Ficção

(…) as religiões foram as primeiras grandes invenções dos escritores de ficção. Uma representação convincente e uma explicação plausível do mundo, para mentes compreensivelmente confusas. Um história linda e perfeita, que encerra mentiras duras e exatas.

Barnes, Julian, in “Nada a Temer”, 3.ª ed., Quetzal, 2020

Livros Lidos

António Garcia Barreto lê “A Malta da Rua dos Plátanos”

Várias vezes premiado e com vasta obra publicada desde os anos 70, António Garcia Barreto deixa aqui uma parcela do seu romance “A Malta da Rua dos Plátanos”.

Nascido na Amadora a 15 de dezembro de 1948, António Garcia Barreto iria licenciar-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas seguiu o destino de muitos da sua geração e esteve na Guerra Colonial em Moçambique. Regressado a Lisboa, passou por diversos papéis em diferentes empresas (funcionário de livraria, técnico de organização e métodos, gestor de Recursos Humanos e diretor de pessoal) e tornou-se colaborador de diversos órgãos de comunicação social – República, Notícias de Lourenço Marques/Maputo, O Diário ou Diário Popular, neste caso participando com mais regularidade na Página Infantil sob a coordenação de José de Lemos. Empenhado na escrita, depois de um prémio de poesia em 1972 seria distinguido, no ano seguinte, como vencedor do concurso de contos que o Diário Popular organizou. O texto ganhador intitulava-se “Tio Jeropiga, Tio Manel Pedreiro, Eu, a Mula Bizarra e Companhia”.

Acabaria por enveredar pela literatura para os mais jovens com obras como “Botão Procura Casa” e “História das Três Janelas” (ambos de 1977), “Na Rua onde Moro” (1981), “O Luxo da Gata Mafalda” (1986), mas também uma série: “Brigada Azul” (publicada entre 2000 e 2002). Pelo meio criara e fora responsável, no Notícias da Amadora, no começo da década de 80, por uma página infantil (Oficina do Tio Lunetas) e também já se dedicara ao romance, como em “A Malta da Rua dos Plátanos” (1981), livro que aqui apresenta, ou “A Cidade dos Lacraus” (1994). Mas também abordara o ensaio com “Literatura para Crianças e Jovens em Portugal” (1998) e “Dicionário de Literatura Infantil Portuguesa” (2002). “Contos do Amor Breve” foi publicado em 2000 e, no mesmo ano, “Rubens e a Companhia do Espanto em O Caso da Mitra Desaparecida” foi agraciado com o Prémio Literário de Sintra – Adolfo Simões Müller, de Literatura Infantojuvenil. De 2005 é o romance “Ensina-me a Namorar” e do ano seguinte a obra “À Sombra das Acácias Vermelhas”. “Ricardo Caiu no Buraco de Ozono” (2008) foi outro título dedicado aos mais jovens e, no mesmo ano, também publicou o romance “A Mulher da Minha Vida”. Em 2010 e 2011 regressou aos romances, respetivamente com “Um Sorriso para a Eternidade” e “O Homem do Buick Azul”. “A Malta da Rua dos Plátanos” foi revisto e reeditado no ano passado.

Book Cover Editora

“Era natural que António tivesse ouvido falar, na fábrica, da preparação de alguma revolta. Os homens é que sabiam dessas coisas das guerras e das revoluções. Por isso iam à tropa”, escreve o autor na obra “A Malta da Rua dos Plátanos”.

Membro da Sociedade Portuguesa de Autores, António Garcia Barreto publica o blog Viagens por Dentro dos Dias que pode ser visto aqui.

(Publicado no blog “Livros LidosLiteratura em Voz Alta a Qualquer Hora“, da responsabilidade de Paulo Pereira)

Jornalismo irrelevante

Quase trinta e um ano depois, o jornalismo tornou-se praticamente irrelevante. Perdeu leitores, perdeu profissionais e perdeu órgãos de informação, substituídos por uma coisa acrítica e facilmente manipulável como são as redes sociais.
(…)
Percebem-se muito bem os motivos pelos quais cada vez menos gente “consome informação jornalística”. Se é para ter acesso a uma réplica do lodo que circula nas redes sociais, mais vale chafurdar directamente na fonte.

Manuel Jorge Marmelo no seu blog “Teatro Anatómico“, de 29/06/2020

O martelo de Thor*

* José Pacheco Pereira no “Público” de 20/06/2020
“Eu gosto muito do meu país, mas não tenho muitas ilusões sobre ele. É um país atrasado, pouco desenvolvido, sem massa crítica, pouco culto, sem grande qualificação da mão-de-obra, muito dependente de vagas de superficialidade, onde a maioria das pessoas trabalha duramente para não receber sequer o mínimo vital, sem vida cívica autónoma do Estado, com uma economia débil, desindustrializado, com uma agricultura desigual, pouco cosmopolita, com muitos aproveitadores e alguns bandidos, mas aí como os outros.”
(continuar a leitura seguindo o link do WordPress)

Mandriões

E quando se pensa que nos países em que o horizonte está quase constantemente Miniatura em medalhão do rei D. Pedro V aberturacoberto os sábios se ocupam com observações, procurando colher delas os possíveis resultados, e que pelo contrário nas belas noites estreladas do nosso clima abençoado os nossos observadores em papel dormem sossegadamente nas suas camas, é preciso confessar que somos muito mandriões e que desprezamos muito a ciência.

D. Pedro V in “Escritos de D. Pedro V, volume I“, citado por Ruben Andresen Leitão na sua obra “D. Pedro V, Um Homem e Um Rei”

Hedonismo

Na linguagem de todos os dias, a noção de hedonismo designa uma inclinação amoral pela vida dada ao prazer, senão ao vício. O que é inexacto, claro: Epicuro, o primeiro grande teórico do prazer, compreendeu a vida feliz de uma maneira extremamente céptica: experimenta prazer aquele que não sofre. É o sofrimento que se torna assim a noção fundamental do hedonismo: somos felizes na medida em que sabemos afastar o sofrimento; e como os prazeres trazem muitas vezes mais infelicidade do que felicidade, Epicuro recomenda apenas prazeres prudentes e modestos. A sabedoria epicuriana tem um travo melancólico: lançado na miséria do mundo, o homem comprova que o único valor evidente e seguro é o prazer, por magro que seja, que ele próprio possa experimentar: um gole de água fresca, um olhar para o céu (para as janelas de Deus), um afago.

Milan Kundera in “A Lentidão”, Edições ASA, Porto