O COMISSÁRIO MONTALBANO

9F61A963-D2C0-46A3-BC99-83539929865CNão se pode imaginar a cultura mediterrânica sem considerar a obra narrativa de Andrea Camilleri (1925-2019), o genial autor que em 1989 era conhecido pela sua ligação ao teatro (foi professor na Academia Teatral) e que, em 1994, publicou o primeiro romance policial, criando a figura do comissário Montalbano, como homenagem ao conhecido escritor espanhol Manuel Vásquez Montalban.

Andrea Camilleri e o Comissário Montalbano – por Manuel Simões

A série policial do Comissário Montalbano passou há menos de um ano na RTP2, aos sábados. Vale muito a pena ver. Mas não sei se voltarão a repeti-la. A fotografia acima é do escritor.

 

Nuno Bragança

“Nuno Bragança? Não conheço nenhum escritor com esse nome”

Passamos a apresentar: aristocrata da casa de Bragança, descendente do rei D.Pedro II, boxeur, boémio, radical fundador das brigadas revolucionarias, libertador da língua portuguesa, escritor.

(in jornal Observador)

nuno_braganca

Um dia peguei numa caneta, em um tinteiro e em uma folha de papel, e fui sentar-me a uma pequena mesa em um pequeno gabinete, e escrevi no alto da folha e em letras grandes:
U OMÃI QE DAVA PULUS
Depois chupei o rabo da caneta, que sabia a lavado e a polido, e escrevi por baixo e em letras pequenas o seguinte:
U omãi qe dava pulus era 1 omãi qe dava pulus grãdes.
El pulô tantu qe saiu pêlo tôpu.
Isto feito levei o papel ao meu tio Maurício, que estava sempre a ler jornais. O tio Maurício olhou para o meu escrito e foi-se embora com ele sem me dar palavra. Dois dias mais tarde reuniu-se o III ConselhodeFamíliaporcausadoPequeno.

Nuno Bragança, “A Noite e o Riso” in “Obra Completa”, Dom Quixote, 2009

Adeus, princesa

Ficou tudo às escuras na escada quando a porta se fechou atrás deles, e então Mitó atreveu-se a tomar a iniciativa de lhe procurar devagarinho a ponta dos dedos. Não era seu costume. Estava a tactear as paredes à procura do primeiro lance de degraus, sem sequer se lembrar do interruptor cor de laranja, colocado a meia distância entre as duas entradas, que devia lançar sobre a descida a sua luz doentia, como um sonho vago, de contornos amarelos. Ou, mesmo que lhe tenha chegado a ocorrer semelhante hipótese, foi para a rejeitar logo de seguida. Era bom mergulhar de mão dada com ele num tempo muito breve assim desprovido de formas, um mar cego, pensou. Estou navegando. Que grande pedrada.
– Anda, Helmut. Estamos quase no patamar.

Clara Pinto Correia, “Adeus, Princesa”, Clube do Autor, Lisboa, 2012

Carminha

Lídia Jorge

Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas. Um pano branco na mão. O braço adejando de encontro ao vidro. Alguidarzinho ajoujado de espuma cremosa, um alguidar maior de pura água macia. Novelo de saias entre pernas. Cadeira de tábua ajaezada de nódoas, flores vermelhas. Os pés aí juntos no fundo côncavo. As pernas de leve penugem rasinha. Então Carminha empertigava-se de encontro à mancha renitente entre a unha e o vidro. Minúscula, fruto de mosca palpitando asas em tempo vazio, compondo um ovo de esterco redondo.

Lídia Jorge, «O Dia dos Prodígios», Europa-América, 4.ª ed., 1982