Luísa Ducla Soares – 50 anos de vida literária*

No ano em que assinala 50 anos de vida literária, Luísa Ducla Soares abre-nos a porta da sua intimidade ao recordar neste livro momentos da sua vida e da sua carreira que irão fazer as delícias de todos os seus leitores – crianças e não só! Através de histórias, ilustrações e fotografias, ficamos a conhecer…

* por Clara Castilho via LUÍSA DUCLA SOARES – 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA — A Viagem dos Argonautas 

Luis Sepúlveda, RIP

O céu era um inchada barriga de burro, pendendo ameaçadora a escassos palmos das cabeças. O vento morno e pegajoso varria algumas folhas soltas e sacudia com violência as bananeiras raquíticas que ornamentavam a frontaria da administração da circunscrição.
Os poucos habitantes de El Idilio, mais um punhado de aventureiros chegados das redondezas, estavam reunidos no cais, esperando a vez de se sentar na cadeira portátil do doutor Rubicundo Loachamín, o dentista, que aliviava as dores dos seus pacientes graças a uma curiosa espécie de anestesia oral.
– Dói-te? – perguntava ele.
Os pacientes, aferrados aos braços da cadeira, respondiam abrindo desmesuradamente os olhos e a suar em bica.
Alguns pretendiam retirar das respetivas bocas as mãos insolentes do dentista e responder-lhe insultando-o como ele merecia, mas as suas intenções esbarravam nos braços fortes e na voz autoritária do odontologista
– Quieto, carago! (…)

Luis Sepúlveda, “O Velho Que Lia Romances de Amor”, 8.ª ed., Edições ASA, Porto, 1996

Rubem Fonseca, RIP

Nunca pensei que um dia me pediriam para matar uma pessoa, mas isso aconteceu ontem. Até dois dias atrás eu alugava um cubículo num sobrado velho no centro da cidade, mas fui despejado de lá. Agora estou aqui na estação rodoviária, sentado num banco, fingindo que espero um ónibus.
Meu cubículo era um canto da sala onde os inquilinos viam televisão, isolado por um tabique de madeira envernizada de pouco mais de dois metros de altura; o pé direito da sala devia ter mais de quatro metros; um espaço grande entre o tabique e o tecto permitia a entrada de ar mas também tornava possível a alguém, trepado numa cadeira, me espiar dormindo na cama estreita. Eu tinha horror que me observassem dormindo. Ao deitar, quando sentia uma coceira no rosto, sinal de que o sono estava chegando, eu cobria a minha cabeça com o lençol.

Rubem Fonseca in “O Buraco na Parede”, Campo das Letras, Porto, 1996

 

O COMISSÁRIO MONTALBANO

9F61A963-D2C0-46A3-BC99-83539929865CNão se pode imaginar a cultura mediterrânica sem considerar a obra narrativa de Andrea Camilleri (1925-2019), o genial autor que em 1989 era conhecido pela sua ligação ao teatro (foi professor na Academia Teatral) e que, em 1994, publicou o primeiro romance policial, criando a figura do comissário Montalbano, como homenagem ao conhecido escritor espanhol Manuel Vásquez Montalban.

Andrea Camilleri e o Comissário Montalbano – por Manuel Simões

A série policial do Comissário Montalbano passou há menos de um ano na RTP2, aos sábados. Vale muito a pena ver. Mas não sei se voltarão a repeti-la. A fotografia acima é do escritor.

 

Nuno Bragança

“Nuno Bragança? Não conheço nenhum escritor com esse nome”

Passamos a apresentar: aristocrata da casa de Bragança, descendente do rei D.Pedro II, boxeur, boémio, radical fundador das brigadas revolucionarias, libertador da língua portuguesa, escritor.

(in jornal Observador)

nuno_braganca

Um dia peguei numa caneta, em um tinteiro e em uma folha de papel, e fui sentar-me a uma pequena mesa em um pequeno gabinete, e escrevi no alto da folha e em letras grandes:
U OMÃI QE DAVA PULUS
Depois chupei o rabo da caneta, que sabia a lavado e a polido, e escrevi por baixo e em letras pequenas o seguinte:
U omãi qe dava pulus era 1 omãi qe dava pulus grãdes.
El pulô tantu qe saiu pêlo tôpu.
Isto feito levei o papel ao meu tio Maurício, que estava sempre a ler jornais. O tio Maurício olhou para o meu escrito e foi-se embora com ele sem me dar palavra. Dois dias mais tarde reuniu-se o III ConselhodeFamíliaporcausadoPequeno.

Nuno Bragança, “A Noite e o Riso” in “Obra Completa”, Dom Quixote, 2009

Parabéns, Bocage

BocageDe cerúleo gabão não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto;

Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso,
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto.

Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes.

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultrage,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto: é o Bocage!

Manuel Maria de Barbosa l’Hédois du Bocage in “Poesias”

(nos 254 anos do seu nascimento)