Fábula

foto-10Maria tinha um gato. Manuel tinha um cão. O gato não gostava do cão. Maria acusou Manuel de virar o cão contra o gato. O cão não gostava do gato. Manuel acusou Maria de acicatar o gato contra o cão. Passado tempo o cão morreu, mas não foi o gato que o matou. Meses depois morreu o gato, e, claro, não foi o cão que o matou.
Manuel e Maria voltaram a ser felizes.

Também fomos jovens

fantasia-casal-anos-60-branco-e-vermelhoTínhamos a paixão pelo hóquei em patins, pelo futebol e pelo râguebi. Éramos jovens e vivíamos em bando harmónico, que se abria e fechava em grupos mais pequenos para depois voltarmos ao bando, sempre que se justificasse. A paixão pelos carros juntava-nos na serra de Sintra para assistir, sobretudo, ao espetáculo dos Minis a comer as curvas sobre o piso de paralelepípedos. Gostávamos também de passar a tarde de domingo a jogar bilhar ou matraquilhos, a beber imperiais ou cafés, enquanto falávamos de namoros ou das raparigas que nos enlevavam. Eram conversas de tom geral, porque do namoro de cada um ninguém abria a boca. Era pessoal e intransmissível. Durante a semana estudávamos ou trabalhávamos, ou jogávamos nos dois tabuleiros consoante a necessidade das famílias. E havia os bailes ao som de bandas cujo nome se perdeu. As raparigas eram meigas e adultas antes de tempo, usavam uma fita a segurar os cabelos, eyeliner a sublinhar os olhos, rímel e batom. Até que um dia suou um toque de clarim que mobilizou os rapazes para a guerra. O bando desfez-se e nunca mais se reuniu. Ao fim de treze anos a guerra acabou e nada mais voltou a ser como dantes.

António Garcia Barreto (imagem da Internet)

Dobra de leituras

Acontece muitas vezes andar a ler vários livros ao mesmo tempo. Não é nada do outro mundo. É uma hábito que se adquire facilmente nas faculdades de letras. Nesse tempo muitos livros serviam apenas para consulta de alguns capítulos, passagens, prefácios, etc. Raramente se lia um livro inteiro num curso de História. Não se tratava de ficção, embora, por vezes, também lêssemos ficção para suportar algum trabalho. Lembro-me, por exemplo de algumas narrativas que li de fio a pavio, como se diz, para a cadeira de Sidonismo, no 5.º ano da licenciatura, dadas as referências aos acontecimentos desse ano de 1918.
Vem isto a propósito de, neste momento, distribuir a minha atenção literária por três obras: “O Cânone Ocidental”, de Harold Bloom; “A Saga de Gösta Berling”, de Selma Lagerlöf; e “Operação Shylock”, de Philip Roth. Bloom é para ir relendo. Selma é para ler com calma de forma a absorver aquele “mundo de sonho e fantasia com raízes nas antigas sagas e lendas” da Suécia. Roth é para ler sempre a abrir. É vida mais próxima, contemporânea, em que realidade e ficção se aliam, e que só o talento de um escritor superlativo nos pode proporcionar.

 

Plátanos

Os plátanos são árvores do género Platanus e da família Platanacae de folhas palmilobadas cujas flores são uns globos verdes do tamanho aproximado de uma bola de golfe. Chegam a atingir os 50 metros de altura. À medida que crescem e os troncos engrossam, crescem também os ramos com folhas largas produzindo uma sombra agradável no verão. É uma árvore de folha caduca, pelo que, a partir do outono as folhas amarelecem, como as das videiras, e caem, deixando a árvore despida durante todo o inverno. Os plátanos são as árvores da minha infância por várias razões, que não vêm agora ao caso (ou virão?). Sempre gostei do seu porte altivo e dessas flores em formato de pequena bola que serviam, na minha meninice, ainda longe de equipamentos como a televisão, o computador e o telemóvel, que passariam a captar a atenção de miúdos e graúdos; pequenas bolas que serviam, dizia eu, para jogar hóquei no asfalto das ruas com stiques improvisados pela imaginação dos rapazes — a Malta da Rua dos Plátanos. Foi um pouco por causa da beleza e aconchego dessas árvores da minha rua, da infância que tive e dos amigos com quem convivi, que um dia publiquei um livro (entre muitos outros), que agora teve nova edição, revista, e que espero possa ser do agrado de muitos leitores. A sua tradução em russo, em 1983, teve uma tiragem de cem mil exemplares, numa editora já desaparecida: a Ráduga. E também nela aparecem as folhas dos plátanos.

Esta nova edição do livro pode ser adquirida nas livrarias e também online, em diversos sites: BOOK COVER (a editora), WOOK, BERTRAND, FNAC, ANA MONTEIRO (a agente literária), etc.

 

Outono

Agora que o outono começa a abandonar as folhas das árvores, como os pássaros largam as penas em época de mudança de roupa, e o céu se cobre de um cinzento nostálgico, percorro o parque no meu exercício matinal e apenas o brilho de uma chuvinha esparsa substitui o brilho do sol ausente. Mesmo assim há quem esteja sentado a ler um livro, ou quem faça exercícios de manutenção física. Rapazes de telemóvel em punho, o olhar vidrado no ecrã, participam num jogo coletivo enquanto percorrem o parque de alto a baixo. Rolas, pombos, melros, alvéolas e outras avezitas anónimas tomam a refeição da manhã. Para que o dia tenha majestade falta-lhe umas pinceladas de sol e de azul no céu. Talvez amanhã, quem sabe?

Benzidos pela chuva

IMG_2363Quando os homens chegam à obra, por volta das oito horas, ou um pouco antes, está a chover. Trabalhar à chuva numa profissão fisicamente dura, é ainda mais duro. Andam todo o dia dobrados construindo as caixas de cofragem ou colocando painéis pré-fabricados que substituem a madeira em algumas situações. Os homens do ferro montam as suas estruturas sobre mesas toscas de madeira e depois colocam a malha de ferro dentro das cofragens para serem cheias com o cimento que as betoneiras transportarão mais tarde. Se constroem o piso andam dobrados apertando as malhas do ferro que o guindaste elevou e depositou sobre a base de madeira. Continua a chover. Não é uma chuva torrencial. É de molha tolos, como se diz. Mas os operários não são tolos: precisam apenas de fazer o seu trabalho porque tem prazos a cumprir. Melhor sorte tem os pedreiros que elevam as paredes de tijolo já mais protegidos da chuva, mas não das correntes de ar que sopram pelos canais abertos entre as paredes. Quando chegar o meio-dia recolhem-se debaixo de um telheiro e almoçam o que trouxeram de casa. No final, dão uma corrida até ao café mais próximo, tomam uma bica e, provavelmente, cortam-na com aguardente.