Tudo como dantes quartel-general em Abrantes

Tudo permaneceu sem novidade, sem alteração do status quo, dito de forma irónica.

Napoleão enviou, em 1807, o general Junot para invadir Portugal. Chegado a Abrantes, Junot conquista o castelo, lugar estratégico, e lá se acomoda para preparar o avanço sobre Lisboa. D. João VI tinha enviado um espião para lhe relatar as ocorrências durante os cinco dias em que o general se manteve ocupado na vila. Dia após dia, esse espião informava o rei sempre com a mesma frase: «Tudo como dantes no quartel-general de Abrantes». Ou seja, não havia novidades. Mais tarde, em Março de 1808, em resultado da bem sucedida campanha militar, Napoleão concedeu a Junot o título de Duque de Abrantes.

António Garcia Barreto in “O Povo Faz a Língua”, no prelo

Micro estória

Dois amigos, um poeta e o outro bombeiro, reencontraram-se ao fim de algum tempo. Sentaram-se na esplanada de um café rememorando passados. Até que o poeta perguntou com um leve sorriso trocista:
— O que fazer quando tudo arde?
— Apagar o fogo — respondeu o bombeiro com uma certeza inabalável.

© António Garcia Barreto in “Estórias de bolso da lapela

Os filhos da ganza

Era domingo. Alvores do dia. Primeiro chegou ela. Abriu a malha de rede que vedava todo o prédio em construção e, num passo demasiado inseguro, subiu pela escada interior em cimento e chegou ao telhado, à altura de um terceiro andar. Aí sentou-se no vértice das abas do telhado, deixando de lado a mochila e uma garrafa quase vazia de um qualquer refrigerante. Acendeu um cigarro ou uma ganza, e ficou a olhar o rio largo, duzentos metros à sua frente, que refletia os primeiros raios da alvorada. Passado uns vinte minutos chegou ele, mochila ao ombro, passo trocado. Do alto onde se encontrava ela vi-o chegar e veio à aba do telhado indicar-lhe onde ficava a entrada sem porta do prédio. Ele subiu não sem antes abrir a porta do WC de rua que servia, em dias de trabalho, os operários. Chegado ao telhado, deixou cair a mochila e não se aguentando sobre o vértice que unia as telhas caiu de costas. Passado pouco arrastou-se sentando-se ao lado da parceira. Era-lhe muito difícil controlar os movimentos. Ficaram ali a fumar, a mascar palavras, enquanto olhavam as águas do rio. Passaram duas horas e o sol incidia forte sobre o telhado de chapa metálica. Ela deitou-se no plano inclinado das telhas e adormeceu. Pouco depois, ele tentou fazer o mesmo, caiu de lado e assim ficou a dormir atravessado sobre as telhas. A noite metera certamente muita bebida, muitos shots, ganzas, muitos voos interiores. Os filhos da ganza.

Desencontros

Uns amigos convidaram-me para jantar em sua casa. Apareci à hora combinada e toquei à campainha. Ninguém me abriu a porta. Estranhei. Ter-me-ia enganado no dia e na hora? Consultei a agenda do telemóvel onde anoto tudo. Confirmei que não estava enganado. Nunca tinha acontecido com eles, amigos e pessoas responsáveis. Pensei o pior. Uma doença repentina, grave, de algum familiar? Um acidente? Liguei para o telemóvel da Joana, a única de quem tinha o número, éramos colegas. Não atendeu. Decidi ir comer qualquer coisa a um bar e depois tornar a casa. Mais tarde voltaria a contactá-los. No meio da refeição tocou o telemóvel.
– Onde é que te meteste? Convidas o pessoal para jantar em tua casa e não abres a porta. Os vizinhos dizem que te viram sair de casa. Esperamos que tenhas uma boa justificação para este desencontro. Não tinha.

(agb)

Esmeraldinha

Esmeraldinha estava sentada no sofá, a pintar as unhas dos pés de cor verde. No final, os dedos dos pés pareciam um relvado. Inexplicavelmente, começaram a nascer pequenos malmequeres amarelos e brancos, e florinhas azuis, nas unhas. O seu chihuahua deu um salto para o sofá, cheirou-lhe os pés, alçou a pata traseira e marcou território com uma esguichadela de urina.
— Malvado! — gritou Esmeraldinha.
E não é que o cão sorriu.

António Garcia Barreto

A livraria

A3ED0984-5127-44AC-B220-15FB73F0FFF8Passei quase cinco anos da minha juventude a trabalhar numa grande livraria do Chiado. Grande, de ocupar todo um prédio de três andares. Fui para lá, a meu pedido, depois de ter reprovado um ano. Estava um pouco cansado da escola. A verdade é que a situação se conjugou com outra semelhante: a minha mãe conhecia a mulher do gerente e o filho deles também tinha reprovado nesse ano. Éramos da mesma idade e cábulas.
Eu gostava de livros, lia tudo o que me caía nas mãos. Além de revistas de histórias aos quadradinhos, como o Cavaleiro Andante, jornais infantis e revistas com mulheres nuas, de procedência desconhecida. Lembro-me que nas duas primeiras semanas me foi dado como tarefa única, percorrer, de pescoço no ar, todas as secções da livraria, do rés-do-chão ao último andar, familiarizando-me com títulos, tipos de livros e lugares de arrumação. Só para terem uma ideia, havia secções tão díspares como medicina e direito; desporto e viagens; agricultura e livros infantis; literatura e engenharia; arte e livros estrangeiros; história e livros escolares, além de secções de revistas nacionais e estrangeiras.
Ao fim dessas duas semanas, não conseguia baixar o pescoço. Aquilo era um castigo. Por ter reprovado? Ou porque o trabalho castigava? Estive quase para bater em retirada, saindo pela porta dos fundos, sem me justificar. Mas eu gostava de livros, do cheiro do papel impresso, e da possibilidade e surpresa de descobrir mundos sempre que abria um livro. E adorava aquelas revistas estrangeiras que me davam a conhecer outras realidades. Não sendo despiciendo para o meu interesse de adolescente as fotografias, a cores, de atrizes de cinema, em biquini, que a minha imaginação logo despia totalmente. Continue reading “A livraria”

Primavera

Primeiro dia de Primavera. Está a cair uma chuva primaveril. O céu está cinzento. O Tejo embrulhou-se num lençol de nevoeiro. Ouve-se o ronco dos grandes barcos a pedir passagem. As ninfas devem estar comodamente sentadas à lareira. As ruas estão desertas. O Parque está fechado. Os cães decidiram aproveitar a chuva para diluírem a urina e não queimarem tanto a relva. Os operários abandonaram os prédios por acabar. Só mesmo os melros e os pombos não desistem de se alimentarem no asfalto das ruas e nos ajardinados. É primavera. Que alegria.

O lobo e o grou

La FontaineVendo-se o lobo engasgado
Com um osso e muito oprimido
Para o tirar, aos mais brutos
Foi cometendo partido.

Persuadido o grou com as juras,
O dilatado pescoço
pela goela do lobo
Meteu, e tirou-lhe o osso.

Pedindo-lhe o prémio: “Ingrato”,
Disse, “que te hei-de pagar?
Não te basta de meus dentes
Salvo o pescoço tirar?”

Fábulas de La Fontaine (Origem da expressão popular “Cair na boca do lobo”.)