Primeiras linhas

Conheci Dean pouco depois de a minha mulher e eu nos termos separado. Eu acabara de recuperar de uma doença grave de que não vou dar-me ao trabalho de falar a não ser para dizer que teve a ver com essa ruptura extremamente deprimente e a minha sensação de que tudo fracassara. Com a chegada de Dean Moriarty começou o período da minha existência a que se pode chamar a minha vida pela estrada fora. Antes disso sonhara muitas vezes ir para oeste a fim de ver o país, sempre a planear vagamente sem chegar a partir. Dean é o tipo ideal para a estrada, pois nasceu mesmo na estrada, quando os seus pais atravessavam Salt Lake City numa velha carripana, a caminho de Los Angeles, em 1926.

Jack Kerouac in “Pela Estrada Fora”, Relógio D’Água, 1998

Primeiras linhas

Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que fazem os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastante suscetíveis com coisas do género, especialmente o meu pai.

J. D. Salinger in «À Espera no Centeio», Quetzal, 2014