A culpa é das estátuas

Há por aí talibãs e a gente não sabia. Mas já sabíamos que a idiotice é uma doença que afeta aqueles que se julgam inteligentes e donos da verdade. O mundo está cada vez mais básico e os humanos a regredir para estádios animalescos, ao mesmo tempo que a tecnologia se desenvolve aceleradamente. Parece contraditório, mas se calhar não é. O espetro da Inquisição, por seu lado, é como um vírus que se julgava extinto e afinal continuava apenas inerte, à espera de oportunidade para atacar.

Uma abelha na chuva (trecho)

Carlos de OliveiraPelas cinco horas de uma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois de árdua jornada que o trouxera da aldeia de Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandarenses, por aquele tempo desabrido.

Carlos de Oliveira in “Uma Abelha na Chuva”, Col. Miniatura, Livros do Brasil, Porto, 2020

A história imortal

A História ImortalA História Imortal by Isak Dinesen

My rating: 3 of 5 stars

 Uma novela muito bem escrita, com algo de misterioso, que apela à leitura. Personagens bem desenhadas, um chinês de Cantão que nos traz reminiscências de uma China do século XIX, num ambiente de portos e marinheiros. A estória dentro da novela não é assim tão encantadora. É como um filme com atores de primeiro plano que não nos consegue entusiasmar. Antes “África Minha” com a sua força telúrica num mundo em mudança.

O bife

Naquela família modesta, de operário e costureira, com dois filhos, a vida corria ao sabor do dinheiro que entrava em casa. Do dinheiro e do vinho. Explico-me: o dinheiro não abundava, às vezes faltava mesmo, e, nessa ocasião, entrava o vinho.
O vinho até entrava de modo engraçado, sempre pela boca e comportamento de Jesualdo, pai e marido, bom homem a quem faltara o carinho de mãe na idade em que ele faz sempre falta. Jesualdo, nos dias mais ingratos, em que a vida lhe corria mal, metia-se nos copos com os amigos e transformava-se, bebesse pouco ou bebesse muito. Se bebia pouco, azedava, ficava atravessado com a bebida, arranjando complicações por tudo e por nada; se bebia muito dava-lhe para o sentimento e chorava sem saber por quê, junto da mulher e dos filhos. Benilde gostava mais desta fase, mas não era ela que mexia os cordelinhos do comportamento do marido. Jesualdo ficava num estado emocional frágil, que um café e uma noite de sono regenerava.
Piores eram os dias em que chegava a casa de olhar fustigador implicando com Benilde e com os filhos a propósito de coisas sem razão, de que só um bêbado se lembra. Foi o que aconteceu naquele dia de verão, ao jantar. Jesualdo entrara em casa a implicar com a mulher por causa de uma camisa mal passada. Depois calou-se, sentando-se à mesa. O jantar, por sinal, ou capricho de Benilde, era um luxo para época: bife com batatas fritas.
— Este bife é rijo! —vociferou com o olhar vermelho, a prometer borrasca.
— Pedi no talho que arranjassem bifes tenros por causa dos meninos — justificou-se Benilde, perante o alheamento das crianças, felizes pelo manjar tão raro em dias de semana.
— Este bife é rijo! — tornou Jesualdo, levantando-se e abrindo a janela da cozinha que dava para um descampado. Pegou no prato com o bife e as batatas fritas e atirou-o pela janela.
Vestiu o casaco e voltou para a taberna. Benilde não chorou. Apenas encolheu os ombros, depois sentou-se à mesa a jantar com os filhos. As crianças comeram tudo. No final, foram à janela ver onde tinha ido parar o prato com o bife e as batatas fritas que o pai atirara pela janela fora.
— O bife era bem bom, mãe — disse uma das crianças. O irmão concordou. A mãe sorriu.

António Garcia Barreto in “Contos Curtos”