Na paz e na guerra (trecho)

CachapaNesta Páscoa irei em direcção às macieiras. Hão-de estar floridas. Se tudo correr bem. O ar húmido há-de estar cheio das ervas e dos pinhais vizinhos. Mas se o tempo aquecer vou ouvir o barulho das asas minúsculas dos insectos. As mil batidas de cada asa, repetidas vezes sem conta. E vou sentir o silêncio. Nesse silêncio hei-de pensar na filha que estará a brincar, contente, com os primos. Todos armados em selvagens a correr sem perigo pelo meio das árvores. E não vou ter medo por nenhum de nós.
Algures no mundo há-de estar outro homem como eu. Alguém da minha idade. Alguém que ainda não sabe como tempo passou tão depressa que a pessoa que ele era se multiplicou em família. (…)

Possidónio Cachapa in “O Meu Querido Titanic”, Oficina do Livro, 2005

A menina Eva

No bairro Angústias acontecem coisas estranhas. Não se trata de gatos a miar à lua cheia, ou de cães a ladrar quando ouvem barulhos que não controlam. Não, não é nada disso. São mesmo coisas estranhas, segundo as acusações dos inquilinos de um prédio construído por um pato-bravo nos anos 60, onde a menina Eva é locatária do 3.º andar. Ela refuta as acusações da vizinhança que diz ouvir expressões de amor, de alegria e de felicidade vindas de sua casa. A menina Eva acrescenta que nem mora no prédio. Tem o andar subalugado a um estudante universitário, filho de famílias tradicionais onde impera o decoro e as missas dominicais. Contrapõe, por seu lado, que o rapaz se queixa do catarro do senhor Bentes, das discussões do casal Flores, da música em altos berros que sai pela janela aberta do andar onde mora um brasileiro fã de Elba Ramalho, entre outras indelicadezas, que o impossibilitam de estudar. Para não falar nos bebedores de minis do café-tasco situado no rés-do-chão do prédio, que discutem futebol como se estivessem no estádio a invectivarem os jogadores da equipa contrária. 

Vendo bem, nada disto é estranho num velho bairro onde moram reformados de fábricas, doentes crónicos, drogados, bêbados e mulheres com cortes de cabelo masculino, para mais facilmente lavarem a cabeça em casa. Nem se estranha que o senhor Belarmino teime que aterram OVNIs no seu quintal desde que viu o filme ET cinco vezes na televisão. O senhor Belarmino tem 98 anos. Pode dizer o que quiser. A Polícia já foi chamada várias vezes ao prédio e não constata a existência de OVNIs nem as «expressões de amor, de alegria e de felicidade» que a vizinhança diz escutar com frequência, atribuindo-as a cenas pouco edificantes. As acusações têm subido de tom, acrescentando os inquilinos que na casa da menina Eva funciona um bordel clandestino. Um bordel em que mulheres de outra zona da cidade, desocupadas e com maridos ausentes, em viagens de negócios, convivem com rapazes que passam as manhãs a exercitarem-se num ginásio e as tardes a distribuir felicidade a preços exorbitantes. A menina Eva já foi levada por duas mulheres-polícias para uma conversa informal na esquadra. A Polícia fez buscas e não encontrou nada de incriminatório. Apenas quartos limpos e asseados, com águas correntes, uma sala de convívio com um bar, e estantes repletas de livros diversos, ao lado de uma escrivaninha, além de duas casas de banho com jacuzzi. As obras no andar estavam devidamente licenciadas, não havendo provas que legitimassem as acusações. 

— Talvez não as procurem bem — diz Dom DeLucas, o poeta do bairro, que leu todos os livros de Charles Bukovski e a prosa de Rubem Fonseca. 

O que os inquilinos do prédio também acham estranho é a menina Eva deslocar-se num Mercedes descapotável, embora démodé, viver fora do bairro numa vetusta moradia, cujo projecto foi assinado por um conhecido arquitecto já falecido, andando sempre com uma amiga que pratica lançamento de peso e wrestling. A Polícia também não comenta afirmações anónimas sobre a menina Eva ter um caso com o chefe da esquadra que superintende no bairro. Todos sabemos como é o povo para inventar boatos.

António Garcia Barreto in «A Menina Eva e Outras Histórias de Vizinhança»

O conto

O género literário Conto é, hoje em dia, muito desconsiderado em Portugal. Ninguém escreve contos, ninguém publica contos, provavelmente porque ninguém os lê. Ou quase ninguém. A verdade é que, por cá, se lê muito pouca literatura. Há muitas explicações para o fenómeno, todas boas e todas más. Não é aqui o local para essa discussão. Não publicar contos é estranho. Talvez a razão para esse desinteresse se deva a sermos um país de poetas, como gostamos de nos etiquetar. Poetas que publicam pouco porque as editoras não estão para aí viradas. Mas escrevem muito para a gaveta. Melancolias. Afinal, se somos todos poetas quem é que vai ler a nossa poesia? Apenas nós próprios, claro. Ainda assim, publica-se muito mais poesia, contando com edições de autor, de pequena tiragem e pagas, do que se publica o mal fadado conto. O género policial também não é cultivado entre nós — e já foi. Salva-se o romance, embora em decadência, não tanto de títulos, mas de qualidade. Mas foi o conto que aqui me trouxe. Essa arte de contar uma estória de forma mais ou menos condensada. E então aqui deixo dois contos (bem condensados) da escritora americana Lydia Davis, vencedora do Prémio Man Booker em 2013, uma especialista no género (como Alice Munro).

Longe de Casa

Havia tanto tempo que não usava uma metáfora!

Sozinha

Ninguém me telefona. Não posso verificar o atendedor de chamadas, porque não saí daqui. Se eu sair, pode alguém telefonar enquanto estou fora. Então posso verificar o atendedor de chamadas quando voltar.

Lydia Davis in “Contos Completos”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012