Cartas de Amor (3)

Essa capacidade de ser diferente num tempo de estereótipos fê-lo sair do anonimato que tanto preservava. Teve, à sua escala, dias de glória. Mas nos últimos anos a procura dos seus serviços diminuíra tanto que passava dias sem escrever uma única carta. Os tempos eram outros, reconhecia, contrafeito. Às vezes, paravam junto à sua banca com intenção de encomendar uma carta, mas depois olhavam o relógio e diziam que não tinham tempo. Ficava para outra vez. Camilo Kappa pensava, amargurado, que o amor deserdara o mundo. Agora havia apenas pressa, desinteresse, frivolidade. Como era possível viver sem enviar uma carta de amor a alguém? Parecia inexplicável. Como não tinha praticamente nada para fazer ocupava o tempo a observar os outros. A conclusão a que chegou depois de muito observar, foi que as pessoas levavam o dia num jogo de aparências. De fingimentos. E competiam por pequenos nadas com uma ferocidade doentia, mostrando-se desinteressados das grandes causas. Ou, pelo menos, alheadas. Isso tudo era falta de amor. De cartas de amor, também. E uma dúvida assaltou-o num desses momentos de desencanto e falta de trabalho: como seria o futuro sem cartas de amor? Seria certamente triste, como o seu presente. Nos últimos quinze dias ninguém o procurou para escrever uma única carta. Chegou a pensar que queriam ver-se livre dele, esquecendo-o. O ostracismo pode matar com a eficiência e a voluptuosidade de um gás. Agora que tinha todo o tempo do mundo, sentia-se vazio, inútil. E bastaria escrever uma carta de amor para regenerá-lo com a vida. Foi então que percebeu que nunca tinha escrito a sua carta de amor. Essa revelação desassossegou-o. Do pensamento ao acto foi obra de um impulso. Esmerou-se nas frases e na caligrafia, no sentimento. Saiu uma carta perfeita, como, aliás, todas as outras que escrevera ao longo da vida. E correu ao posto de correios para expedi-la em Correio Expresso.
Semanas depois a carta era-lhe devolvida num sobrescrito fechado, juntamente com algumas palavras inesperadas:
«Helena, a destinatária, morreu há dez anos cansada de esperar por uma carta de amor que lhe fora prometida».

FIM

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de Amor (2)

(continuação)

Em resultado destes factos, ou talvez não, acabou por assentar banca, permanente, sob o plátano centenário, deixando de procurar pelas aldeias os corações apaixonados que pretendiam os seus serviços de caneta, papel e alma. Tudo acondicionado em sobrescritos de cor azul ou rosa, consoante a tradição e o encomendador exigiam. Agora, quem necessitasse de uma carta de amor escrita a preceito, procurava-o sob o plátano e ditava as linhas-mestras da missiva. De imediato Camilo Kappa elaborava a carta com uma eficácia desarmante. Em seguida, lia-a ou dava-a a ler e, se preciso fosse, era também ele que a expedia no posto de correios da localidade. Sempre em Correio Expresso ou outra forma prioritária, que o amor é impaciente, esclarecia. E nesse aspeto mostrava-se atualizado.
As cartas de amor que Camilo Kappa escrevia tinham o dom ou a arte de unir os namorados para o resto da vida, felizes, como nos contos de fadas. Talvez por isso as mães recomendassem às filhas apaixonadas que, pelo menos uma vez, passassem pela banca de Camilo e lhe pedissem para escrever uma carta para os namorados. E as mães de rapazes casadoiros mandavam dizer o mesmo por interposta pessoa. Estava em causa a felicidade dos filhos. Realmente dava gosto ler uma carta, qualquer que fosse o modelo, escrita por Camilo Kappa. Não era só o sentimento que as habitava, belo e estranhamente perfumado, mas também a ternura, alguma malícia, a felicidade em tons de azul e oiro. A própria letra com que as cartas eram escritas era tão bela, que só podia sair das mãos de um calígrafo de coração apaixonado. Pelo menos, era o que afirmavam os mais acérrimos defensores das cartas de amor escritas por Camilo Kappa.

