Desencontros

Uns amigos convidaram-me para jantar em sua casa. Apareci à hora combinada e toquei à campainha. Ninguém me abriu a porta. Estranhei. Ter-me-ia enganado no dia e na hora? Consultei a agenda do telemóvel onde anoto tudo. Confirmei que não estava enganado. Nunca tinha acontecido com eles, amigos e pessoas responsáveis. Pensei o pior. Uma doença repentina, grave, de algum familiar? Um acidente? Liguei para o telemóvel da Joana, a única de quem tinha o número, éramos colegas. Não atendeu. Decidi ir comer qualquer coisa a um bar e depois tornar a casa. Mais tarde voltaria a contactá-los. No meio da refeição tocou o telemóvel.
– Onde é que te meteste? Convidas o pessoal para jantar em tua casa e não abres a porta. Os vizinhos dizem que te viram sair de casa. Esperamos que tenhas uma boa justificação para este desencontro. Não tinha.

(agb)

Esmeraldinha

Esmeraldinha estava sentada no sofá, a pintar as unhas dos pés de cor verde. No final, os dedos dos pés pareciam um relvado. Inexplicavelmente, começaram a nascer pequenos malmequeres amarelos e brancos, e florinhas azuis, nas unhas. O seu chihuahua deu um salto para o sofá, cheirou-lhe os pés, alçou a pata traseira e marcou território com uma esguichadela de urina.
— Malvado! — gritou Esmeraldinha.
E não é que o cão sorriu.

António Garcia Barreto

A livraria

A3ED0984-5127-44AC-B220-15FB73F0FFF8Passei quase cinco anos da minha juventude a trabalhar numa grande livraria do Chiado. Grande, de ocupar todo um prédio de três andares. Fui para lá, a meu pedido, depois de ter reprovado um ano. Estava um pouco cansado da escola. A verdade é que a situação se conjugou com outra semelhante: a minha mãe conhecia a mulher do gerente e o filho deles também tinha reprovado nesse ano. Éramos da mesma idade e cábulas.
Eu gostava de livros, lia tudo o que me caía nas mãos. Além de revistas de histórias aos quadradinhos, como o Cavaleiro Andante, jornais infantis e revistas com mulheres nuas, de procedência desconhecida. Lembro-me que nas duas primeiras semanas me foi dado como tarefa única, percorrer, de pescoço no ar, todas as secções da livraria, do rés-do-chão ao último andar, familiarizando-me com títulos, tipos de livros e lugares de arrumação. Só para terem uma ideia, havia secções tão díspares como medicina e direito; desporto e viagens; agricultura e livros infantis; literatura e engenharia; arte e livros estrangeiros; história e livros escolares, além de secções de revistas nacionais e estrangeiras.
Ao fim dessas duas semanas, não conseguia baixar o pescoço. Aquilo era um castigo. Por ter reprovado? Ou porque o trabalho castigava? Estive quase para bater em retirada, saindo pela porta dos fundos, sem me justificar. Mas eu gostava de livros, do cheiro do papel impresso, e da possibilidade e surpresa de descobrir mundos sempre que abria um livro. E adorava aquelas revistas estrangeiras que me davam a conhecer outras realidades. Não sendo despiciendo para o meu interesse de adolescente as fotografias, a cores, de atrizes de cinema, em biquini, que a minha imaginação logo despia totalmente. Continuar a ler “A livraria”

Primavera

Primeiro dia de Primavera. Está a cair uma chuva primaveril. O céu está cinzento. O Tejo embrulhou-se num lençol de nevoeiro. Ouve-se o ronco dos grandes barcos a pedir passagem. As ninfas devem estar comodamente sentadas à lareira. As ruas estão desertas. O Parque está fechado. Os cães decidiram aproveitar a chuva para diluírem a urina e não queimarem tanto a relva. Os operários abandonaram os prédios por acabar. Só mesmo os melros e os pombos não desistem de se alimentarem no asfalto das ruas e nos ajardinados. É primavera. Que alegria.

O lobo e o grou

La FontaineVendo-se o lobo engasgado
Com um osso e muito oprimido
Para o tirar, aos mais brutos
Foi cometendo partido.

Persuadido o grou com as juras,
O dilatado pescoço
pela goela do lobo
Meteu, e tirou-lhe o osso.

Pedindo-lhe o prémio: “Ingrato”,
Disse, “que te hei-de pagar?
Não te basta de meus dentes
Salvo o pescoço tirar?”

Fábulas de La Fontaine (Origem da expressão popular “Cair na boca do lobo”.)