Um sorriso para a eternidade

Desde criança Tito Borges imagina como teria sido a vida do seu avô materno. Na casa de família onde cresceu, o nome do patriarca não era pronunciado, como se de uma maldição se tratasse. Quando atinge a idade adulta, decide investigar quem foi aquele homem do qual só sabe ter um sorriso encantador, a que não se consegue resistir.

“Um sorriso para a eternidade” é a história de um homem em busca da felicidade, que tem a coragem de não deixar morrer uma memória. Mas até que ponto estamos preparados para encarar a verdade quando decidimos reconstruir um passado que desconhecemos?

Cartas de Amor (3)

Essa capacidade de ser diferente num tempo de estereótipos fê-lo sair do anonimato que tanto preservava. Teve, à sua escala, dias de glória. Mas nos últimos anos a procura dos seus serviços diminuíra tanto que passava dias sem escrever uma única carta. Os tempos eram outros, reconhecia, contrafeito. Às vezes, paravam junto à sua banca com intenção de encomendar uma carta, mas depois olhavam o relógio e diziam que não tinham tempo. Ficava para outra vez. Camilo Kappa pensava, amargurado, que o amor deserdara o mundo. Agora havia apenas pressa, desinteresse, frivolidade. Como era possível viver sem enviar uma carta de amor a alguém? Parecia inexplicável. Como não tinha praticamente nada para fazer ocupava o tempo a observar os outros. A conclusão a que chegou depois de muito observar, foi que as pessoas levavam o dia num jogo de aparências. De fingimentos. E competiam por pequenos nadas com uma ferocidade doentia, mostrando-se desinteressados das grandes causas. Ou, pelo menos, alheadas. Isso tudo era falta de amor. De cartas de amor, também. E uma dúvida assaltou-o num desses momentos de desencanto e falta de trabalho: como seria o futuro sem cartas de amor? Seria certamente triste, como o seu presente. Nos últimos quinze dias ninguém o procurou para escrever uma única carta. Chegou a pensar que queriam ver-se livre dele, esquecendo-o. O ostracismo pode matar com a eficiência e a voluptuosidade de um gás. Agora que tinha todo o tempo do mundo, sentia-se vazio, inútil. E bastaria escrever uma carta de amor para regenerá-lo com a vida. Foi então que percebeu que nunca tinha escrito a sua carta de amor. Essa revelação desassossegou-o. Do pensamento ao acto foi obra de um impulso. Esmerou-se nas frases e na caligrafia, no sentimento. Saiu uma carta perfeita, como, aliás, todas as outras que escrevera ao longo da vida. E correu ao posto de correios para expedi-la em Correio Expresso.
Semanas depois a carta era-lhe devolvida num sobrescrito fechado, juntamente com algumas palavras inesperadas:
«Helena, a destinatária, morreu há dez anos cansada de esperar por uma carta de amor que lhe fora prometida».

FIM

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de Amor (2)

(continuação)

Em resultado destes factos, ou talvez não, acabou por assentar banca, permanente, sob o plátano centenário, deixando de procurar pelas aldeias os corações apaixonados que pretendiam os seus serviços de caneta, papel e alma. Tudo acondicionado em sobrescritos de cor azul ou rosa, consoante a tradição e o encomendador exigiam. Agora, quem necessitasse de uma carta de amor escrita a preceito, procurava-o sob o plátano e ditava as linhas-mestras da missiva. De imediato Camilo Kappa elaborava a carta com uma eficácia desarmante. Em seguida, lia-a ou dava-a a ler e, se preciso fosse, era também ele que a expedia no posto de correios da localidade. Sempre em Correio Expresso ou outra forma prioritária, que o amor é impaciente, esclarecia. E nesse aspeto mostrava-se atualizado.
As cartas de amor que Camilo Kappa escrevia tinham o dom ou a arte de unir os namorados para o resto da vida, felizes, como nos contos de fadas. Talvez por isso as mães recomendassem às filhas apaixonadas que, pelo menos uma vez, passassem pela banca de Camilo e lhe pedissem para escrever uma carta para os namorados. E as mães de rapazes casadoiros mandavam dizer o mesmo por interposta pessoa. Estava em causa a felicidade dos filhos. Realmente dava gosto ler uma carta, qualquer que fosse o modelo, escrita por Camilo Kappa. Não era só o sentimento que as habitava, belo e estranhamente perfumado, mas também a ternura, alguma malícia, a felicidade em tons de azul e oiro. A própria letra com que as cartas eram escritas era tão bela, que só podia sair das mãos de um calígrafo de coração apaixonado. Pelo menos, era o que afirmavam os mais acérrimos defensores das cartas de amor escritas por Camilo Kappa.

