Manipulador de palavras

Hoje as palavras andam devagar dentro de mim
Devem estar cansadas porque nunca lhes dou descanso
Ou ainda não encontraram o trilho certo
para me acenarem um adeus encorajador

É muito difícil trabalhar com as palavras
São amigas inteligentes, velhas como séculos
sábias como os sábios de Alexandria

E eu sou apenas um manipulador de palavras
que as usa e delas abusa sem nunca protestarem
Sabem que são valiosas titulares do saber
Sem elas o que hei-de dizer?
Sem elas o que vou fazer?

© António Garcia Barreto in “O Cio das Manhãs” (obra registada no IGAC)

Arregaçar as mangas

Preparar-se para fazer alguma coisa com empenho e determinação. Dispor-se a executar um serviço de imediato.

A origem da expressão parece (nestas coisas nunca se sabe ao certo, pois não há documentos) estar ligada a um comportamento antigo de operários e trabalhadores rurais. Como o seu trabalho era totalmente braçal e usavam roupas muito largas no corpo, tornava-se necessário arregaçarem as mangas para poderem trabalhar com liberdade de movimentos, sem que as mangas atrapalhassem ou pudessem interferir com o movimento de uma máquina. A expressão mantém atualidade, mas o seu sentido alargou-se. Hoje, num escritório, por exemplo, um responsável pode dizer ao seu pessoal:  “Vamos lá arregaçar as mangas e terminar a tarefa dentro do prazo”. É evidente que neste contexto o seu sentido não é literal, mas simbólico.

À sombra das acácias vermelhas

AcaciasV_300Um romance que aborda alguns aspetos da Guerra Colonial em que Portugal esteve envolvido durante treze anos (1961-1974), e sobre a qual o país político enfiou a cabeça na areia, como se ela não tivesse ocorrido.

“Quem habita situações como as que estão referidas neste livro habitualmente tarda em publicitá-las, devido à carga emocional que a elas está ligada. Existem sentimentos de humilhação, coisas más que frenam a espontaneidade e necessitam de um tempo decorrido para o esbatimento desejável e libertador. Permite-se, assim, ao leitor a fruição de um testemunho mais distanciado e crítico, porventura mais coerente. António Garcia Barreto é um autor com uma vasta obra publicada na área do romance e literatura infanto-juvenil.” (da contracapa)

(À venda na WOOK.pt com possibilidade de leitura de algumas páginas)

c4f01-davis-lydia-c-theo-cote-author-photo-resize-344c9332ba7b7f3f63c896a3ee1dbb21d6ad65f6-s6-c30Mrs. D escreve:
Temos agora uma miudinha de catorze anos de nome Brava. É de cor, não sendo, porém, considerada preta – tem de ser tratada como portuguesa.
É maravilhosa com o bebé e sabe lavar louça e outras coisas simples. Até agora, porém, tem sido muito irregular nas suas vindas.

Lydia Davis in “Contos Completos”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012

Soneto de felicidade

Viniciusdemoraes-610x350De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E, assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive);
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes in “O Poeta Apresenta o Poeta”, Dom Quixote, Lisboa, 1970