A biblioteca sem nome

Um dia fui a uma biblioteca onde só havia dois livros. A escolha tornou-se difícil. Um era de física quântica e o outro de filosofia espacial. Não eram livros que me interessassem. Voltei à biblioteca todos os dias na esperança de encontrar outros livros, ou que aqueles dois fossem substituídos. O único empregado que trabalhava na biblioteca, para abrir a porta de manhã e fechá-la à noite, disse-me que não haviam outros livros disponíveis. Aqueles dois tinham saído incólumes de um incêndio que dizimara toda a biblioteca. Apenas aquela sala fora reconstituída.
Fiz saber através da imprensa e das redes sociais o meu desagrado pela situação, que logo recebeu milhares de apoiantes. Então resolvi levar o meu computador para a biblioteca e comecei a escrever um livro sobre a não existência de livros na biblioteca, o desconforto dessa situação inusitada, o prejuízo para a Cultura do país e enumerando uma série de obras que deviam constar nela para fruição e consulta de leitores interessados. Foi um trabalho que demorou alguns meses, pois tinha a minha atividade profissional. No capítulo final dessa simples obra sobre a falta de livros na Biblioteca Sem Nome pedia às pessoas que lá fossem para levarem um dos livros por mim listados, ou outros que entendessem necessários e interessantes. Depois escrevi um email que enviei a amigos e amigos de amigos dando-lhes conta da existência dessa biblioteca singular e aquilo que cada um deles podia fazer por ela.
Ao fim de um ano, a biblioteca tinha mais de dez mil livros, contando já com leitores habituais, que iam enriquecendo o acervo e recomendando-a a novos amigos.
Dois anos depois, ampliada a sala e feitas obras complementares, o presidente do país inaugurou a biblioteca com pompa e circunstância, seguido pelos políticos do costume, a quem agradeceu a valiosa obra em boa hora levada a cabo pelo Governo. Levantando o pano que cobria a placa comemorativa surgiu o novo nome da casa dos livros: Biblioteca Presidente Dom De Lucas y Sotto.
A mim foi-me vedada a entrada por ter sido considerado persona non grata.

O futuro

O gato ultrapassou a janela aberta com os seus passinhos de nuvem, continuando a caminhar como se pisasse algodão até se imobilizar numa pose de verdadeiro felino. A seguir deu um salto e imobilizou a presa, uma ave ainda nova, que despiu de penas e comeu com regalado prazer.

No dia seguinte, a Polícia dos Animais deteve o gato por homicídio, em função da queixa apresentada por um homem amante de aves canoras. O tribunal condenou o gato a 5 anos de gatil, apenas com uma hora diária de recreio ao sol. Corria o ano de 2050.

(agb)

Fábula

foto-10Maria tinha um gato. Manuel tinha um cão. O gato não gostava do cão. Maria acusou Manuel de virar o cão contra o gato. O cão não gostava do gato. Manuel acusou Maria de acicatar o gato contra o cão. Passado tempo o cão morreu, mas não foi o gato que o matou. Meses depois morreu o gato, e, claro, não foi o cão que o matou.
Manuel e Maria voltaram a ser felizes.

Também fomos jovens

fantasia-casal-anos-60-branco-e-vermelhoTínhamos a paixão pelo hóquei em patins, pelo futebol e pelo râguebi. Éramos jovens e vivíamos em bando harmónico, que se abria e fechava em grupos mais pequenos para depois voltarmos ao bando, sempre que se justificasse. A paixão pelos carros juntava-nos na serra de Sintra para assistir, sobretudo, ao espetáculo dos Minis a comer as curvas sobre o piso de paralelepípedos. Gostávamos também de passar a tarde de domingo a jogar bilhar ou matraquilhos, a beber imperiais ou cafés, enquanto falávamos de namoros ou das raparigas que nos enlevavam. Eram conversas de tom geral, porque do namoro de cada um ninguém abria a boca. Era pessoal e intransmissível. Durante a semana estudávamos ou trabalhávamos, ou jogávamos nos dois tabuleiros consoante a necessidade das famílias. E havia os bailes ao som de bandas cujo nome se perdeu. As raparigas eram meigas e adultas antes de tempo, usavam uma fita a segurar os cabelos, eyeliner a sublinhar os olhos, rímel e batom. Até que um dia suou um toque de clarim que mobilizou os rapazes para a guerra. O bando desfez-se e nunca mais se reuniu. Ao fim de treze anos a guerra acabou e nada mais voltou a ser como dantes.

