Madre

Foste salva in extremis, ou quase, quando bebé de poucos meses te deixaram em casa, sozinha, provavelmente no berço, entretida a chuchar numa boneca de açúcar. Não teria sido por descaso, mas porque era necessário ganhar a vida na faina dura do rio. Em boa hora, todavia, alguém que sabia da tua existência te estendeu a mão, o braço, o peito todo e te acarinhou como merecias. Como merece qualquer criança. E não sendo filha desse casal que substituíu aqueles que te conceberam e geraram a ele te habituaste a chamar pai e mãe. A vida é sempre difícil. Nesse tempo, princípio do século XX, ainda mais.

Retalhos da vida em confinamento

(folhetim desaconselhado a almas sensíveis)

Há pessoas que vão passear o cão dez vezes ao dia. Perguntei a uma delas se aquilo não era exagero. Respondeu-me que o cão sofria da bexiga. Receitei-lhe uma infusão de barbas de milho para o animal. 🐕‍🦺

Qual não é o meu espanto quando deparo com duas senhoras a passear os gatos, de trela, eles muito atrapalhados pois o uso de trela não é a onda deles. 🐈

– Toda a gente sabe que são os animais que passeiam os donos – diz-me a porteira do prédio n.º 2021, de mau humor, enquanto apanhava os excrementos dos cães alheios.

Não entendo nada da vida

Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. Contudo há horas, as horas perdidas – e só essas – que queria tornar a viver e a perder.

Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As coisas belas reduzem-se a meia dúzia: o tecto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz.

Raul Brandão in “Se tivesse de recomeçar a vida”, col. brevíssima portuguesa, 4, 1995 (?)

Tudo como dantes quartel-general em Abrantes

Tudo permaneceu sem novidade, sem alteração do status quo, dito de forma irónica.

Napoleão enviou, em 1807, o general Junot para invadir Portugal. Chegado a Abrantes, Junot conquista o castelo, lugar estratégico, e lá se acomoda para preparar o avanço sobre Lisboa. D. João VI tinha enviado um espião para lhe relatar as ocorrências durante os cinco dias em que o general se manteve ocupado na vila. Dia após dia, esse espião informava o rei sempre com a mesma frase: «Tudo como dantes no quartel-general de Abrantes». Ou seja, não havia novidades. Mais tarde, em Março de 1808, em resultado da bem sucedida campanha militar, Napoleão concedeu a Junot o título de Duque de Abrantes.

António Garcia Barreto in “O Povo Faz a Língua”, no prelo

Micro estória

Dois amigos, um poeta e o outro bombeiro, reencontraram-se ao fim de algum tempo. Sentaram-se na esplanada de um café rememorando passados. Até que o poeta perguntou com um leve sorriso trocista:
— O que fazer quando tudo arde?
— Apagar o fogo — respondeu o bombeiro com uma certeza inabalável.

© António Garcia Barreto in “Estórias de bolso da lapela

Os filhos da ganza

Era domingo. Alvores do dia. Primeiro chegou ela. Abriu a malha de rede que vedava todo o prédio em construção e, num passo demasiado inseguro, subiu pela escada interior em cimento e chegou ao telhado, à altura de um terceiro andar. Aí sentou-se no vértice das abas do telhado, deixando de lado a mochila e uma garrafa quase vazia de um qualquer refrigerante. Acendeu um cigarro ou uma ganza, e ficou a olhar o rio largo, duzentos metros à sua frente, que refletia os primeiros raios da alvorada. Passado uns vinte minutos chegou ele, mochila ao ombro, passo trocado. Do alto onde se encontrava ela vi-o chegar e veio à aba do telhado indicar-lhe onde ficava a entrada sem porta do prédio. Ele subiu não sem antes abrir a porta do WC de rua que servia, em dias de trabalho, os operários. Chegado ao telhado, deixou cair a mochila e não se aguentando sobre o vértice que unia as telhas caiu de costas. Passado pouco arrastou-se sentando-se ao lado da parceira. Era-lhe muito difícil controlar os movimentos. Ficaram ali a fumar, a mascar palavras, enquanto olhavam as águas do rio. Passaram duas horas e o sol incidia forte sobre o telhado de chapa metálica. Ela deitou-se no plano inclinado das telhas e adormeceu. Pouco depois, ele tentou fazer o mesmo, caiu de lado e assim ficou a dormir atravessado sobre as telhas. A noite metera certamente muita bebida, muitos shots, ganzas, muitos voos interiores. Os filhos da ganza.

Desencontros

Uns amigos convidaram-me para jantar em sua casa. Apareci à hora combinada e toquei à campainha. Ninguém me abriu a porta. Estranhei. Ter-me-ia enganado no dia e na hora? Consultei a agenda do telemóvel onde anoto tudo. Confirmei que não estava enganado. Nunca tinha acontecido com eles, amigos e pessoas responsáveis. Pensei o pior. Uma doença repentina, grave, de algum familiar? Um acidente? Liguei para o telemóvel da Joana, a única de quem tinha o número, éramos colegas. Não atendeu. Decidi ir comer qualquer coisa a um bar e depois tornar a casa. Mais tarde voltaria a contactá-los. No meio da refeição tocou o telemóvel.
– Onde é que te meteste? Convidas o pessoal para jantar em tua casa e não abres a porta. Os vizinhos dizem que te viram sair de casa. Esperamos que tenhas uma boa justificação para este desencontro. Não tinha.

(agb)

Esmeraldinha

Esmeraldinha estava sentada no sofá, a pintar as unhas dos pés de cor verde. No final, os dedos dos pés pareciam um relvado. Inexplicavelmente, começaram a nascer pequenos malmequeres amarelos e brancos, e florinhas azuis, nas unhas. O seu chihuahua deu um salto para o sofá, cheirou-lhe os pés, alçou a pata traseira e marcou território com uma esguichadela de urina.
— Malvado! — gritou Esmeraldinha.
E não é que o cão sorriu.

António Garcia Barreto