Diferença entre homem e mulher

Eu vivo de vender coisas na rua, biscoito, sorvete, pipoca, o que aparecer. Mas no Carnaval eu tiro a barriga de miséria. Vendo lata de cerveja. Não vendo no tal sambódromo, ali só tem grã-fina, todas as empresas importantes têm camarotes em que servem bebidas e comidas chiques para os convidados. Não, eu vendo minhas latas de cerveja nos blocos. Com o calor, a turma toma cerveja sem parar, até as meninas novas de saiotes curtinhos que deixam aparecer um pedaço da bunda enchem a cara. Os homens se encostam num muro ou numa árvore e mijam. As mulheres se sentam na calçada e fazem o mesmo. Homem não consegue mijar sentado e mulher não consegue mijar em pé, vê como homem e mulher são diferentes.

Rubem Fonseca, “O Carnaval“, in “Calibre 22”, Sextante Editora, Porto, 2018

“Amor num aroma intenso a jasmim” (abertura)

JoseDireitinhoQuando há seis meses, na tarde em que os pássaros se esqueceram de cantar enquanto anoitecia, eu o vi chegar ao alto do monte, parar e retomar quase logo depois o caminho em direcção à aldeia, recolhi à pressa toda a roupa que tinha estendida sobre os arbustos de rosmaninho e de alfazema, tirei o avental
– molhado, com manchas de lexívia e espuma de sabão por me encostar sempre demasiado ao tanque –
e fui meter-me em casa.
Ele atravessou a aldeia com um saco de pano ao ombro, uma mala de couro velho na mão e seguido por uma matilha de cães vadios
(dos que abundam pela aldeia, dos que se alimentam nas esterqueiras com a enxúndia e com as vísceras das galinhas e dos perús dos quintais e dos animais grandes do matadouro).
Durante todo o tempo que demorou a percorrer a única rua
– num passo lento e pesado, até entrar na porta lateral da igreja –
espreitei-o por detrás das rendas brancas de pavões da janela da minha casa.
Esteve duas horas na sacristia, a falar com o padre Moisés. Quando saiu, acompanhado pelo padre e por Tomé, o sacristão, para ir morar na casa vazia ao lado da igreja
– a Casa do Fim –
já tinha começado a anoitecer.

José Riço Direitinho in “Um Sorriso Inesperado”, Asa, Porto, 2005

O Palácio do Engano

O viscondezinho ganhou corpo muito depressa. Cresceram-lhe as pernas em jeito de andas, o peito era uma tábua, no rosto cresceu-lhe uma penugem de passarinho novo, e o olhar dir-se-ia envergonhado do corpo a que pertencia. Dedicou-se aos estudos com entusiasmo discreto e não mais se ouviu falar nas suas diabruras irritantes. Continuava a escrever num caderno pautado, tendo De Sotto explicado tratar-se de um diário, conquanto De Lucas não divulgasse o teor da sua escrita. Também podia estar em experiências da fase de poetar. Estrofes de amor por alguém. Ou de rancor, quem sabe. De Lucas já mostrara ser um rapaz de extremos, embora os outros devessem ter bom senso. Aos poucos foi perdendo a aura que tinha de líder dos miúdos que se reuniam nos jardins, ou no Palácio da família, para jogos e brincadeiras. Tornara-se igual a tantos outros rapazes da sua geração. Nada o fazia sobressair ao olhar dos colegas, nem mesmo a estatura esganiçada. Nessa época, a população de Longomar andava preocupada com o aumento do custo de vida, a escassez de mão de obra para trabalhos pesados, vivendo o pesadelo de ver os filhos arregimentados para uma guerra inútil. Algumas detenções de vizinhos de quem os familiares desconheciam o paradeiro, aliado a terem sido levados num automóvel preto que não fazia serviços de aluguer nem de táxi, também preocupava as pessoas. Eram mistérios que as noites guardavam num silêncio suspeito, a que só algumas lágrimas vertidas pelas famílias, no interior das habitações, pareciam conferir significado. De Sotto também crescera, embora noutro formato, e afastara-se um pouco do primo e amigos comuns por causa de uma rapariga que usava vestidos às bolinhas e o cabelo apanhado com uma fita preta, levando os dias a ouvir música dos Beatles. Além disso, e talvez mais importante do que isso mesmo, era o facto de ter olhos cor de azeitonas verdes, pintar os lábios de um carmim intenso e quando beijava De Sotto tudo à volta dele arder. Chamava-se Ana Dori, era cheiinha de corpo, sem ser gorda, e aguada por coisas de sexo. Quando estava perto de um homem parecia que toda ela tremia e não era de frio nem de medo. Isso logo aos catorze anos. Os seus olhos brilhavam como os de uma criança perante um doce. Segundo os entendidos, que nestas coisas surgem sempre com a sageza das suas afirmações, era o sangue a borbulhar nas veias de Ana Dori que a deixava naquele estado. Entrara numa idade em que as hormonas comandam a vida. A sua vida, em particular. Nessa idade já conhecera o pecado e pecara de todas as formas e feitios. Ainda havia de dar muitos calafrios a De Sotto depois de o surpreender com o fogo de inusitados calaquentes.

