Liberdade acorda, estão a cercar-te

O mundo começa a estar cheio de puritanas e puritanos, de vingadores e vingadoras. De cavaleiros da Verdade Única. De delatores e gente disposta a chatear a cabeça dos outros com regras para tudo, moralidades ocas, comportamentos exemplares e cheios de ranço. Regras para comer, foder, não ingerir carne, não fumar, não beber, deixar o açúcar, esquecer o sal, correr a maratona todos os dias, tomar os suplementos, beber água com PH alcalino, não pisar uma formiga. Liberdade, acorda. Estão a cercar-te.

Dias cinzentos

Não gosto de dias cinzentos. Roubam a cor da vida, acentuam a melancolia. Nos dias cinzentos não há o brilho da luz; e a luz é (quase) tudo na vida. A luz, a água e o sol. Talvez por isso gosto da amenidade do tempo grego, do céu azul, das águas serenas que lambem as areias das praias. O mesmo posso dizer de Portugal. Olho através da janela e tenho saudades do tempo alegre, soalheiro e quente, que me visita regularmente na linha que vai de Lisboa a Cascais. Sim, ainda estamos no Inverno. As árvores continuam despidas, vergadas, por vezes, a uma brisa demasiado agreste. O rio Tejo corre cinzento para a foz, com um céu da mesma cor a acompanhá-lo. Não sei o que o Cristo-Rei, na Outra Banda, pensa disto. Continua de braços abertos, como se quisesse receber Lisboa nos seus braços. Mas também ele deve sofrer de melancolia, imerso na neblina que lhe rouba os contornos e afasta o brilho dos dias de sol.

O cemitério japonês

Uma visita, principalmente a primeira, a um cemitério japonês, cidade de mortos, assembleia silenciosa de gerações extintas, impressiona e comove. Sucede isto em qualquer outro cemitério, em qualquer parte do mundo; não se disturba impunemente a quietação dos mortos. Mas aqui, talvez, a impressão é mais profunda, já pela grandiosidade da paisagem em volta do local, assente de ordinário sobre alguma encosta da serra, ensombrado de arvoredo secular, aberto a largos horizontes, já pelos carinhos que os vivos vão prestando aos seus defuntos, do que notamos, a cada passo, indícios inequívocos.

Os cemitérios japoneses alastram-se frequentemente ao lado de grandes templos budísticos, dos quais são dependências; então, os bonzos neles superintendem. Quando não há templos próximos, haverá sempre algum casebre, abrigo de alguém que guarda o sítio.

 

Wenceslau de Moraes in “A dança das borboletas”, o Independente, 2004

Macau

Em Macau os chineses vão para os jardins passear as suas aves dentro de pequenas gaiolas de bambu, que penduram nos ramos das árvores. Depois sentam-se num banco, ou aproveitam o momento para fazer exercícios físicos de uma elegância notável. O ritmo é lento, semelhante a passos de balé filmados em câmara lenta, aqui e ali intercalado por movimentos enérgicos. Sentados, não deixam de massajar o rosto em movimentos suaves, sobretudo a zona do nariz. Claro que são as pessoas mais velhas que ainda mantêm estes hábitos de lazer conjugados com exercício físico. Mas com Macau transformada na Las Vegas da Ásia, será que todo este ritual não tenderá a desaparecer?

Os patrulheiros da gramática

Há quem não goste de adjectivos. Acham-os um tanto pesados, num tempo de dietas para emagrecer. Outros matam todos os advérbios de modo, como se fossem uma praga. Definitivamente, mortos. Mas importam-se pouco com o à ou á, quando a lei manda que se use há. Há (de haver). Não, há-de haver. Enfim, agora escreve-se (escrevem) há de, sem hífen, porque são a favor da lei, o novo AO. Ou tinha morto, em vez de tinha matado. Mas existem também os patrulheiros da pontuação. Prendam-se já todos os pontos de exclamação. Acabem com os hífens. Fuzilem-se as reticências. Desprezem as maiúsculas, essas letras com a mania das grandezas. Todo o romance sem minúsculas. Já! