Não entendo nada da vida

Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. Contudo há horas, as horas perdidas – e só essas – que queria tornar a viver e a perder.

Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As coisas belas reduzem-se a meia dúzia: o tecto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz.

Raul Brandão in “Se tivesse de recomeçar a vida”, col. brevíssima portuguesa, 4, 1995 (?)

“Amor num aroma intenso a jasmim” (abertura)

JoseDireitinhoQuando há seis meses, na tarde em que os pássaros se esqueceram de cantar enquanto anoitecia, eu o vi chegar ao alto do monte, parar e retomar quase logo depois o caminho em direcção à aldeia, recolhi à pressa toda a roupa que tinha estendida sobre os arbustos de rosmaninho e de alfazema, tirei o avental
– molhado, com manchas de lexívia e espuma de sabão por me encostar sempre demasiado ao tanque –
e fui meter-me em casa.
Ele atravessou a aldeia com um saco de pano ao ombro, uma mala de couro velho na mão e seguido por uma matilha de cães vadios
(dos que abundam pela aldeia, dos que se alimentam nas esterqueiras com a enxúndia e com as vísceras das galinhas e dos perús dos quintais e dos animais grandes do matadouro).
Durante todo o tempo que demorou a percorrer a única rua
– num passo lento e pesado, até entrar na porta lateral da igreja –
espreitei-o por detrás das rendas brancas de pavões da janela da minha casa.
Esteve duas horas na sacristia, a falar com o padre Moisés. Quando saiu, acompanhado pelo padre e por Tomé, o sacristão, para ir morar na casa vazia ao lado da igreja
– a Casa do Fim –
já tinha começado a anoitecer.

José Riço Direitinho in “Um Sorriso Inesperado”, Asa, Porto, 2005

Ali Duaji

Périplo pelos Bares do Mediterrâneo e Outras HistóriasPériplo pelos Bares do Mediterrâneo e Outras Histórias by Ali Duaji

My rating: 3 of 5 stars

Um livro um tanto decepcionante depois da publicidade do editor. É verdade que quando escreveu o livro, Ali Duaji não se considerava um escritor. Algumas vezes iniciava um estória que depois não acabava. O livro retrata uma viagem de uns amigos por vários cidades em torno do Mar Branco (Mediterrâneo) e a escrita dá-nos a ideia de um diário escrito sem grande atenção no decurso dessa viagem. Resumindo: não é um mau livro, mas não consigo dar-lhe mais de três estrelas. E já é boa vontade. Três estrelas pelo facto de “hoje em dia (ser) considerado o pai da novela tunisina.” Preciso de ler outras obras do autor.

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A voz do búzio

O garoto do cabelo cor-de-mel agachou-se, deixou-se escorregar ao longo do último troço de rochedo e encaminhou-se para a lagoa. Embora tivesse tirado o blusão, parte do seu uniforme escolar, e o arrastasse agora pela mão, a camisa cinzenta colava-se-lhe à pele e o cabelo encodeava-se-lhe na testa. À sua volta, a funda clareira rasgada na selva era um banho de calor. Rompia pesadamente por entre as lianas e os troncos quebrados, quando um pássaro, uma visão de vermelho e amarelo, cintilou numa fuga para o alto com um grito de feitiço. A este grito o eco respondeu com outro.
– Eh! – disse uma voz. – Espera um momento!
O matagal num dos bordos da clareira, agitou-se e uma saraivada de gotas de água caiu com estridor.
– Espera um momento – repetia a voz. – Estou aqui preso.

William Golding, “O Deus das Moscas”, Vega, 1997

 

O Rio Triste

Fernando-NamoraNo dia 14 de Novembro de 1965, nesta cidade de Lisboa, um homem saiu cedo de casa e já não voltou. Nesse dia e nos que se seguiram. Também não o viram mais no emprego. Chamava-se ou chama-se (pois há quem pense que o caso não foi suficientemente deslindado), Rodrigo dos Santos Abrantes. Um nome vulgar se exceptuarmos talvez o Rodrigo, e por isso mesmo detestado pelo próprio, que, como se verá mais adiante, projectara mudá-lo para Rodrigo Macieira – as razões também as saberemos a seu tempo.
Vale a pena esmiuçar, e sobretudo fantasiar (já que as pistas concretas de que dispomos não nos levariam longe), as circunstâncias em que se deu esse desaparecimento. Rodrigo, após o pequeno-almoço, tomado como sempre sob a ressaca do maldito despertador, isto é, num silêncio amuado e gestos irritadiços, espreitou os ares pela janela das traseiras, logo deduzindo que a friagem recomendava que se precavesse com a gabardina (…)

O Rio Triste” (abertura), Fernando Namora, Círculo de Leitores, Lisboa, 1983 (edição de 15.000 exemplares)

Uma abelha na chuva (trecho)

Carlos de OliveiraPelas cinco horas de uma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois de árdua jornada que o trouxera da aldeia de Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandarenses, por aquele tempo desabrido.

Carlos de Oliveira in “Uma Abelha na Chuva”, Col. Miniatura, Livros do Brasil, Porto, 2020

O lume desses sinais

Izidro AlvesAinda guardo na minha carteira
o número do teu telefone
os bilhetes de cinema rasgados
o totoloto feito a meias.
Não sei porque guardo tudo isto
eu que não gosto de recordações.
Mas talvez seja por nada já fazer sentido
ou pelo sentido que tudo isto ainda faz.
Agora que até para morrer é tarde
ainda guardo na minha carteira
o lume desses sinais.

Izidro Alves in “Terna Ausência”, Porta do Cavalo, Lisboa, 2005

Entro no café

(Fase de resistência nos Cafés dos Boatos)

josegomesferreira

Entro no café
e vejo as cabeças do costume
em redor da Fogueira Resistente
num bafo de voz curva,
boatos de lume,
boca semiviva.

E assim combate há anos esta gente.
A forjar armas de nuvens
com aço de saliva.

José Gomes Ferreira, “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril, 1976

c4f01-davis-lydia-c-theo-cote-author-photo-resize-344c9332ba7b7f3f63c896a3ee1dbb21d6ad65f6-s6-c30Mrs. D escreve:
Temos agora uma miudinha de catorze anos de nome Brava. É de cor, não sendo, porém, considerada preta – tem de ser tratada como portuguesa.
É maravilhosa com o bebé e sabe lavar louça e outras coisas simples. Até agora, porém, tem sido muito irregular nas suas vindas.

Lydia Davis in “Contos Completos”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012