(continua e termina na próxima postagem)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Cartas de amor (1)

Contemporânea Editora. Edição esgotada
Edição em ebook ou em formato de papel. Clic na imagem para ver na Amazon.com

Camilo Kappa era escritor. Um escritor de cartas de amor. Sentava-se todas as tardes debaixo de um plátano centenário, no largo do mercado da aldeia, com uma escrivaninha improvisada e uma grande placidez no olhar. Na sua frente o material de escrita: uma caneta de tinta permanente, um bloco de folhas de papel e alguns modelos de cartas para auxiliar a escolha do cliente. Um dia perguntaram-lhe por que usava caneta de tinta permanente numa época em que as esferográficas dominavam o mercado. Explicou que uma carta de amor tinha de ser escrita com uma caneta nobre, porque o amor merecia-o. Ninguém mais se atreveu a fazer-lhe a mesma pergunta. De início, outros prestadores de serviços ambulantes, oferecendo-se para plastificar cartões ou preencher impressos oficiais, montaram banca ao lado de Camilo Kappa. Mas este depressa os abandonou e preferiu o lugar solitário debaixo do plátano, pretextando que escrever uma carta de amor exigia solidão.
Às duas da tarde, nos dias amenos, Camilo Kappa abria o escritório. Sentava-se num banquinho de lona aguardando pela chegada dos clientes. O seu olhar neutro e uma pose simpática, embora distante, agradava à clientela. Afinal, uma carta de amor exige discrição e Camilo Kappa aparentava-a. Há muitos anos que escrever cartas de amor era a sua profissão. E também a sua forma de contribuir para a felicidade do mundo. Viajara de aldeia em aldeia aproveitando os dias de mercado para escrever as cartas que as raparigas e os rapazes lhe solicitavam, a troco de uma gratificação deixada ao livre arbítrio do encomendador. Nos últimos anos, porém, registara-se um acentuado decréscimo de interessados em cartas de amor. Camilo Kappa andava triste, não só por ver diminuir o seu já parco rendimento, mas porque escrever cartas de amor era parte fundamental da sua vida. As cartas de amor alimentavam-lhe o estômago e a alma. Um desses dias confessou mesmo a uma cliente que as pessoas aparentavam ter cada vez mais estômago e menos alma. Por isso não escreviam cartas de amor. Houve quem tentasse fazê-lo compreender que actualmente existiam outras, muitas e diversas solicitações à nossa volta. Que o mundo da informação globalizou os sonhos e os gestos, que as pessoas namoravam à velocidade de bytes por segundo através da Internet, por e-mail e telemóvel. Já ninguém falava do seu amor por carta, preferindo praticá-lo nas suas diversas vertentes e ensejos. E sorriam perante o seu olhar apagado e distante. Um professor com quem às vezes bebia um copo no bar do mercado, confessou-lhe que o pragmatismo invadira o mundo. Os sonhos eram moldados pelos programas de televisão e o amor transformara-se num jogo com vencidos e vencedores. Camilo Kappa encarava as pessoas e as suas opiniões sem lhes dar muito crédito. Respondia-lhes que os sonhos tinham sete fôlegos, como os gatos, não sendo fácil reduzi-los a estereótipos. O amor trocado através de cartas ficava registado não só no coração, mas também em suporte de papel, para mais tarde recordar. Rematava que não se pode reduzir o amor e a vida a escassos momento de ventura física.

(continua)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013

Diferença entre homem e mulher

Eu vivo de vender coisas na rua, biscoito, sorvete, pipoca, o que aparecer. Mas no Carnaval eu tiro a barriga de miséria. Vendo lata de cerveja. Não vendo no tal sambódromo, ali só tem grã-fina, todas as empresas importantes têm camarotes em que servem bebidas e comidas chiques para os convidados. Não, eu vendo minhas latas de cerveja nos blocos. Com o calor, a turma toma cerveja sem parar, até as meninas novas de saiotes curtinhos que deixam aparecer um pedaço da bunda enchem a cara. Os homens se encostam num muro ou numa árvore e mijam. As mulheres se sentam na calçada e fazem o mesmo. Homem não consegue mijar sentado e mulher não consegue mijar em pé, vê como homem e mulher são diferentes.

Rubem Fonseca, “O Carnaval“, in “Calibre 22”, Sextante Editora, Porto, 2018

“Amor num aroma intenso a jasmim” (abertura)

