Importante é subir o monte

Enamorei-me dos teus pés
dos passos que eles dão
no espaço da minha imaginação

Juntei os meus aos teus pés
para percorrermos a vida
lado a lado, de lés a lés

Atravessamos charnecas em flor
subimos ao cimo dos montes
os meus pés à frente
ou teus pés atrás
ou vice-versa tanto faz

Importante é subir o monte
chegar ao cume e olhando o
que a vista alcança
ter a certeza que a subida
não foi vã esperança

© António Garcia Barreto

Walt (abertura)

Esta besta barco chama-se Apocalipse, é branca e tem duas chaminés providas de sendas riscas azul-ferrete. Vejo claramente visto que já não é nova, a besta, mas para irmos aonde vamos qualquer traineira servia, qualquer caca inventada à pressão pelos altos poderes sereníssimos, desde que flutuasse.

Atrás de mim, e de que partem vozes, o pelotão alinhado. Soma trinta e cinco gatilhos, um dos quais o último até agora íntimo, preto rural da Carolina do Sul que quis ser meu impedido e na hora de deixarmos Baltimore e o abarracamento: chorava, chorava com os focinhos metidos na boina.

Fernando Assis Pacheco, “Walt”, 4.ª ed., Livraria Bertrand, Amadora, 1979

O pássaro azul (excerto)

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) 

Charles Bukowski (tradução de Pedro Gonzaga)