(continua e termina na próxima postagem)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de amor (1)

Contemporânea Editora. Edição esgotada
Edição em ebook ou em formato de papel. Clic na imagem para ver na Amazon.com

Camilo Kappa era escritor. Um escritor de cartas de amor. Sentava-se todas as tardes debaixo de um plátano centenário, no largo do mercado da aldeia, com uma escrivaninha improvisada e uma grande placidez no olhar. Na sua frente o material de escrita: uma caneta de tinta permanente, um bloco de folhas de papel e alguns modelos de cartas para auxiliar a escolha do cliente. Um dia perguntaram-lhe por que usava caneta de tinta permanente numa época em que as esferográficas dominavam o mercado. Explicou que uma carta de amor tinha de ser escrita com uma caneta nobre, porque o amor merecia-o. Ninguém mais se atreveu a fazer-lhe a mesma pergunta. De início, outros prestadores de serviços ambulantes, oferecendo-se para plastificar cartões ou preencher impressos oficiais, montaram banca ao lado de Camilo Kappa. Mas este depressa os abandonou e preferiu o lugar solitário debaixo do plátano, pretextando que escrever uma carta de amor exigia solidão.
Às duas da tarde, nos dias amenos, Camilo Kappa abria o escritório. Sentava-se num banquinho de lona aguardando pela chegada dos clientes. O seu olhar neutro e uma pose simpática, embora distante, agradava à clientela. Afinal, uma carta de amor exige discrição e Camilo Kappa aparentava-a. Há muitos anos que escrever cartas de amor era a sua profissão. E também a sua forma de contribuir para a felicidade do mundo. Viajara de aldeia em aldeia aproveitando os dias de mercado para escrever as cartas que as raparigas e os rapazes lhe solicitavam, a troco de uma gratificação deixada ao livre arbítrio do encomendador. Nos últimos anos, porém, registara-se um acentuado decréscimo de interessados em cartas de amor. Camilo Kappa andava triste, não só por ver diminuir o seu já parco rendimento, mas porque escrever cartas de amor era parte fundamental da sua vida. As cartas de amor alimentavam-lhe o estômago e a alma. Um desses dias confessou mesmo a uma cliente que as pessoas aparentavam ter cada vez mais estômago e menos alma. Por isso não escreviam cartas de amor. Houve quem tentasse fazê-lo compreender que actualmente existiam outras, muitas e diversas solicitações à nossa volta. Que o mundo da informação globalizou os sonhos e os gestos, que as pessoas namoravam à velocidade de bytes por segundo através da Internet, por e-mail e telemóvel. Já ninguém falava do seu amor por carta, preferindo praticá-lo nas suas diversas vertentes e ensejos. E sorriam perante o seu olhar apagado e distante. Um professor com quem às vezes bebia um copo no bar do mercado, confessou-lhe que o pragmatismo invadira o mundo. Os sonhos eram moldados pelos programas de televisão e o amor transformara-se num jogo com vencidos e vencedores. Camilo Kappa encarava as pessoas e as suas opiniões sem lhes dar muito crédito. Respondia-lhes que os sonhos tinham sete fôlegos, como os gatos, não sendo fácil reduzi-los a estereótipos. O amor trocado através de cartas ficava registado não só no coração, mas também em suporte de papel, para mais tarde recordar. Rematava que não se pode reduzir o amor e a vida a escassos momento de ventura física.