JoseDireitinhoQuando há seis meses, na tarde em que os pássaros se esqueceram de cantar enquanto anoitecia, eu o vi chegar ao alto do monte, parar e retomar quase logo depois o caminho em direcção à aldeia, recolhi à pressa toda a roupa que tinha estendida sobre os arbustos de rosmaninho e de alfazema, tirei o avental
– molhado, com manchas de lexívia e espuma de sabão por me encostar sempre demasiado ao tanque –
e fui meter-me em casa.
Ele atravessou a aldeia com um saco de pano ao ombro, uma mala de couro velho na mão e seguido por uma matilha de cães vadios
(dos que abundam pela aldeia, dos que se alimentam nas esterqueiras com a enxúndia e com as vísceras das galinhas e dos perús dos quintais e dos animais grandes do matadouro).
Durante todo o tempo que demorou a percorrer a única rua
– num passo lento e pesado, até entrar na porta lateral da igreja –
espreitei-o por detrás das rendas brancas de pavões da janela da minha casa.
Esteve duas horas na sacristia, a falar com o padre Moisés. Quando saiu, acompanhado pelo padre e por Tomé, o sacristão, para ir morar na casa vazia ao lado da igreja
– a Casa do Fim –
já tinha começado a anoitecer.

José Riço Direitinho in “Um Sorriso Inesperado”, Asa, Porto, 2005

Ali Duaji

Périplo pelos Bares do Mediterrâneo e Outras HistóriasPériplo pelos Bares do Mediterrâneo e Outras Histórias by Ali Duaji

My rating: 3 of 5 stars

Um livro um tanto decepcionante depois da publicidade do editor. É verdade que quando escreveu o livro, Ali Duaji não se considerava um escritor. Algumas vezes iniciava um estória que depois não acabava. O livro retrata uma viagem de uns amigos por vários cidades em torno do Mar Branco (Mediterrâneo) e a escrita dá-nos a ideia de um diário escrito sem grande atenção no decurso dessa viagem. Resumindo: não é um mau livro, mas não consigo dar-lhe mais de três estrelas. E já é boa vontade. Três estrelas pelo facto de “hoje em dia (ser) considerado o pai da novela tunisina.” Preciso de ler outras obras do autor.

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Arrepiou-se ao homem o cabelo
Quando a primeira vez viu o camelo:
Aquele grande corpo, o mau feitio
O obrigou com pavor a ficar frio.

Mas vendo que a ninguém ele se lança,
Pouco a pouco tomou tal confiança,
Que não só a chegar a ele se anima,
Porém pôs-lhe uma albarda e carga em cima.

La Fontaine, “Fábulas” (tradução de Curvo Semedo)

c4f01-davis-lydia-c-theo-cote-author-photo-resize-344c9332ba7b7f3f63c896a3ee1dbb21d6ad65f6-s6-c30Mrs. D escreve:
Temos agora uma miudinha de catorze anos de nome Brava. É de cor, não sendo, porém, considerada preta – tem de ser tratada como portuguesa.
É maravilhosa com o bebé e sabe lavar louça e outras coisas simples. Até agora, porém, tem sido muito irregular nas suas vindas.

Lydia Davis in “Contos Completos”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012

A cena

Carlos sentado frente à televisão via um filme de vampiros. No intervalo, entre a miscelânea publicitária, saltou do écran uma mulher escultural, sentando-se no sofá, a seu lado. Carlos enfrentou a surpresa com um olhar lascivo.
— Estás sozinho?
— A minha mulher está deitada.
— Ainda bem — disse a diva, lambuzando-o com um olhar voluptuoso.
— Aqui pode ser perigoso — contrapôs Carlos, indeciso no desenlace.
— Não é nada — volveu ela, enlaçando-o, e ferrando-lhe os caninos na jugular.
— Ah!… — gritou ele de dor, antes de ser atirado ao chão.
Ao ouvir o grito, a mulher saiu do quarto.
— O que foi?
— Não sei. Deve ter sido um pesadelo.
— E esse fio de sangue a escorrer pelo pescoço?
— Talvez fosse uma melga.
— Sim, uma melga gigante — disse a mulher, sorrindo, mostrando uns caninos proeminentes.

António Garcia Barreto in “A Menina Eva e Outras Estórias de Vizinhança”

A perna

Um homem sentado num banco de jardim com um ar visivelmente cansado, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça enfiada entre as mãos, soltou um prolongado suspiro. Uma mulher que acabara de se sentar na outra extremidade do banco, sem que ele desse por isso, olhou-o de forma perscrutadora. Parecia querer adivinhar-lhe as narrações da alma.
— Sente-se bem? — perguntou com uma amabilidade impositiva.
Ele pareceu acordar da sua dor.
— Esta maldita perna não me dá descanso.
— Precisa de ajuda?
O homem sorriu. Um sorriso doloroso. Levantou a calça até ao joelho e desmontou a perna artificial, que lhe magoava o coto.
— Eu cá me arranjo — acabou por responder.

António Garcia Barreto, “A Menina Eva e Outras Estórias de Vizinhança”