António Garcia Barreto (imagem da Internet)

Hortelão

16625420-0100-400x400-horta-urbanaLancei as sementes à terra. Quando já desesperava dos resultados as alfaces deram um ar da sua graça. Romperam o cristal da terra e sorriram-me. Sei agora que sou um hortelão a tratar de uma horta de meio metro quadrado.

Dobra de leituras

Acontece muitas vezes andar a ler vários livros ao mesmo tempo. Não é nada do outro mundo. É uma hábito que se adquire facilmente nas faculdades de letras. Nesse tempo muitos livros serviam apenas para consulta de alguns capítulos, passagens, prefácios, etc. Raramente se lia um livro inteiro num curso de História. Não se tratava de ficção, embora, por vezes, também lêssemos ficção para suportar algum trabalho. Lembro-me, por exemplo de algumas narrativas que li de fio a pavio, como se diz, para a cadeira de Sidonismo, no 5.º ano da licenciatura, dadas as referências aos acontecimentos desse ano de 1918.
Vem isto a propósito de, neste momento, distribuir a minha atenção literária por três obras: “O Cânone Ocidental”, de Harold Bloom; “A Saga de Gösta Berling”, de Selma Lagerlöf; e “Operação Shylock”, de Philip Roth. Bloom é para ir relendo. Selma é para ler com calma de forma a absorver aquele “mundo de sonho e fantasia com raízes nas antigas sagas e lendas” da Suécia. Roth é para ler sempre a abrir. É vida mais próxima, contemporânea, em que realidade e ficção se aliam, e que só o talento de um escritor superlativo nos pode proporcionar.

 

Plátanos

Os plátanos são árvores do género Platanus e da família Platanacae de folhas palmilobadas cujas flores são uns globos verdes do tamanho aproximado de uma bola de golfe. Chegam a atingir os 50 metros de altura. À medida que crescem e os troncos engrossam, crescem também os ramos com folhas largas produzindo uma sombra agradável no verão. É uma árvore de folha caduca, pelo que, a partir do outono as folhas amarelecem, como as das videiras, e caem, deixando a árvore despida durante todo o inverno. Os plátanos são as árvores da minha infância por várias razões, que não vêm agora ao caso (ou virão?). Sempre gostei do seu porte altivo e dessas flores em formato de pequena bola que serviam, na minha meninice, ainda longe de equipamentos como a televisão, o computador e o telemóvel, que passariam a captar a atenção de miúdos e graúdos; pequenas bolas que serviam, dizia eu, para jogar hóquei no asfalto das ruas com stiques improvisados pela imaginação dos rapazes — a Malta da Rua dos Plátanos. Foi um pouco por causa da beleza e aconchego dessas árvores da minha rua, da infância que tive e dos amigos com quem convivi, que um dia publiquei um livro (entre muitos outros), que agora teve nova edição, revista, e que espero possa ser do agrado de muitos leitores. A sua tradução em russo, em 1983, teve uma tiragem de cem mil exemplares, numa editora já desaparecida: a Ráduga. E também nela aparecem as folhas dos plátanos.

Esta nova edição do livro pode ser adquirida nas livrarias e também online, em diversos sites: BOOK COVER (a editora), WOOK, BERTRAND, FNAC, ANA MONTEIRO (a agente literária), etc.