O Rio Triste

Fernando-NamoraNo dia 14 de Novembro de 1965, nesta cidade de Lisboa, um homem saiu cedo de casa e já não voltou. Nesse dia e nos que se seguiram. Também não o viram mais no emprego. Chamava-se ou chama-se (pois há quem pense que o caso não foi suficientemente deslindado), Rodrigo dos Santos Abrantes. Um nome vulgar se exceptuarmos talvez o Rodrigo, e por isso mesmo detestado pelo próprio, que, como se verá mais adiante, projectara mudá-lo para Rodrigo Macieira – as razões também as saberemos a seu tempo.
Vale a pena esmiuçar, e sobretudo fantasiar (já que as pistas concretas de que dispomos não nos levariam longe), as circunstâncias em que se deu esse desaparecimento. Rodrigo, após o pequeno-almoço, tomado como sempre sob a ressaca do maldito despertador, isto é, num silêncio amuado e gestos irritadiços, espreitou os ares pela janela das traseiras, logo deduzindo que a friagem recomendava que se precavesse com a gabardina (…)

O Rio Triste” (abertura), Fernando Namora, Círculo de Leitores, Lisboa, 1983 (edição de 15.000 exemplares)

Os filhos da ganza

Era domingo. Alvores do dia. Primeiro chegou ela. Abriu a malha de rede que vedava todo o prédio em construção e, num passo demasiado inseguro, subiu pela escada interior em cimento e chegou ao telhado, à altura de um terceiro andar. Aí sentou-se no vértice das abas do telhado, deixando de lado a mochila e uma garrafa quase vazia de um qualquer refrigerante. Acendeu um cigarro ou uma ganza, e ficou a olhar o rio largo, duzentos metros à sua frente, que refletia os primeiros raios da alvorada. Passado uns vinte minutos chegou ele, mochila ao ombro, passo trocado. Do alto onde se encontrava ela vi-o chegar e veio à aba do telhado indicar-lhe onde ficava a entrada sem porta do prédio. Ele subiu não sem antes abrir a porta do WC de rua que servia, em dias de trabalho, os operários. Chegado ao telhado, deixou cair a mochila e não se aguentando sobre o vértice que unia as telhas caiu de costas. Passado pouco arrastou-se sentando-se ao lado da parceira. Era-lhe muito difícil controlar os movimentos. Ficaram ali a fumar, a mascar palavras, enquanto olhavam as águas do rio. Passaram duas horas e o sol incidia forte sobre o telhado de chapa metálica. Ela deitou-se no plano inclinado das telhas e adormeceu. Pouco depois, ele tentou fazer o mesmo, caiu de lado e assim ficou a dormir atravessado sobre as telhas. A noite metera certamente muita bebida, muitos shots, ganzas, muitos voos interiores. Os filhos da ganza.

O martelo de Thor*

* José Pacheco Pereira no “Público” de 20/06/2020
“Eu gosto muito do meu país, mas não tenho muitas ilusões sobre ele. É um país atrasado, pouco desenvolvido, sem massa crítica, pouco culto, sem grande qualificação da mão-de-obra, muito dependente de vagas de superficialidade, onde a maioria das pessoas trabalha duramente para não receber sequer o mínimo vital, sem vida cívica autónoma do Estado, com uma economia débil, desindustrializado, com uma agricultura desigual, pouco cosmopolita, com muitos aproveitadores e alguns bandidos, mas aí como os outros.”
(continuar a leitura seguindo o link do WordPress)

Covid-19 e estupidez

Barrada a entrada de portugueses em dez países europeus, porque o índice de infectados pelo Covid-19 está acima de 20-25/100.000 habitantes. O governo assobia para o lado e diz que vai responder a esses países. Acho bem. Mas não seria melhor atentar nesses grupos que se juntam para festanças de onde depois saem infectados, de empresas que têm pessoal a trabalhar sem as condições de segurança (a televisão tem passado essas situações), da malta da construção civil que trabalha lado a lado sem usarem máscara (aqui à minha frente há um prédio com trabalhadores nessas condições e conheço outros), de abrirem as portas aos negócios cedo demais, de receberem a Web Summit, a Champions? Ontem morreu um médico com Covid-19, após quarenta e tal dias nos cuidados intensivos, médico de 68 anos e sem doenças. Começámos bem, mas estamos a ir mal, com mais casos de infectados, porque começam a desaparecer as campanhas de cuidados a ter face à pandemia e porque há pessoas suficientemente estúpidas que se estão borrifando para eles próprios e para os outros. Quem controla estas situações?

Talibãs

Afinal, há mais talibãs do que eu pensava. Estão espalhados pelo mundo e não são originários do Afeganistão. Vestem fato e gravata e aproveitam os ventos atuais vindos da extrema-direita do mundo, na sua cruzada para instalar o caos. Hitler deve estar a bater palmas na sepultura.
A culpa é dos políticos talhados à medida do politicamente correto, cuja única ideia é permanecer no poder a qualquer preço sem fazer ondas.