Exercícios de prosa

Tinha quinze anos quando Guida entrou na minha cama sem pedir licença. Estava a ler, tarefa feliz de todas as noites e não esperava novidades na minha vida. Guida atirou o robe para os pés da cama, sorriu-me e já entre lençóis disse-me que um homem não precisava de roupa quando tinha uma mulher na sua cama. Sem intervenção da minha parte, despiu-me o pijama enquanto o livro caía no chão. Tens frio, perguntou. Não respondi. O frio transformara-se rapidamente em calor. Fiquei tenso. A única vez que tinha estado com uma mulher fora em imaginação enquanto me masturbava na casa de banho. O curioso é que mal conhecia a minha prima Guida. Ela teria dezoito anos. Éramos da mesma altura, mas não tínhamos o mesmo descaramento. Está frio, repetiu ela, enquanto o seu braço se movia e a sua mão direita entrava em terrenos proibidos, ali na confluência das minhas coxas, local da sexualíssima trindade. Enquanto desafiava a minha timidez perguntou-me se já tinha estado com uma mulher. Não respondi. 

Onde é que andam as palavras que não as encontro? 

A Malta da Rua dos Plátanos

“Quicas cumpriu a sua palavra. Procurou novo emprego em Lisboa. Afeiçoara-se à cidade, ao seu movimento, à sua pequena grandeza, ao delírio das horas de burburinho, aos pregões, às personagens exóticas que calcorreavam o Chiado, aos anúncios luminosos, fontes de luz multicor a escorrer do alto dos prédios. Um mundo completamente estranho ao pulsar da Rua dos Plátanos, um coração gigante a bater no peito do país. Talvez fosse por esses pequenos encantos e desafios que a cidade o seduzia tanto. Comprou o jornal e leu as páginas com ofertas de trabalho de uma ponta a outra. Selecionou dois anúncios que o interessaram, pegou numa caneta e em papel e alinhavou as respostas como melhor lhe pareceu. Não era tarefa fácil, mas desenvencilhou-se.

“António Garcia Barreto in “A Malta da Rua dos Plátanos“, Book Cover Editora, Porto, 2019

A Malta da Rua dos Plátanos

Eventuais interessados neste romance podem adquiri-lo na Wook, livraria online.
A “malta” são as crianças sem infância de uma época quase esquecida, decorrida entre o final da década de 40 e o 25 de Abril. Crianças, depois adolescentes e adultos, que do nada fizeram tudo, lutando e construindo o seu próprio futuro.

Um sorriso para a eternidade

Desde criança Tito Borges imagina como teria sido a vida do seu avô materno. Na casa de família onde cresceu, o nome do patriarca não era pronunciado, como se de uma maldição se tratasse. Quando atinge a idade adulta, decide investigar quem foi aquele homem do qual só sabe ter um sorriso encantador, a que não se consegue resistir.

“Um sorriso para a eternidade” é a história de um homem em busca da felicidade, que tem a coragem de não deixar morrer uma memória. Mas até que ponto estamos preparados para encarar a verdade quando decidimos reconstruir um passado que desconhecemos?

Cartas de Amor (3)

Essa capacidade de ser diferente num tempo de estereótipos fê-lo sair do anonimato que tanto preservava. Teve, à sua escala, dias de glória. Mas nos últimos anos a procura dos seus serviços diminuíra tanto que passava dias sem escrever uma única carta. Os tempos eram outros, reconhecia, contrafeito. Às vezes, paravam junto à sua banca com intenção de encomendar uma carta, mas depois olhavam o relógio e diziam que não tinham tempo. Ficava para outra vez. Camilo Kappa pensava, amargurado, que o amor deserdara o mundo. Agora havia apenas pressa, desinteresse, frivolidade. Como era possível viver sem enviar uma carta de amor a alguém? Parecia inexplicável. Como não tinha praticamente nada para fazer ocupava o tempo a observar os outros. A conclusão a que chegou depois de muito observar, foi que as pessoas levavam o dia num jogo de aparências. De fingimentos. E competiam por pequenos nadas com uma ferocidade doentia, mostrando-se desinteressados das grandes causas. Ou, pelo menos, alheadas. Isso tudo era falta de amor. De cartas de amor, também. E uma dúvida assaltou-o num desses momentos de desencanto e falta de trabalho: como seria o futuro sem cartas de amor? Seria certamente triste, como o seu presente. Nos últimos quinze dias ninguém o procurou para escrever uma única carta. Chegou a pensar que queriam ver-se livre dele, esquecendo-o. O ostracismo pode matar com a eficiência e a voluptuosidade de um gás. Agora que tinha todo o tempo do mundo, sentia-se vazio, inútil. E bastaria escrever uma carta de amor para regenerá-lo com a vida. Foi então que percebeu que nunca tinha escrito a sua carta de amor. Essa revelação desassossegou-o. Do pensamento ao acto foi obra de um impulso. Esmerou-se nas frases e na caligrafia, no sentimento. Saiu uma carta perfeita, como, aliás, todas as outras que escrevera ao longo da vida. E correu ao posto de correios para expedi-la em Correio Expresso.
Semanas depois a carta era-lhe devolvida num sobrescrito fechado, juntamente com algumas palavras inesperadas:
«Helena, a destinatária, morreu há dez anos cansada de esperar por uma carta de amor que lhe fora prometida».

