Intelectuais

A palavra intelectual, no calão político da época, era um insulto. Designava um homem que não compreende a vida e que está separado do povo. Todos os comunistas enforcados nesses tempos por outros comunistas foram gratificados com esta injúria. Ao contrário dos que tinham os pés solidamente assentes na terra, eles planavam, dizia-se, em qualquer parte, nos ares. Era por isso justo, em certo sentido, que a terra, por castigo, lhes fosse aos pés definitivamente recusada, e que ficassem suspensos um pouco acima do solo.

 

Milan Kundera in “O Livro do Riso e do Esquecimento”

Páginas ao acaso

(…) O meu avô Claudino (…) Mandou pôr um portão de ferro à entrada da Quinta das Tílias, que ficava logo ali, à saída da cidade. Disseram-me que ele tinha um grande orgulho naquele portão. Era um portão alto, encomendado no Norte e que custou uma fortuna: abria sobre os dois cunhais de pedra que rematavam um muro de três metros de altura e que acompanhava a partilha da quinta com a estrada. Tirou a velha cancela de madeira, implantou o portão e ficou todo ufano dele. Um dia chegou a cavalo ao cair da noite. O caseiro veio de lá, de corrida, para não o fazer esperar e abriu o portão com as ganas de quem está a fazer um serviço à vista de quem manda. O portão guinchou nos gonzos e espantou o animal que se levantou nas patas. O meu avô caiu de cabeça: ainda o levaram para a cama mas, quando o estenderam, já estava morto.

 

António Alçada Baptista in “Tia Suzana, Meu Amor”

Vou mudar de canal

Não consigo gostar de séries americanas (USA) nem de filmes com carimbo americano. Dito assim, genericamente, parece mau, muito mau, e é. Mas é verdade que no meio do muito mau alguma coisa se aproveita. Nem podia ser de outra maneira. O povo americano é um povo tendencialmente estúpido, fechado no seu universo circular. Vive rodeado de armas, usa-as a seu belo prazer, com os resultados conhecidos. O resto são lantejoulas, fogos fátuos, o sonho americano, que não se sabe bem qual é. Mas estava a falar de séries americanas. Na verdade, têm uma receita. Grandes planos, a família e a religião, a polícia elevada à craveira de quem tudo resolve (embora depois haja séries de casos arquivados, que na época não foram ou não puderam ser resolvidos), os heróis, os carros pelo ar, as sirenes sempre a buzinar, etc. Além das séries de gordos, de concursos de quem come mais, das meninas à procura do melhor vestido de noiva. Coisas do género. Ao pé das séries inglesas é a noite do dia. Os ingleses têm uma história muito antiga, como em geral os povos europeus e asiáticos. A Amereca tem trezentos anos de domínio branco, ainda é uma criança. Vá lá, uma adolescente. Isso tudo concorre para estar numa fase de se olhar muito ao espelho. E isso reflecte-se nas séries e filmes que nos chegam, escolhidos a dedo pelos distribuidores nacionais para embezerrarem o povo português, o qual, como sabemos é fácil de conquistar e levar na onda. Vou mudar de canal. Mas não sei para qual.