Os sábios

Não se esqueçam de ver e ouvir os sábios que diariamente comentam a nossa vida coletiva na televisão, como se nós fossemos todos burros e eles uns iluminados. Da extrema-direita à extrema-esquerda estão lá todos. Mas não dizem todos a mesma coisa? Que grande democracia.

Leitores e etc.

Escrever, escrever, escrever. Onde estão os leitores? Ou filmar, filmar, filmar. Ou ensaiar, ensaiar, ensaiar. Onde estão os espetadores? E os museus? E a música? E a dança? Perguntas. É verdade que quem consome cultura é quase sempre uma elite com base cultural, classe média, salário para extras. É preciso ser incentivado desde criança a interessar-se pela cultura. Em casa e na escola. Num país pequeno como o nosso, sem tradição cultural, essa elite é despicienda. Há, no entanto, países com menor ou igual população, mas com gente que se interessa pela cultura: Noruega, Suécia, Islândia, Bélgica, Holanda, Dinamarca… Melhores salários, maiores incentivos culturais, o que nem sempre significa gastar mais dinheiro. Ideias. Projetos exequíveis. Dinamismo. Portanto, nós por cá continuamos mal. Mas temos um Ministério da Cultura e uma ministra. Ao que parece para distribuir uns subsídios e mais não sei o quê. Uma inutilidade. Mas fica bem no retrato dos políticos.

Escrever, escrever, escrever. Para quê? Para quem?

Viajar

As viagens libertam-nos da opressão do quotidiano vivido no mesmo lugar. Também se pode viajar à volta do umbigo, sem sair do mesmo sítio, sonhando realidades irreais. Mas não é a mesma coisa. São viagens sem cheiro, sem a cor adequada, sem formato, sem adrenalina, sem a surpresa da aventura. De qualquer forma, mais vale viajar pelo sonho do que estacionar a vida num ancoradouro sem água. Aí morrem os barcos que o mar destruiu e esqueceu.

O livro e o resto

Sabia, sei por conhecimento próprio, que os povos nórdicos leem muito. Não apenas por lhes ser incutido o gosto pela leitura e pela cultura em geral, desde crianças, como pela circunstância de viverem invernos rigorosos que os remetem para o interior das habitações cercadas de neve e gelo. São vidas difíceis, apesar de estarem habituadas ao rigor do tempo. Lamento que em Portugal não se possa dizer “Nós por cá todos bem” e a cultura esteja tão desprezada em todas as suas vertentes, particularmente o livro que é a situação que melhor conheço. Isto apesar da carolice de alguns profissionais que não desistem de levar a bom porto a sua área de atividade cultural. O assunto é complexo e tem muitas pontas por onde se pegar (e em que poucos pegam).

Acordei a necessitar deste desabafo.

Covid-19

Se o Covid-19 não nos matar, as medidas para o conter vão acabar por nos endoidecer, por fazer de nós seres controlados pelo medo, o stress, a ansiedade.
Tão depressa há confinamento como desconfinamento. Ora se diz que são necessárias máscaras na rua, ora se lê que não faz sentido, porque o vírus não anda no ar. E já agora expliquem-me qual a necessidade de todos os dias nos massacrarem com o número de mortes e de infetados pelo covid-19? E os restantes doentes e mortos? Não falam deles? Isto é algum jogo, algum concurso? Os jornais fazem pandã com os políticos, encharcando-nos com notícias repetidas e pouco esclarecedores. Parem! Talvez fosse melhor gastarem orçamento colocando placards em sítios estratégicos com as principais medidas a ter em conta pelo cidadão para escapar ao contágio. Tenham paciência, senhores políticos que gerem a pandemia e jornalistas que a divulgam. É necessário bom senso.

As botinhas do cão

A burguesa passeava o cão que calçava botinhas cor de laranja. A que chega a vida inútil das pessoas. E eu a lembrar-me do vagabundo nas escadas da estação de caminho de ferro arrumado a um canto como um objeto inútil, os sapatos rebentados que segurava nos pés com atacadores de ténis a envolvê-los, a manter a sola segura ao gaspeado. Não, não é neorrealismo. É a puta da vida atual desta civilização medíocre que nos calhou viver. Chegará o dia em que as pessoas andarão ao contrário, com as mãos no chão e os pés no ar, talvez por ser moda. Ou pela inutilidade das suas vidas. Como as botinhas do cão. Haja bom senso.

Casa/descasa

O amor hoje em dia começa na relação sexual e não no conhecimento mútuo. Há quem confunda amor com sexo. Vão à procura de amor pelo lado do sexo. Depois casam sem se conhecerem, nem sequer sexualmente. A seguir é o casa-descasa. Se há filhos estes sofrem.

Eles andam por aí

A maioria dos jovens não se interessa pelo que foi o 25 de Abril. Pela transformação de uma sociedade totalitária numa sociedade livre, democrática. Já nasceram em liberdade, pelo que, em geral, não reflectem muito sobre o passado que não viveram. Interessam-se bastante pelos problemas do clima – o que é louvável – embora os Donos Disto Tudo continuem a levar o barco no rumo que lhes interessa. Com a pandemia os problemas sociais e económicos agravaram-se. Claro, os DDT passam incólumes por entre a borrasca e aumentam as suas fortunas. Em Portugal (e não só), começam a reaparecer as famílias de ideologia fascista pretendendo aproveitar a maré para voltar a uma sociedade patrulhada pelo medo. Não podemos facilitar. Não há lugar na democracia para quem não é democrata. Os DDT e os seus homens de mão sabem fingir que são o que nem em sonhos admitem ser. Redobremos a vigilância para continuarmos a ter liberdade e democracia.