FIM

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de Amor (2)

(continuação)

Em resultado destes factos, ou talvez não, acabou por assentar banca, permanente, sob o plátano centenário, deixando de procurar pelas aldeias os corações apaixonados que pretendiam os seus serviços de caneta, papel e alma. Tudo acondicionado em sobrescritos de cor azul ou rosa, consoante a tradição e o encomendador exigiam. Agora, quem necessitasse de uma carta de amor escrita a preceito, procurava-o sob o plátano e ditava as linhas-mestras da missiva. De imediato Camilo Kappa elaborava a carta com uma eficácia desarmante. Em seguida, lia-a ou dava-a a ler e, se preciso fosse, era também ele que a expedia no posto de correios da localidade. Sempre em Correio Expresso ou outra forma prioritária, que o amor é impaciente, esclarecia. E nesse aspeto mostrava-se atualizado.
As cartas de amor que Camilo Kappa escrevia tinham o dom ou a arte de unir os namorados para o resto da vida, felizes, como nos contos de fadas. Talvez por isso as mães recomendassem às filhas apaixonadas que, pelo menos uma vez, passassem pela banca de Camilo e lhe pedissem para escrever uma carta para os namorados. E as mães de rapazes casadoiros mandavam dizer o mesmo por interposta pessoa. Estava em causa a felicidade dos filhos. Realmente dava gosto ler uma carta, qualquer que fosse o modelo, escrita por Camilo Kappa. Não era só o sentimento que as habitava, belo e estranhamente perfumado, mas também a ternura, alguma malícia, a felicidade em tons de azul e oiro. A própria letra com que as cartas eram escritas era tão bela, que só podia sair das mãos de um calígrafo de coração apaixonado. Pelo menos, era o que afirmavam os mais acérrimos defensores das cartas de amor escritas por Camilo Kappa.

(continua e termina na próxima postagem)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de amor (1)

Contemporânea Editora. Edição esgotada
Edição em ebook ou em formato de papel. Clic na imagem para ver na Amazon.com

Camilo Kappa era escritor. Um escritor de cartas de amor. Sentava-se todas as tardes debaixo de um plátano centenário, no largo do mercado da aldeia, com uma escrivaninha improvisada e uma grande placidez no olhar. Na sua frente o material de escrita: uma caneta de tinta permanente, um bloco de folhas de papel e alguns modelos de cartas para auxiliar a escolha do cliente. Um dia perguntaram-lhe por que usava caneta de tinta permanente numa época em que as esferográficas dominavam o mercado. Explicou que uma carta de amor tinha de ser escrita com uma caneta nobre, porque o amor merecia-o. Ninguém mais se atreveu a fazer-lhe a mesma pergunta. De início, outros prestadores de serviços ambulantes, oferecendo-se para plastificar cartões ou preencher impressos oficiais, montaram banca ao lado de Camilo Kappa. Mas este depressa os abandonou e preferiu o lugar solitário debaixo do plátano, pretextando que escrever uma carta de amor exigia solidão.
Às duas da tarde, nos dias amenos, Camilo Kappa abria o escritório. Sentava-se num banquinho de lona aguardando pela chegada dos clientes. O seu olhar neutro e uma pose simpática, embora distante, agradava à clientela. Afinal, uma carta de amor exige discrição e Camilo Kappa aparentava-a. Há muitos anos que escrever cartas de amor era a sua profissão. E também a sua forma de contribuir para a felicidade do mundo. Viajara de aldeia em aldeia aproveitando os dias de mercado para escrever as cartas que as raparigas e os rapazes lhe solicitavam, a troco de uma gratificação deixada ao livre arbítrio do encomendador. Nos últimos anos, porém, registara-se um acentuado decréscimo de interessados em cartas de amor. Camilo Kappa andava triste, não só por ver diminuir o seu já parco rendimento, mas porque escrever cartas de amor era parte fundamental da sua vida. As cartas de amor alimentavam-lhe o estômago e a alma. Um desses dias confessou mesmo a uma cliente que as pessoas aparentavam ter cada vez mais estômago e menos alma. Por isso não escreviam cartas de amor. Houve quem tentasse fazê-lo compreender que actualmente existiam outras, muitas e diversas solicitações à nossa volta. Que o mundo da informação globalizou os sonhos e os gestos, que as pessoas namoravam à velocidade de bytes por segundo através da Internet, por e-mail e telemóvel. Já ninguém falava do seu amor por carta, preferindo praticá-lo nas suas diversas vertentes e ensejos. E sorriam perante o seu olhar apagado e distante. Um professor com quem às vezes bebia um copo no bar do mercado, confessou-lhe que o pragmatismo invadira o mundo. Os sonhos eram moldados pelos programas de televisão e o amor transformara-se num jogo com vencidos e vencedores. Camilo Kappa encarava as pessoas e as suas opiniões sem lhes dar muito crédito. Respondia-lhes que os sonhos tinham sete fôlegos, como os gatos, não sendo fácil reduzi-los a estereótipos. O amor trocado através de cartas ficava registado não só no coração, mas também em suporte de papel, para mais tarde recordar. Rematava que não se pode reduzir o amor e a vida a escassos momento de ventura física.

(continua)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013