ele faz sempre falta. Jesualdo, nos dias mais ingratos, em que a vida lhe corria mal, metia-se nos copos com os amigos e transformava-se, bebesse pouco ou bebesse muito. Se bebia pouco, azedava, ficava atravessado com a bebida, arranjando complicações por tudo e por nada; se bebia muito dava-lhe para o sentimento e chorava sem saber por quê, junto da mulher e dos filhos. Benilde gostava mais desta fase, mas não era ela que mexia os cordelinhos do comportamento do marido. Jesualdo ficava num estado emocional frágil, que um café e uma noite de sono regenerava.
Piores eram os dias em que chegava a casa de olhar fustigador implicando com Benilde e com os filhos a propósito de coisas sem razão, de que só um bêbado se lembra. Foi o que aconteceu naquele dia de verão, ao jantar. Jesualdo entrara em casa a implicar com a mulher por causa de uma camisa mal passada. Depois calou-se, sentando-se à mesa. O jantar, por sinal, ou capricho de Benilde, era um luxo para época: bife com batatas fritas.
— Este bife é rijo! —vociferou com o olhar vermelho, a prometer borrasca.
— Pedi no talho que arranjassem bifes tenros por causa dos meninos — justificou-se Benilde, perante o alheamento das crianças, felizes pelo manjar tão raro em dias de semana.
— Este bife é rijo! — tornou Jesualdo, levantando-se e abrindo a janela da cozinha que dava para um descampado. Pegou no prato com o bife e as batatas fritas e atirou-o pela janela.
Vestiu o casaco e voltou para a taberna. Benilde não chorou. Apenas encolheu os ombros, depois sentou-se à mesa a jantar com os filhos. As crianças comeram tudo. No final, foram à janela ver onde tinha ido parar o prato com o bife e as batatas fritas que o pai atirara pela janela fora.
— O bife era bem bom, mãe — disse uma das crianças. O irmão concordou. A mãe sorriu.

António Garcia Barreto in “Contos Curtos”

Wilma

Essa azáfama sexual e uma vida a dois semelhante a de jovens noivos começou a cansar-me. A nossa relação estava muito próxima de um casamento sem papel passado, em que a mulher me sustentava a troco de bem-aventuranças sexuais. O pior é que ela começava a ter acessos de ciúme. Perguntava-me por namoradas. Eu encolhia os ombros. Se gostava delas. Voltava a encolher os ombros. Se eram bonitas. Não dava resposta, apenas sorria, o que a deixava de mau humor. O desejo insaciável de Wilma começava a deixar-me à beira do desinteresse. Acho que ela pretendia que eu não sentisse qualquer desejo perante outras mulheres, por me sentir saciado. Mas na minha idade a diversidade é que me saciava, não a rotina de sexo. Wilma parecia ter atingido alguma meta de vida, mas eu ia por um caminho que não escolhera nem me interessava. Casar, viver junto, amantes, amigos coloridos, o que era isso? Não fazia parte dos meus planos de vida. Queria liberdade. LIBERDADE.

António Garcia Barreto in “O Último Voo de Malvina Bleck

Balada do Jardim de Pedras

Ammaia03A noite iluminou-se com a luz de mil archotes. Era dia sendo noite. Uma chuva de estrelas desabou sobre a minha cabeça evocando uma cascata de fogo-de-artifício. Não foi alegria o que senti, mas um repentino e inexplicável aperto no peito, um sufoco de adeus-vida. Algo de muito grave estava a acontecer e eu não podia impedi-lo, nem fugir. A cidade já sofrera, séculos atrás, um abalo devastador, que a reduzira a cinzas e a pó. Nos meus ouvidos repercutiam-se os gritos aflitivos dos sobreviventes. O receio de que a tragédia se estivesse a repetir roubou-me o discernimento. Senti-me perdido num mundo em derrocada. Minutos depois, compreendi que estava apenas a acordar de um sonho agitado após uma noite de insónia. Olhei para o tecto das águas-furtadas com um olho fechado e o outro aberto, tirando a prova dos nove à realidade. O estuque estava no seu lugar e o mundo também. Senti um forte desejo de tomar uma chávena de café, aromático e fumegante. Era urgente acordar. Sou muito lento a reagir pela manhã. Preciso de algum tempo de adaptação antes de poder desafiar o sol e explorar a vida.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras” (trecho). (Romance inédito. Original registado no IGAC – Instituto de Gestão de Atividades Culturais)

Um nova investigação do detetive Eneias Trindade sempre acompanhado por Rosarinho, “A Mulher da Minha Vida“.

Desencontros

Uns amigos convidaram-me para jantar em sua casa. Apareci à hora combinada e toquei à campainha. Ninguém me abriu a porta. Estranhei. Ter-me-ia enganado no dia e na hora? Consultei a agenda do telemóvel onde anoto tudo. Confirmei que não estava enganado. Nunca tinha acontecido com eles, amigos e pessoas responsáveis. Pensei o pior. Uma doença repentina, grave, de algum familiar? Um acidente? Liguei para o telemóvel da Joana, a única de quem tinha o número, éramos colegas. Não atendeu. Decidi ir comer qualquer coisa a um bar e depois tornar a casa. Mais tarde voltaria a contactá-los. No meio da refeição tocou o telemóvel.
– Onde é que te meteste? Convidas o pessoal para jantar em tua casa e não abres a porta. Os vizinhos dizem que te viram sair de casa. Esperamos que tenhas uma boa justificação para este desencontro. Não tinha.

(agb)