(continua)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Walt (abertura)

Esta besta barco chama-se Apocalipse, é branca e tem duas chaminés providas de sendas riscas azul-ferrete. Vejo claramente visto que já não é nova, a besta, mas para irmos aonde vamos qualquer traineira servia, qualquer caca inventada à pressão pelos altos poderes sereníssimos, desde que flutuasse.

Atrás de mim, e de que partem vozes, o pelotão alinhado. Soma trinta e cinco gatilhos, um dos quais o último até agora íntimo, preto rural da Carolina do Sul que quis ser meu impedido e na hora de deixarmos Baltimore e o abarracamento: chorava, chorava com os focinhos metidos na boina.

Fernando Assis Pacheco, “Walt”, 4.ª ed., Livraria Bertrand, Amadora, 1979

Lourenço Marques (trecho)

ALGUÉM DEVIA ESTAR NO MEIO DAS NUVENS, SIM, PORQUE, de repente, quando se voltou, obrigando o pescoço a fazer o que há pouco parecia impossível, olhar para o lado, viu ainda uma sombra. Há minutos doía-lhe o pescoço, doíam-lhe as pernas, sentia o suor descer da testa para o rosto sem poder levantar as mãos para o limpar. Gotas salgadas de suor, suor sujo, suor com poeira, sal, a língua molha os lábios e lambe as gotas de suor. Depois, deixou de sentir fosse o que fosse, havia alguém que se movia no quarto e falava, mas ele não ouvia, talvez tivesse os ouvidos sujos de poeira, lembrou-se de repente da nuvem de poeira que o jipe levantava ao longo da estrada, do calor da tarde, da ramagem das árvores, mas logo deixou de perceber se estava deitado numa cama ou se ainda guiava o carro pela estrada fora, qualquer coisa lhe martelava a cabeça, qualquer coisa, qualquer voz, até que deixou de sentir fosse o que fosse (…)

Francisco José Viegas in “Lourenço Marques”, 3.ª ed., ASA, Porto, 2003

A morte da ficção?

Já existem mais livros de cozinha à venda em Portugal do que livros de ficção. Interpretem como quiserem. O problema não é específico dos tugas, mas os outros países têm bases mais sólidas de vida e aguentam-se melhor ao desconcerto. Teatro, cinema, livros, música, arte: Quo vadis?

Bombaim

“A Bombaim contávamos chegar na noite seguinte. Chegar a meio da noite a uma cidade que não se conhece pode torná-la mais estranha ainda. As primeiras pessoas avistadas, as primeiras palavras ouvidas, o ar leve ou pesado, a brisa, caso a haja, carregada de ruídos próximos ou longínquos, que não se sabe de onde vêm e intrigam mais por isso, tudo adquire uma importância inusual. Num misto de curiosidade e de cansaço, adivinho em vez de ver, a fadiga alerta-me os sentidos, os ouvidos tornam-se mais atentos, as narinas mais sensíveis, reparo melhor em cada ser, em cada som ou cheiro, sem saber se fico mais consciente de mim mesmo ou se o espírito do lugar toma conta de mim e me dissolvo nele.”

Almeida Faria in “O Murmúrio do Mundo“, 3.ª ed., Tinta da China, Lisboa, 2012

Diferença entre homem e mulher

Eu vivo de vender coisas na rua, biscoito, sorvete, pipoca, o que aparecer. Mas no Carnaval eu tiro a barriga de miséria. Vendo lata de cerveja. Não vendo no tal sambódromo, ali só tem grã-fina, todas as empresas importantes têm camarotes em que servem bebidas e comidas chiques para os convidados. Não, eu vendo minhas latas de cerveja nos blocos. Com o calor, a turma toma cerveja sem parar, até as meninas novas de saiotes curtinhos que deixam aparecer um pedaço da bunda enchem a cara. Os homens se encostam num muro ou numa árvore e mijam. As mulheres se sentam na calçada e fazem o mesmo. Homem não consegue mijar sentado e mulher não consegue mijar em pé, vê como homem e mulher são diferentes.

Rubem Fonseca, “O Carnaval“, in “Calibre 22”, Sextante Editora, Porto, 2018