A Morgada de Romariz

Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no Teatro de S. Geraldo. Tanto a morgada, como seu marido, o comendador Francisco José Alvarães, choravam, às vezes; e, outras vezes, riam-se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras untuosas e joviais dos quarenta anos sadios, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquele Santo António do século XIII recitou às raparigas uma poesia madrigalesca de Brás Martins – bom homem que esteve quase a regenerar o teatro nacional como ele deve ser. A poesia rezava assim nesta prosa inocente:

Mimosa nasce a flor e vive linda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vício não trabalha prà perder.

Camilo Castelo Branco in “Novelas do Minho”

Vamp

A gaja entrou-me no quarto como se me quisesse comer todinho, ali assim, desprevenido, como vim ao mundo, mas em formato actualizado. Fiquei a vê-la avançar de olhos brilhantes, seduzindo-me com a sua vozinha estrídula e as suas pernas longas. Quando se aproximou puxei o gatilho do spray e matei-a. Detesto melgas.

António Garcia Barreto (da série Microcontos)

Na paz e na guerra (trecho)

CachapaNesta Páscoa irei em direcção às macieiras. Hão-de estar floridas. Se tudo correr bem. O ar húmido há-de estar cheio das ervas e dos pinhais vizinhos. Mas se o tempo aquecer vou ouvir o barulho das asas minúsculas dos insectos. As mil batidas de cada asa, repetidas vezes sem conta. E vou sentir o silêncio. Nesse silêncio hei-de pensar na filha que estará a brincar, contente, com os primos. Todos armados em selvagens a correr sem perigo pelo meio das árvores. E não vou ter medo por nenhum de nós.
Algures no mundo há-de estar outro homem como eu. Alguém da minha idade. Alguém que ainda não sabe como tempo passou tão depressa que a pessoa que ele era se multiplicou em família. (…)

Possidónio Cachapa in “O Meu Querido Titanic”, Oficina do Livro, 2005

As cores

Rui veio encontrar-se com a rapariga no centro comercial. Ela disse que o esperava ao cimo das escadas rolantes. Usava uma blusa verde e jeans, disse. Afinal, não se conheciam. Rui subiu a escada, viu uma rapariga de blusa vermelha, abraçou-a e beijou-a. Levou um enorme bofetão. Confundiu o vermelho com o verde. Era daltónico, desculpou-se.

António Garcia Barreto in “Contos para enfeitar o bolso da camisa” (no prelo)

Abel

— ‘Tou, mãe? Como estás?

— Estou bem. E tu?

— Não aguento mais aquele parvo do Abel. Vou pô-lo a andar. Não me deixa sossegada, só faz o que quer, tenho a casa numa balbúrdia constante. Não se comporta como deve ser. Falo com ele e finge que não me ouve.

— Mas foste tu que o escolheste.

— Eu sei, mãe. Mas um cão assim não se aguenta.

— Tenta um namorado. Pelo menos não és obrigada a levá-lo à rua. Ele irá pelo seu próprio pé. E tem outras vantagens. Experimenta.

António Garcia Barreto in «Contos para Usar no Bolso da Camisa”