Hedonismo

Na linguagem de todos os dias, a noção de hedonismo designa uma inclinação amoral pela vida dada ao prazer, senão ao vício. O que é inexacto, claro: Epicuro, o primeiro grande teórico do prazer, compreendeu a vida feliz de uma maneira extremamente céptica: experimenta prazer aquele que não sofre. É o sofrimento que se torna assim a noção fundamental do hedonismo: somos felizes na medida em que sabemos afastar o sofrimento; e como os prazeres trazem muitas vezes mais infelicidade do que felicidade, Epicuro recomenda apenas prazeres prudentes e modestos. A sabedoria epicuriana tem um travo melancólico: lançado na miséria do mundo, o homem comprova que o único valor evidente e seguro é o prazer, por magro que seja, que ele próprio possa experimentar: um gole de água fresca, um olhar para o céu (para as janelas de Deus), um afago.

Milan Kundera in “A Lentidão”, Edições ASA, Porto

Wilma

Essa azáfama sexual e uma vida a dois semelhante a de jovens noivos começou a cansar-me. A nossa relação estava muito próxima de um casamento sem papel passado, em que a mulher me sustentava a troco de bem-aventuranças sexuais. O pior é que ela começava a ter acessos de ciúme. Perguntava-me por namoradas. Eu encolhia os ombros. Se gostava delas. Voltava a encolher os ombros. Se eram bonitas. Não dava resposta, apenas sorria, o que a deixava de mau humor. O desejo insaciável de Wilma começava a deixar-me à beira do desinteresse. Acho que ela pretendia que eu não sentisse qualquer desejo perante outras mulheres, por me sentir saciado. Mas na minha idade a diversidade é que me saciava, não a rotina de sexo. Wilma parecia ter atingido alguma meta de vida, mas eu ia por um caminho que não escolhera nem me interessava. Casar, viver junto, amantes, amigos coloridos, o que era isso? Não fazia parte dos meus planos de vida. Queria liberdade. LIBERDADE.

António Garcia Barreto in “O Último Voo de Malvina Bleck