Estórias curtas

Um dia, numa ida ao dentista, a médica que me assistia disse-me que um dos meus dentes do siso, do qual não tinha queixas, estava a babar uma purulência qualquer não visível a olho nu. Só a radiografia à boca revelou a situação. Havia que extrair o dente. Marcámos dia e hora. Lá me apresentei. Sentei-me na cadeira, bochechei a boca e a médica anestesiou-me a zona. Passado pouco começou a extrair o dente do siso. Surge um problema. A médica não tinha força para fazer a extração (situação idêntica ocorreu de outra vez com outra médica com o outro dente do siso). Então a médica chama um colega da sala ao lado, um tipo mastodonte. Mais anestesia. O mastodonte encosta a barrigona à minha cadeira, dá um puxão com o extrator, os meus óculos voam do meu rosto aterrando no colo da médica que estava sentada ao meu lado, e o dente ficou no mesmo sítio, embora já um pouco abalado. Vem outro médico, mais novo, repete o gesto e o dente nem mexeu. É então que a médica se lembra de chamar um colega brasileiro de outra sala (era uma clínica grande, de uma grande companhia), que possuía um extrator feito por ele ou por ele aperfeiçoado. O médico brasileiro apareceu sentou-se ao meu lado, usou o seu extrator com saber e subtileza e extraiu-me o dente com mãozinhas de veludo. Não houve palmas para o médico. Mas todos reconheceram que o seu extrator era uma maravilha. Neste jogo clínico Portugal perdeu 3 – 1 com o Brasil.

Apeteces

 O teu amor
 não sei como te dizer
 descobriu-me um dia
 e depois abandonou-me

 Quando me chamas
 sei que não me amas
 Quando me esqueces
 sei que não me mereces
 
Mas tu que não me amas
 e me esqueces… apeteces

© António Garcia Barreto 
(do livro em preparação "Lúcido Rumor")

Exercícios de prosa

Tinha quinze anos quando Guida entrou na minha cama sem pedir licença. Estava a ler, tarefa feliz de todas as noites e não esperava novidades na minha vida. Guida atirou o robe para os pés da cama, sorriu-me e já entre lençóis disse-me que um homem não precisava de roupa quando tinha uma mulher na sua cama. Sem intervenção da minha parte, despiu-me o pijama enquanto o livro caía no chão. Tens frio, perguntou. Não respondi. O frio transformara-se rapidamente em calor. Fiquei tenso. A única vez que tinha estado com uma mulher fora em imaginação enquanto me masturbava na casa de banho. O curioso é que mal conhecia a minha prima Guida. Ela teria dezoito anos. Éramos da mesma altura, mas não tínhamos o mesmo descaramento. Está frio, repetiu ela, enquanto o seu braço se movia e a sua mão direita entrava em terrenos proibidos, ali na confluência das minhas coxas, local da sexualíssima trindade. Enquanto desafiava a minha timidez perguntou-me se já tinha estado com uma mulher. Não respondi. 

Onde é que andam as palavras que não as encontro? 

Advogado do Diabo

Pessoa que defende o contrário do que acredita, ou que defende uma tese que não tem defensores, porque são aparentemente indefensáveis.

A origem da expressão vem da Igreja Católica. Antigamente, nos processos de beatificação, a Igreja nomeava alguém para verificar a verdadeira santidade do candidato a santo. Tentava assim encontrar falhas no processo ou na vida do candidato, objetando contra a sua elevação a santo. Tal tarefa ficava a cargo do advogado do Diabo advocatus diaboli, oposto ao advogado de Deus advocatus dei. Existe um romance do escritor australiano Morris West intitulado «O Advogado do Diabo», publicado em 1959, que foi adaptado ao cinema, em 1977, com o mesmo título e protagonizado pelo ator Al Pacino.

Verbete do livro de António Garcia BarretoO Povo Faz a Língua” (registado no IGAC – Inspeção-Geral das Atividades Culturais)

Exercícios literários

Entrei na igreja e disse para comigo, o que estás aqui a fazer? Não obtive resposta. Não sou bom a encontrar resposta para os meus problemas. Já os dos outros respondem-me melhor. Gosto de entrar naquela igreja seiscentista onde apenas ao domingo, durante a missa, conhece a presença de respeitáveis cidadãos e crentes, presumo, pertencentes à média burguesia de funcionários públicos reformados que habitam na vila. Gente que veio de um passado de forte expressão católica, muito medo disfarçado, e um quotidiano sem rasgos de imaginação. Porque não era bem visto ser audaz e imaginativo, a não ser em atos controlados pela doutrina oficial. Nos restantes dias da semana a igreja encontra-se fechada, ou, eventualmente, aberta, talvez para os santos e os anjos respirarem com naturalidade. Foi assim que, uma vez mais, entrei na igreja para usufruir de uns momentos de paz e meditação. Meditar na minha vida, do que fiz dela e do que poderei ainda vir a fazer. Não rezo. Não sei rezar, salvo o Pai Nosso e as Ave-Marias que aprendi numas vagas aulas de catequese a que me furtei com habilidade e sem remorsos. Não sou anticlerical. Não tenho tempo para isso. Entro aqui, neste imenso claustro, sento-me, olho em redor e sinto-me em paz. Já outros me confirmaram sentirem o mesmo em situações idênticas. É lá com eles. Comigo é apenas um retiro espiritual para robustecer a alma (e esta palavra já encerra alguma religiosidade) e enfrentar os dias em que nem sempre o sol se descobre no meu peito. 

© António Garcia Barreto