Vou mudar de canal

Não consigo gostar de séries americanas (USA) nem de filmes com carimbo americano. Dito assim, genericamente, parece mau, muito mau, e é. Mas é verdade que no meio do muito mau alguma coisa se aproveita. Nem podia ser de outra maneira. O povo americano é um povo tendencialmente estúpido, fechado no seu universo circular. Vive rodeado de armas, usa-as a seu belo prazer, com os resultados conhecidos. O resto são lantejoulas, fogos fátuos, o sonho americano, que não se sabe bem qual é. Mas estava a falar de séries americanas. Na verdade, têm uma receita. Grandes planos, a família e a religião, a polícia elevada à craveira de quem tudo resolve (embora depois haja séries de casos arquivados, que na época não foram ou não puderam ser resolvidos), os heróis, os carros pelo ar, as sirenes sempre a buzinar, etc. Além das séries de gordos, de concursos de quem come mais, das meninas à procura do melhor vestido de noiva. Coisas do género. Ao pé das séries inglesas é a noite do dia. Os ingleses têm uma história muito antiga, como em geral os povos europeus e asiáticos. A Amereca tem trezentos anos de domínio branco, ainda é uma criança. Vá lá, uma adolescente. Isso tudo concorre para estar numa fase de se olhar muito ao espelho. E isso reflecte-se nas séries e filmes que nos chegam, escolhidos a dedo pelos distribuidores nacionais para embezerrarem o povo português, o qual, como sabemos é fácil de conquistar e levar na onda. Vou mudar de canal. Mas não sei para qual.

Ensina-me a Namorar

Ensina-me_a_Namorar

A nossa conversa não adiantou muito ao que eu já sabia. As informações que ela possuía eram poucas e desactualizadas. Uma relação das entidades a quem se dirigira e das informações recolhidas, todas elas negativas, era o corolário de anos de tentativas frustadas e talvez mal conduzidas para encontrar Romeu Duchamp, o seu amor de juventude. Estranhei o nome. Julieta esclareceu que o avô paterno de Romeu era francês. Mostrou-me fotografias do namorado, à civil e em traje militar, tiradas no decurso daquele ano em que se conheceram. Eram fotografias a preto e branco, sem qualidade, tiradas por amador. Devolvi-lhas sem lhes prestar muita atenção.

 

António Garcia Barreto in “Ensina-me a Namorar

Música

Grave som de alegria, o violoncelo

Passa lento na alma, em ela freme:

Murmuremos então ao corpo duplo,

Às bocas e às mãos, e aos desmaios, 

Às secretas pesquisas que não temem

Nem vergonha, nem dor, nem a verdade:

Amor é isto, um arco de alegria

Sobre a corda esticada do orgasmo.

 

José Saramago, “Provavelmente Alegria”

Roubar

Roubar já não se chama roubar. Este homem que comanda uma frota da Baía a Tunis, é um financeiro e um poeta. Faz a fome e a fartura. Arruína um povo — e enriquece. Uma revolução, dois, três navios vão pelos ares… Mais negócio, melhor negócio. Este médico, este advogado, este honrado comerciante, exploram-te. Enriquecem. Desçamos na escala: ali à esquina levam-te a carteira com uma nota de dez mil réis. A isto é que se chama roubar.

Raul Brandão in “Húmus”

Liberdade acorda, estão a cercar-te

O mundo começa a estar cheio de puritanas e puritanos, de vingadores e vingadoras. De cavaleiros da Verdade Única. De delatores e gente disposta a chatear a cabeça dos outros com regras para tudo, moralidades ocas, comportamentos exemplares e cheios de ranço. Regras para comer, foder, não ingerir carne, não fumar, não beber, deixar o açúcar, esquecer o sal, correr a maratona todos os dias, tomar os suplementos, beber água com PH alcalino, não pisar uma formiga. Liberdade, acorda. Estão a cercar-te.

Dias cinzentos

Não gosto de dias cinzentos. Roubam a cor da vida, acentuam a melancolia. Nos dias cinzentos não há o brilho da luz; e a luz é (quase) tudo na vida. A luz, a água e o sol. Talvez por isso gosto da amenidade do tempo grego, do céu azul, das águas serenas que lambem as areias das praias. O mesmo posso dizer de Portugal. Olho através da janela e tenho saudades do tempo alegre, soalheiro e quente, que me visita regularmente na linha que vai de Lisboa a Cascais. Sim, ainda estamos no Inverno. As árvores continuam despidas, vergadas, por vezes, a uma brisa demasiado agreste. O rio Tejo corre cinzento para a foz, com um céu da mesma cor a acompanhá-lo. Não sei o que o Cristo-Rei, na Outra Banda, pensa disto. Continua de braços abertos, como se quisesse receber Lisboa nos seus braços. Mas também ele deve sofrer de melancolia, imerso na neblina que lhe rouba os contornos e afasta o brilho dos dias de sol.