António Garcia Barreto, “O Palácio do Engano”, trecho do romance registado no IGAC – Inspeção-Geral das Atividades Culturais.

Livros Lidos

António Garcia Barreto lê “A Malta da Rua dos Plátanos”

Várias vezes premiado e com vasta obra publicada desde os anos 70, António Garcia Barreto deixa aqui uma parcela do seu romance “A Malta da Rua dos Plátanos”.

Nascido na Amadora a 15 de dezembro de 1948, António Garcia Barreto iria licenciar-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas seguiu o destino de muitos da sua geração e esteve na Guerra Colonial em Moçambique. Regressado a Lisboa, passou por diversos papéis em diferentes empresas (funcionário de livraria, técnico de organização e métodos, gestor de Recursos Humanos e diretor de pessoal) e tornou-se colaborador de diversos órgãos de comunicação social – República, Notícias de Lourenço Marques/Maputo, O Diário ou Diário Popular, neste caso participando com mais regularidade na Página Infantil sob a coordenação de José de Lemos. Empenhado na escrita, depois de um prémio de poesia em 1972 seria distinguido, no ano seguinte, como vencedor do concurso de contos que o Diário Popular organizou. O texto ganhador intitulava-se “Tio Jeropiga, Tio Manel Pedreiro, Eu, a Mula Bizarra e Companhia”.

Acabaria por enveredar pela literatura para os mais jovens com obras como “Botão Procura Casa” e “História das Três Janelas” (ambos de 1977), “Na Rua onde Moro” (1981), “O Luxo da Gata Mafalda” (1986), mas também uma série: “Brigada Azul” (publicada entre 2000 e 2002). Pelo meio criara e fora responsável, no Notícias da Amadora, no começo da década de 80, por uma página infantil (Oficina do Tio Lunetas) e também já se dedicara ao romance, como em “A Malta da Rua dos Plátanos” (1981), livro que aqui apresenta, ou “A Cidade dos Lacraus” (1994). Mas também abordara o ensaio com “Literatura para Crianças e Jovens em Portugal” (1998) e “Dicionário de Literatura Infantil Portuguesa” (2002). “Contos do Amor Breve” foi publicado em 2000 e, no mesmo ano, “Rubens e a Companhia do Espanto em O Caso da Mitra Desaparecida” foi agraciado com o Prémio Literário de Sintra – Adolfo Simões Müller, de Literatura Infantojuvenil. De 2005 é o romance “Ensina-me a Namorar” e do ano seguinte a obra “À Sombra das Acácias Vermelhas”. “Ricardo Caiu no Buraco de Ozono” (2008) foi outro título dedicado aos mais jovens e, no mesmo ano, também publicou o romance “A Mulher da Minha Vida”. Em 2010 e 2011 regressou aos romances, respetivamente com “Um Sorriso para a Eternidade” e “O Homem do Buick Azul”. “A Malta da Rua dos Plátanos” foi revisto e reeditado no ano passado.

Book Cover Editora

“Era natural que António tivesse ouvido falar, na fábrica, da preparação de alguma revolta. Os homens é que sabiam dessas coisas das guerras e das revoluções. Por isso iam à tropa”, escreve o autor na obra “A Malta da Rua dos Plátanos”.

Membro da Sociedade Portuguesa de Autores, António Garcia Barreto publica o blog Viagens por Dentro dos Dias que pode ser visto aqui.

(Publicado no blog “Livros LidosLiteratura em Voz Alta a Qualquer Hora“, da responsabilidade de Paulo Pereira)

Balada do Jardim de Pedras

A noite iluminou-se com a luz de mil archotes. Era dia sendo noite. Uma chuva de estrelas desabou sobre a minha cabeça evocando uma cascata de fogo-de-artifício. Não foi alegria o que senti, mas um repentino e inexplicável aperto no peito, um sufoco de adeus-vida. Algo de muito grave estava a acontecer e eu não podia impedi-lo, nem fugir. A cidade já sofrera, séculos atrás, um abalo devastador, que a reduzira a cinzas e a pó. Nos meus ouvidos repercutiam-se os gritos aflitivos dos sobreviventes. O receio de que a tragédia se estivesse a repetir roubou-me o discernimento. Senti-me perdido num mundo em derrocada. Minutos depois, compreendi que estava apenas a acordar de um sonho agitado após uma noite de insónia. Olhei para o teto das águas-furtadas com um olho fechado e o outro aberto, tirando a prova dos nove à realidade. O estuque estava no seu lugar e o mundo também. Senti um forte desejo de tomar uma chávena de café, aromático e fumegante. Era urgente acordar. Sou muito lento a reagir pela manhã. Preciso de algum tempo de adaptação antes de poder desafiar o sol e explorar a vida.

Feitas as abluções matinais, vesti um fato de tecido leve, escolhi um chapéu de tom claro e saí de casa disposto a tomar o pequeno-almoço na leitaria Mimosa. Café com leite e uma torrada bem coberta de manteiga, a que o meu compadre Artur acrescenta duas colherzinhas de doce de gila, para deixá-la com um sabor peculiar. A felicidade pode ser um instante assim.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras“, romance (trecho inicial) protagonizado pelo detetive Eneias Trindade. Registado no IGAC – Instituto de Gestão de Atividades Culturais, sob o n.º 3530/2016

A voz do búzio

O garoto do cabelo cor-de-mel agachou-se, deixou-se escorregar ao longo do último troço de rochedo e encaminhou-se para a lagoa. Embora tivesse tirado o blusão, parte do seu uniforme escolar, e o arrastasse agora pela mão, a camisa cinzenta colava-se-lhe à pele e o cabelo encodeava-se-lhe na testa. À sua volta, a funda clareira rasgada na selva era um banho de calor. Rompia pesadamente por entre as lianas e os troncos quebrados, quando um pássaro, uma visão de vermelho e amarelo, cintilou numa fuga para o alto com um grito de feitiço. A este grito o eco respondeu com outro.
– Eh! – disse uma voz. – Espera um momento!
O matagal num dos bordos da clareira, agitou-se e uma saraivada de gotas de água caiu com estridor.
– Espera um momento – repetia a voz. – Estou aqui preso.

William Golding, “O Deus das Moscas”, Vega, 1997

 

O Rio Triste

Fernando-NamoraNo dia 14 de Novembro de 1965, nesta cidade de Lisboa, um homem saiu cedo de casa e já não voltou. Nesse dia e nos que se seguiram. Também não o viram mais no emprego. Chamava-se ou chama-se (pois há quem pense que o caso não foi suficientemente deslindado), Rodrigo dos Santos Abrantes. Um nome vulgar se exceptuarmos talvez o Rodrigo, e por isso mesmo detestado pelo próprio, que, como se verá mais adiante, projectara mudá-lo para Rodrigo Macieira – as razões também as saberemos a seu tempo.
Vale a pena esmiuçar, e sobretudo fantasiar (já que as pistas concretas de que dispomos não nos levariam longe), as circunstâncias em que se deu esse desaparecimento. Rodrigo, após o pequeno-almoço, tomado como sempre sob a ressaca do maldito despertador, isto é, num silêncio amuado e gestos irritadiços, espreitou os ares pela janela das traseiras, logo deduzindo que a friagem recomendava que se precavesse com a gabardina (…)

O Rio Triste” (abertura), Fernando Namora, Círculo de Leitores, Lisboa, 1983 (edição de 15.000 exemplares)

Uma abelha na chuva (trecho)

Carlos de OliveiraPelas cinco horas de uma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois de árdua jornada que o trouxera da aldeia de Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandarenses, por aquele tempo desabrido.

Carlos de Oliveira in “Uma Abelha na Chuva”, Col. Miniatura, Livros do Brasil, Porto, 2020

A história imortal

A História ImortalA História Imortal by Isak Dinesen

My rating: 3 of 5 stars

 Uma novela muito bem escrita, com algo de misterioso, que apela à leitura. Personagens bem desenhadas, um chinês de Cantão que nos traz reminiscências de uma China do século XIX, num ambiente de portos e marinheiros. A estória dentro da novela não é assim tão encantadora. É como um filme com atores de primeiro plano que não nos consegue entusiasmar. Antes “África Minha” com a sua força telúrica num mundo em mudança.