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O meu negócio são as letras. Pobre negócio. Mas não tenham pena de mim. Com as letras construo palavras que junto em frases com as quais edifico contos, poemas, ideias e, sobretudo, romances. As palavras são o ar que respiro. Mas nem sempre inspiro bem. Tal como assentar tijolo sobre tijolo, alinhar palavras à frente de palavras leva o seu tempo e deixa-me um bocado cansado. As palavras antes de serem palavras são ideias que se solidificam. As ideias não têm muito a ver com a inspiração, são mais atreitas ao trambolhão. E alinhá-las para transmitir ideias dá um trabalhão. Há pessoas que brincam com as palavras. Não tem mal nenhum. Há quem brinque com coisas piores. Mas as palavras, as frases, os livros que elas constroem, são coisas sérias com as quais não se deve brincar, a não ser que brincar faça parte dessas coisas sérias com que um escritor se debate. Um livro de humor é uma coisa séria. Que o diga, por exemplo, Luis Fernando Veríssimo, ou Millôr Fernandes, ou o nosso Ricardo Araújo Pereira. Todos os livros são coisas sérias, como a pintura, a escultura, a arte em geral. O que há são coisas sérias mal feitas. Mal escritas, de conteúdo pouco interessante, no caso dos livros. Mas isso sucede em toda a actividade profissional.
Deixo-vos aqui um pequeno poema por terem tido o trabalho de lerem as palavras anteriores.
Ela tinha uma cadela
Eu tinha um cão
Os cães casaram
Nós, não
(agb)