O lume desses sinais

Izidro AlvesAinda guardo na minha carteira
o número do teu telefone
os bilhetes de cinema rasgados
o totoloto feito a meias.
Não sei porque guardo tudo isto
eu que não gosto de recordações.
Mas talvez seja por nada já fazer sentido
ou pelo sentido que tudo isto ainda faz.
Agora que até para morrer é tarde
ainda guardo na minha carteira
o lume desses sinais.

Izidro Alves in “Terna Ausência”, Porta do Cavalo, Lisboa, 2005

Entro no café

(Fase de resistência nos Cafés dos Boatos)

josegomesferreira

Entro no café
e vejo as cabeças do costume
em redor da Fogueira Resistente
num bafo de voz curva,
boatos de lume,
boca semiviva.

E assim combate há anos esta gente.
A forjar armas de nuvens
com aço de saliva.

José Gomes Ferreira, “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril, 1976

A Brava

c4f01-davis-lydia-c-theo-cote-author-photo-resize-344c9332ba7b7f3f63c896a3ee1dbb21d6ad65f6-s6-c30Mrs. D escreve:
Temos agora uma miudinha de catorze anos de nome Brava. É de cor, não sendo, porém, considerada preta – tem de ser tratada como portuguesa.
É maravilhosa com o bebé e sabe lavar louça e outras coisas simples. Até agora, porém, tem sido muito irregular nas suas vindas.

Lydia Davis in “Contos Completos”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012

O lobo e o grou

La FontaineVendo-se o lobo engasgado
Com um osso e muito oprimido
Para o tirar, aos mais brutos
Foi cometendo partido.

Persuadido o grou com as juras,
O dilatado pescoço
pela goela do lobo
Meteu, e tirou-lhe o osso.

Pedindo-lhe o prémio: “Ingrato”,
Disse, “que te hei-de pagar?
Não te basta de meus dentes
Salvo o pescoço tirar?”

Fábulas de La Fontaine (Origem da expressão popular “Cair na boca do lobo”.)

Bukowski

BukowskiFoi difícil acreditar. Quando o intervalo terminou, fui para a sala de aula e fiquei a pensar naquilo. A minha mãe tinha um buraco e o meu pai um badalo que deita um líquido. Como é que podiam ter aquelas coisas e andar por aí como se nada fosse e fazê-lo sem dizer nada a ninguém? Quando me apercebi de que eu vinha do líquido do meu pai, apeteceu-me vomitar.

Charles Bukowski in “Pão com fiambre”, Alfaguara, 2017

A Morgada de Romariz

Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no Teatro de S. Geraldo. Tanto a morgada, como seu marido, o comendador Francisco José Alvarães, choravam, às vezes; e, outras vezes, riam-se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras untuosas e joviais dos quarenta anos sadios, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquele Santo António do século XIII recitou às raparigas uma poesia madrigalesca de Brás Martins – bom homem que esteve quase a regenerar o teatro nacional como ele deve ser. A poesia rezava assim nesta prosa inocente:

Mimosa nasce a flor e vive linda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vício não trabalha prà perder.

Camilo Castelo Branco in “Novelas do Minho”

O museu ardeu*

ruialmeida[1]Um dia todos os museus irão arder
E seremos felizes. Imagem por imagem
Esqueceremos quem somos, deitados sobre a cinza,
Livres da angústia da memória e sem remorsos.
(…)

Rui Almeida, “Higiene”, volta d’mar editora, Nazaré, 2019

* primeira estrofe do poema tendo por motivação o fogo que consumiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro (1818-2018), em 2 de Setembro de 2018