Ainda o Festival das Cançonetas

Não vi o Festival da Canção de fio a pavio. Aliás, vi mal. Não porque tenha qualquer coisa contra o Festival da Canção, mas porque tudo aquilo é confrangedor. O júri, as músicas, as letras das músicas, os intérpretes. Longe vai o tempo de composições que se não valiam nada lá fora, valiam muito cá dentro. Ainda por cima, se Salvador Sobral ganhou o ano passado, e pela primeira vez, o Festival da Eurovisão, agora quase todos querem ser uma espécie de cópia do Salvador. Ninguém se salva. É uma atitude pirosa. E sobre Salvador ter ganho o ano passado o Festival da Eurovisão alguma coisa haveria a dizer. Mas não vale a pena. Passou o timing, ganhou, ponto final. Depois aquela coisa do plágio, que ninguém sabe se houve plágio se não houve. A IURD diz que sim e depois diz que não, mas talvez. Outros dizem que não foi plágio, mas cópia. Ou nem uma coisa nem outra, são coisas habituais no reino da música, comentam outros. Piçarra saiu de campo (uma atitude digna). Não há uma orquestra, há música empalhada, para se poupar nos custos. O que interessa é a imagem, é da imagem que vive a televisão. Mas a imagem é foleira. A música não se vê, pode ser debitada pelo computador. Enfim, passo bem sem o festival das cançonetas. Mas tenho pena que seja uma espécie de corpo moribundo que não morre nunca, nem se reabilita.

As cadeiras do shopping

Os velhos estão sentados nas cadeiras do shopping, como se estivessem na sala de um asilo ou de uma casa de repouso. Estão sentados de olhar parado, a vida a correr-lhes na tela do cérebro, uma fita em reprise. Um de entre eles mais desenrascado nas circunvalações de um smartphone, faz a tela girar para cima e para baixo, e da direita para a esquerda, procurando alguma coisa que não encontra. Talvez não saiba como encontrá-la. Levanta-se e vai à vida, logo substituído por outro utente da cadeira, que traz um jornal na mão. O jornal que todos os velhos lêem hoje, porque trazem as notícias preparadas para responder às suas perguntas, tal como durante o consulado salazarista acontecia com o Diário de Notícias, o órgão não oficial do Estado Novo. As coisas não mudaram assim tanto. Mudam exteriormente, mas a mentalidade é uma mudança de longa duração, como a classificava o historiador Fernand Braudel.

O caminho se faz caminhando

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

 

António Machado (alguns versos de “Proverbios y cantares em campos de Castilla“)