O conforto físico do leitor

Porém, como Colette descobriu, além de exigirem um contraste entre o seu conteúdo e o ambiente envolvente, alguns livros parecem pedir posições específicas para serem lidos, posturas corporais do leitor que, por sua vez, exigem lugares de leitura apropriados.

Frequentemente, o prazer da leitura depende em grande medida do conforto físico do leitor.

Alberto Manguel in “Uma História da Leitura”, Tinta-da-China, Lisboa, 2020

Sem título

(Inscrevi-me no batalhão Académico e, termi-

nada a Aventura de Monsanto, parti para o

Norte, a arder de Esperança.)

Para que me serve agora essa Esperança

e o passado tal como o penso

visto pelos olhos arrancados

aos meus fantasmas de criança

que trago atados num lenço

e de quando em quando desembrulho

(com a sensação de viver sufocado de silêncio

debaixo de entulho)?

José Gomes Ferreira, “Poesia VI”, Diabril Editora, Lisboa, 1976

O formato do livro


Quando escolho um livro para levar para a cama ou para a secretária, para o comboio ou para oferecer de presente, considero tanto a forma como o conteúdo. Dependendo das ocasiões, dependendo do lugar onde escolho ler, prefiro um livro mais pequeno e cómodo ou mais amplo e substancial. Os livros revelam-se pelos títulos, pelos autores, pelos lugares que ocupam num catálogo ou numa estante, pelas ilustrações na capa. E também pelo tamanho. Consoante a época e o lugar, antecipo que os livros tenham aparências diversas e, como em todas as modas, essas características passageiras fixam uma qualidade precisa para a definição de um livro. Avalio um livro pela capa; avalio um livro pelo formato.
(…)
Alberto Manguel in “Uma História da Leitura”, Tinta-da-China, 2020

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira in “Matura Idade”