O museu ardeu*

ruialmeida[1]Um dia todos os museus irão arder
E seremos felizes. Imagem por imagem
Esqueceremos quem somos, deitados sobre a cinza,
Livres da angústia da memória e sem remorsos.
(…)

Rui Almeida, “Higiene”, volta d’mar editora, Nazaré, 2019

* primeira estrofe do poema tendo por motivação o fogo que consumiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro (1818-2018), em 2 de Setembro de 2018

Na paz e na guerra (trecho)

CachapaNesta Páscoa irei em direcção às macieiras. Hão-de estar floridas. Se tudo correr bem. O ar húmido há-de estar cheio das ervas e dos pinhais vizinhos. Mas se o tempo aquecer vou ouvir o barulho das asas minúsculas dos insectos. As mil batidas de cada asa, repetidas vezes sem conta. E vou sentir o silêncio. Nesse silêncio hei-de pensar na filha que estará a brincar, contente, com os primos. Todos armados em selvagens a correr sem perigo pelo meio das árvores. E não vou ter medo por nenhum de nós.
Algures no mundo há-de estar outro homem como eu. Alguém da minha idade. Alguém que ainda não sabe como tempo passou tão depressa que a pessoa que ele era se multiplicou em família. (…)

Possidónio Cachapa in “O Meu Querido Titanic”, Oficina do Livro, 2005

Casal venha a Lisboa

DavidMourão-FerreiraDalila aconchegou-lhe a roupa à volta do pescoço: certamente julgava-o já adormecido. E virando-lhe as costas, também ela, a seguir, se esgueirou para dentro dos lençóis. Sob o dourado capacete dos cabelos oxigenados, cortados curto, a nuca oferecia um pobre aspecto vulnerável. Na rua, parecia uma mulher quase imponente; mas o pescoço, muito direito, não era apenas o de quem queria aparentar menos de quarenta anos: era igualmente o de alguém que já engolira muita lágrima. Via-se que tinha sofrido um bom bocado. Não confessava, todavia, o que sofrera: exibia, pelo contrário, a cada momento, um passado todo fulgurante – como se pretendesse ocultar, por trás de um leque de plumas, as rugas e os sinais do tempo.

David Mourão-Ferreira in “Gaivotas em Terra”, 7.ª ed., Editorial Presença, Lisboa, 1988

As estátuas começam a caminhar *

O
fim da tarde acontece e as estátuas
voltam à vida
não para levantar a turba (ou moldar
ideologias) mas
por essoutra razão porventura mais prosaica: o
dia de trabalho acabou. Chegou ao fim
mais um dia
(passado a meio de um gesto)
piscando o olho estático a cada fotografia
(ao metálico tinir com que a
calçada
fala). As estátuas descem do alto e
tornam ao movimento
é a pequena vingança pelo que a escassez as obriga –
um dia inteiro quietas
um dia inteiro caladas
um dia a menos na vida.

* João Luís Barreto Guimarães in “Nómada”, Quetzal, Lisboa, 2018

O Porto

Mantova, 08-09-2007
VILA MATAS Enrique, writer
© BASSO CANNARSANo Porto, conservada tal como foi inaugurada em Janeiro de 1906, com a sua deslumbrante fachada neogótica, encontra-se a livraria Lello & Irmão, a mais bela livraria do mundo, a catedral da literatura.
(…)
A vida no Porto tem o ritmo antigo dos pés descalços, como diria Pessoa. É uma cidade longínqua, de outro tempo, e os seus habitantes vestem rigorosamente de cinzento e negro.
(…)
Cidade rara entre as raras. Cidade triste e longínqua em que penso frequentemente enquanto recordo o que disse a mãe de Pessoa quando lhe perguntaram se estava ao corrente de que o seu filho começava a ser conhecido em todo o mundo: “Olhe que o Fernando é tão famoso que até já no Porto o conhecem”.

Enrique Vila-Matas, “Da cidade nervosa”, Campo das Letras, Porto, 2006

Xela Arias

XelaClaro, a vida é séria.

É por isso que morrer não conta.

Era uma garota
cúmplice numa derrota que não
adicionaste. Feliz por teres a insónia
por imortal.

Já temos cadáveres amigos
e conhecidos,
sabem da morte o legado inútil.

Xela Arias, do livro “Intempérione” (Xela Arias faleceu em 2003, aos 41 anos)