Não entendo nada da vida

Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. Contudo há horas, as horas perdidas – e só essas – que queria tornar a viver e a perder.

Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As coisas belas reduzem-se a meia dúzia: o tecto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz.

Raul Brandão in “Se tivesse de recomeçar a vida”, col. brevíssima portuguesa, 4, 1995 (?)

Um sorriso para a eternidade

Desde criança Tito Borges imagina como teria sido a vida do seu avô materno. Na casa de família onde cresceu, o nome do patriarca não era pronunciado, como se de uma maldição se tratasse. Quando atinge a idade adulta, decide investigar quem foi aquele homem do qual só sabe ter um sorriso encantador, a que não se consegue resistir.

“Um sorriso para a eternidade” é a história de um homem em busca da felicidade, que tem a coragem de não deixar morrer uma memória. Mas até que ponto estamos preparados para encarar a verdade quando decidimos reconstruir um passado que desconhecemos?

Gratidão


Não pense que sou grata por tuas pequenas
gentilezas.
Gosto de pequenas gentilezas.
De facto as prefiro à gentileza mais
substancial, que está sempre a te cravar os olhos,
feito um grande animal sobre o tapete
até que a tua vida inteira se reduza
a nada além de levantar manhã após manhã
embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.

Louise Glück, poeta, Prémio Nobel da Literatura, 2020

Tradução de Pedro Gonzaga, poeta e tradutor brasileiro, retirada da revista de cultura Estado da Arte.

não me peças perdão (fado)

não me peças perdão. a culpa não é minha:
foi este tempo todo descuidado,
foi não achar que o fim um dia vinha
foi ficar sem defesas a teu lado

foi nunca te lembrar em sobressalto
foi não deixar falar a tua boca
foi não pensar em ventos no alto mar
foi tanta coisa, tanta, hoje tão pouca

foi deixar-me viver em falsa paz
foi afagar-te as mãos sem as prender
ou foi prendê-las mal e tanto faz
julgar que se morria de prazer

agora é tarde, sim, tarde demais,
tropeço às cegas nesta dura lei,
não sei se vale a pena dar sinais
e o que te hei-de dizer também não sei.

Vasco Graça Moura in "Mais Fados & Companhia", 
edição Corda Seca e Jornal Público, (2004 ?)

Saio da cama

Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele 
das ondas. Visto-me às escuras -- tão

mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e

escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.

Maria do Rosário Pedreira, "Poesia Reunida", Quetzal, 2015