O livro e o resto

Sabia, sei por conhecimento próprio, que os povos nórdicos leem muito. Não apenas por lhes ser incutido o gosto pela leitura e pela cultura em geral, desde crianças, como pela circunstância de viverem invernos rigorosos que os remetem para o interior das habitações cercadas de neve e gelo. São vidas difíceis, apesar de estarem habituadas ao rigor do tempo. Lamento que em Portugal não se possa dizer “Nós por cá todos bem” e a cultura esteja tão desprezada em todas as suas vertentes, particularmente o livro que é a situação que melhor conheço. Isto apesar da carolice de alguns profissionais que não desistem de levar a bom porto a sua área de atividade cultural. O assunto é complexo e tem muitas pontas por onde se pegar (e em que poucos pegam).

Acordei a necessitar deste desabafo.

Covid-19

Se o Covid-19 não nos matar, as medidas para o conter vão acabar por nos endoidecer, por fazer de nós seres controlados pelo medo, o stress, a ansiedade.
Tão depressa há confinamento como desconfinamento. Ora se diz que são necessárias máscaras na rua, ora se lê que não faz sentido, porque o vírus não anda no ar. E já agora expliquem-me qual a necessidade de todos os dias nos massacrarem com o número de mortes e de infetados pelo covid-19? E os restantes doentes e mortos? Não falam deles? Isto é algum jogo, algum concurso? Os jornais fazem pandã com os políticos, encharcando-nos com notícias repetidas e pouco esclarecedores. Parem! Talvez fosse melhor gastarem orçamento colocando placards em sítios estratégicos com as principais medidas a ter em conta pelo cidadão para escapar ao contágio. Tenham paciência, senhores políticos que gerem a pandemia e jornalistas que a divulgam. É necessário bom senso.

As botinhas do cão

A burguesa passeava o cão que calçava botinhas cor de laranja. A que chega a vida inútil das pessoas. E eu a lembrar-me do vagabundo nas escadas da estação de caminho de ferro arrumado a um canto como um objeto inútil, os sapatos rebentados que segurava nos pés com atacadores de ténis a envolvê-los, a manter a sola segura ao gaspeado. Não, não é neorrealismo. É a puta da vida atual desta civilização medíocre que nos calhou viver. Chegará o dia em que as pessoas andarão ao contrário, com as mãos no chão e os pés no ar, talvez por ser moda. Ou pela inutilidade das suas vidas. Como as botinhas do cão. Haja bom senso.

Casa/descasa

O amor hoje em dia começa na relação sexual e não no conhecimento mútuo. Há quem confunda amor com sexo. Vão à procura de amor pelo lado do sexo. Depois casam sem se conhecerem, nem sequer sexualmente. A seguir é o casa-descasa. Se há filhos estes sofrem.

Eles andam por aí

A maioria dos jovens não se interessa pelo que foi o 25 de Abril. Pela transformação de uma sociedade totalitária numa sociedade livre, democrática. Já nasceram em liberdade, pelo que, em geral, não reflectem muito sobre o passado que não viveram. Interessam-se bastante pelos problemas do clima – o que é louvável – embora os Donos Disto Tudo continuem a levar o barco no rumo que lhes interessa. Com a pandemia os problemas sociais e económicos agravaram-se. Claro, os DDT passam incólumes por entre a borrasca e aumentam as suas fortunas. Em Portugal (e não só), começam a reaparecer as famílias de ideologia fascista pretendendo aproveitar a maré para voltar a uma sociedade patrulhada pelo medo. Não podemos facilitar. Não há lugar na democracia para quem não é democrata. Os DDT e os seus homens de mão sabem fingir que são o que nem em sonhos admitem ser. Redobremos a vigilância para continuarmos a ter liberdade e democracia.

Trombone

O Facebook devia chamar-se Trombone porque é nele que toda a gente mete a boca para dizer o que deve, o que não deve, contar a vidinha, fazer piruetas vocais e outras coisas mais. Mas aos vizinhos, pessoas físicas, já ninguém liga. Rareiam as conversas, não há mais o salutar, Bom dia!, escasseiam os gestos de ajuda, de saber como está, se precisa de alguma coisa, etc. Boa vai ela, Nossa Senhora da Agrela.

Um bómito, carago!

As redes sociais são um bómito, carago. Um gajo expulsa a canalha que não lhe interessa, mas ela rompe por baixo da porta e pumba!, retwita e partilha as suas azias futebolísticas, políticas, dores de corno, invejas e pequenas glórias. É de mais, cambada. Vou ali ler uma prosa.

Resiliência

Resiliência é uma palavra tão moderna na boca da burguesia supostamente esclarecida, tão bonita, tão intelectual, que me apetecia, sei lá… deitá-la para o lixo levando com ela os resilientes. É uma palavra que até amarga na boca, entre-choca com os dentes, obrigando-me a cuspi-la como um caroço inoportuno.

Não seria mais bonito superação, superar?

Resiliência tem a ver, sobretudo, com a resistência de materiais. É também uma palavra ligada ao meio académico, à psicologia, por exemplo. Fora desse contexto foi adotada pelos políticos para fingir que são versados em altas explosões de inteligência política, tendo alguma coisa de novo para oferecer ao cidadão votante. Porém, tudo neles é velho e, por vezes, até, apalhaçado. Há exemplos atuais.

Belém

Ana Gomes desafiou António Costa no que respeita ao PS e às presidenciais, em Janeiro próximo. Mas o primeiro-ministro já tem o seu candidato: Marcelo Rebelo de Sousa, beijos e abraços. É claro que ninguém sabe como se posicionará MRS no seu segundo mandato. Certamente diminuirá os beijos e abraços, não só por causa da pandemia, mas sobretudo para ajudar o seu partido. Rui Rio é um homem honesto, de bom senso, mas sem perfil de liderança, e nenhum carisma. Quanto a Ana Gomes é uma política aguerrida a quem salta a tampa de vez em quando. Isso pode ser bom ou pode ser mau. Depende do que estiver a ferver na panela.