A estratégia

A direita está a utilizar as plataformas digitais para minar a estratégia do Governo quanto ao desconfinamento, tentando fazer com que ceda mais depressa a desconfinar. O número de infetados e internados voltará assim a subir, o que servirá para acusar depois o Governo de não ter mão no combate à pandemina..

Festival RTP da Canção 2021

Ainda há quem veja e siga o Festival da Canção. E quem acredite que aquilo vale a pena. Não fosse tudo bastante mau, acresce ainda a piroseira do guarda-roupa dos concorrentes e seus pares. Um Festival que começou por ser realmente de canções em Portugal e em toda a Europa, deu nisto: uma espécie de pantomina, artes circenses, ou ginástica acrobática, sem desprestígio para estas que têm o seu lugar próprio, mas não num festival da canção. Letras, música, vozes, falhas de inspiração, aspiração e respiração. Como no filme Nha Fala do guineense Flora Gomes, quando apresentam a Vita a letra de uma canção pedindo a sua opinião, ela respondeu: “Deixava só as vírgulas”.

Mais pobres

Os melhores de todos nós, de toda uma geração, estão a deixar-nos. Todos os dias desaparece um. Sinto que não deixam continuadores do seu humanismo, da sua vontade de lutar, da sua inteligência, do seu saber. Não deixam continuadores porque entre o passado, ainda recente, e o agora, houve uma revolução. Revolução que, para o bem e para o mal, de algum modo alterou as mentalidades, criou outras realidades e modos de estar. Somos agora mais filhos da virtualidade, menos adeptos do companheirismo, da vizinhança, da amizade peito a peito. Não me interpretem mal. Mas estamos desconsoladamente mais pobres.

A democracia pode ser uma ditadura

A ditadura da oposição desejosa de ganhar pontos a todo o custo, mesmo numa situação pandémica como a que estamos a atravessar. Tudo serve para denegrir a imagem de quem nos governa, eleito para isso mesmo. A oposição de direita em Portugal é algo que ainda respira ares do fascismo dos quais não se consegue libertar. Esta oposição preferia viver em ditadura fingindo democracia. A Comunicação Social atravessada por muita gente de baixo nível profissional e que só responde à voz do dono, mesmo em órgãos do Estado, é a prova de que mesmo estando na UE continuamos a ser fustigados pelos ecos do passado fascista. Tudo serve para contornar ou dinamitar a realidade, mesmo numa situação em que devíamos estar unidos na diversidade. Há uma grande dificuldade política em Portugal de fazer vida longe da manjedoura pública. Para lá chegarem vale tudo. E quando lá chegam arrasam tudo.

Os medíocres

Todo o comentador de salão aproveita a pandemia para, mais ou menos subrepticiamente, atacar o governo e o SNS, pondo defeitos em tudo. Algumas coisas não correm bem? Ou não correram? É possível. Queria, no entanto, ver esses comentadores de salão no lugar daqueles que têm de gerir a saúde pública, o governo e o Estado, e ainda acorrer a uma presidência da Comissão Europeia. É sabido que todo o medíocre fala, critica, mas não se chega à frente para ajudar. O que ele quer é derrubar. Neste momento, perante esta situação que vivemos, todos os partidos de esquerda, incluindo e liderando a luta, o PS, deviam usar os meios legais ao seu alcance para combater este estado de coisas. O problema é que já não existe militância partidária, ou está reduzida ao mínimo. A política transformou-se num meio de obter um cargo próximo da manjedoura pública, coisa em que nem sequer agora somos originais, pois sempre foi essa a nossa postura.

Os sábios

Não se esqueçam de ver e ouvir os sábios que diariamente comentam a nossa vida coletiva na televisão, como se nós fossemos todos burros e eles uns iluminados. Da extrema-direita à extrema-esquerda estão lá todos. Mas não dizem todos a mesma coisa? Que grande democracia.

Leitores e etc.

Escrever, escrever, escrever. Onde estão os leitores? Ou filmar, filmar, filmar. Ou ensaiar, ensaiar, ensaiar. Onde estão os espetadores? E os museus? E a música? E a dança? Perguntas. É verdade que quem consome cultura é quase sempre uma elite com base cultural, classe média, salário para extras. É preciso ser incentivado desde criança a interessar-se pela cultura. Em casa e na escola. Num país pequeno como o nosso, sem tradição cultural, essa elite é despicienda. Há, no entanto, países com menor ou igual população, mas com gente que se interessa pela cultura: Noruega, Suécia, Islândia, Bélgica, Holanda, Dinamarca… Melhores salários, maiores incentivos culturais, o que nem sempre significa gastar mais dinheiro. Ideias. Projetos exequíveis. Dinamismo. Portanto, nós por cá continuamos mal. Mas temos um Ministério da Cultura e uma ministra. Ao que parece para distribuir uns subsídios e mais não sei o quê. Uma inutilidade. Mas fica bem no retrato dos políticos.

Escrever, escrever, escrever. Para quê? Para quem?

Viajar

As viagens libertam-nos da opressão do quotidiano vivido no mesmo lugar. Também se pode viajar à volta do umbigo, sem sair do mesmo sítio, sonhando realidades irreais. Mas não é a mesma coisa. São viagens sem cheiro, sem a cor adequada, sem formato, sem adrenalina, sem a surpresa da aventura. De qualquer forma, mais vale viajar pelo sonho do que estacionar a vida num ancoradouro sem água. Aí morrem os barcos que o mar destruiu e esqueceu.

O livro e o resto

Sabia, sei por conhecimento próprio, que os povos nórdicos leem muito. Não apenas por lhes ser incutido o gosto pela leitura e pela cultura em geral, desde crianças, como pela circunstância de viverem invernos rigorosos que os remetem para o interior das habitações cercadas de neve e gelo. São vidas difíceis, apesar de estarem habituadas ao rigor do tempo. Lamento que em Portugal não se possa dizer “Nós por cá todos bem” e a cultura esteja tão desprezada em todas as suas vertentes, particularmente o livro que é a situação que melhor conheço. Isto apesar da carolice de alguns profissionais que não desistem de levar a bom porto a sua área de atividade cultural. O assunto é complexo e tem muitas pontas por onde se pegar (e em que poucos pegam).

Acordei a necessitar deste desabafo.