Cabeça de Tuba

AcaciasV_300O tenente Coutinho parecia talhado para carranca de brigue. Ou por isso, ou pela fisionomia larga e algo bronca, o certo é que era mais conhecido por Cabeça de Tuba. Um Adamastor sem brilho e sem história que as vicissitudes da vida haviam transformado em oficial menor de um exército moribundo, na véspera de uma retirada definitiva. A bizarria do seu porte e a eficácia do seu gesto assumiam o valor de um arcabuz na guerra moderna. Contava-se que conseguira os galões após vinte anos de tarimba, almoçando feijão com massa em messes fedendo gorduras, remoendo desditas e decorando o código de disciplina militar, vírgula a vírgula, num esforço de meninges assolapadas. Teriam sido anos difíceis, os dessa ascensão lenta mas perseverante, marcando passo ao som de clarins roufenhos tocados por músicos de banda filarmónica desviados da função. Anos a receber ordens sobranceiras de superiores atacados por crises de bílis que sonhavam com campanhas napoleónicas no decurso de digestões difíceis. A seguir a tanto esforço castrense obteve a recompensa de ser subalterno. Isto numa idade em que outros ou eram generais ou já tinham mudado de vida. Era natural que se sentisse oficial de segunda linha, suportando a pedra no sapato, mas não. Pavoneava os galões com o orgulho tosco de quem chegou no fim da jornada e recebeu um prémio de consolação. Mas isso era o menos. O pior é que era um tremendo chato, um manipulador de ódios, fomentando complicações onde só existiam pequenas falhas humanas, destruindo prazeres em nome de um conceito muito próprio de «dever e serviço».

António Garcia Barreto in “À Sombra das Acácias Vermelhas“, Roma Editora, Lisboa

Guerra colonial

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Aquisição online na Wook

“Quem habita situações como as que estão referidas neste livro habitualmente tarda em publicitá-las, devido à carga emocional que a elas está ligada. Existem sentimentos de humilhação, coisas más que frenam a espontaneidade e necessitam de um tempo decorrido para o esbatimento desejável e libertador. Permite-se, assim, ao leitor a fruição de um testemunho mais distanciado e crítico, porventura mais coerente. António Garcia Barreto é um autor com uma vasta obra publicada na área do romance e literatura infanto-juvenil.” (da contracapa)

O rosto da Malta

“A malta são as crianças sem infância de uma época quase esquecida, decorrida entre o final da década de 40 e o 25 de Abril. Crianças, depois adolescentes e adultos, que do nada fizeram tudo, lutando e construindo o seu próprio futuro.”

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Já viram que bonita é a capa deste livro? E o conteúdo, já conhecem? Estão à espera de quê, meus amigos?

Aquisição online na Wook e na Bertand, entre outras livrarias.

A perna

Um homem sentado num banco de jardim com um ar visivelmente cansado, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça enfiada entre as mãos, soltou um prolongado suspiro. Uma mulher que acabara de se sentar na outra extremidade do banco, sem que ele desse por isso, olhou-o de forma perscrutadora. Parecia querer adivinhar-lhe as narrações da alma.
— Sente-se bem? — perguntou com uma amabilidade impositiva.
Ele pareceu acordar da sua dor.
— Esta maldita perna não me dá descanso.
— Precisa de ajuda?
O homem sorriu. Um sorriso doloroso. Levantou a calça até ao joelho e desmontou a perna artificial, que lhe magoava o coto.
— Eu cá me arranjo — acabou por responder.

António Garcia Barreto, “A Menina Eva e Outras Estórias de Vizinhança”

Carminha

Lídia Jorge

Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas. Um pano branco na mão. O braço adejando de encontro ao vidro. Alguidarzinho ajoujado de espuma cremosa, um alguidar maior de pura água macia. Novelo de saias entre pernas. Cadeira de tábua ajaezada de nódoas, flores vermelhas. Os pés aí juntos no fundo côncavo. As pernas de leve penugem rasinha. Então Carminha empertigava-se de encontro à mancha renitente entre a unha e o vidro. Minúscula, fruto de mosca palpitando asas em tempo vazio, compondo um ovo de esterco redondo.

Lídia Jorge, «O Dia dos Prodígios», Europa-América, 4.ª ed., 1982

O Menino

O que o Menino gostava era da aventura de viajar de comboio até à terra dos avós. Todos os anos pelas férias grandes. Uma aventura como aquelas que lia nos livros onde aprendera a soletrar ainda antes de ir para a escola. Uma viagem que demorava horas embalado pelo ligeiro solavanco da carruagem a deslizar sobre os carris, o som do apito da máquina a vapor varando o espaço, aviso da sua circulação junto a passagens de nível ou na curva dos caminhos. Cheirava a fumo largado pela chaminé da locomotiva, uma nuvem de um branco-cinza, resultado da queima do carvão na fornalha da máquina aquecendo a água da caldeira produzindo a pressão do vapor que fazia a locomotiva puxar as carruagens. Tudo isso lhe ensinara o avô, antigo maquinista dos caminhos de ferro.
Gostava daqueles minutos de paragem nas estações principais onde umas mulheres se aproximavam das janelas para vender pequenas bilhas de água fresca, pastéis de feijão, arrufadas e, às vezes, cachos de uvas. O Menino tinha sempre vontade de beber água, comer um pastel de feijão ou uma arrufada, e um galho de uvas. A viagem continuava com a paisagem a fugir do vidro da janela pela esquerda alta.

(agb)

Trecho de “A Malta…”

“- Vou de férias, mas quando fizer quinze anos tenho um emprego à minha espera. E vocês na moinisse, a mandriar e a namorar. Eu nem vou ter tempo para dormir.
– Nós, a moinar? Pensas que ficamos aqui de barriguinha ao sol? Três meses de férias vão ser três meses de trabalho numa loja, numa fábrica, ou até numa carvoaria. Vamos entrar brancos e sair de lá pretos de carvão.”

(António Garcia Barreto inA Malta da Rua dos Plátanos“, Book Cover Editora)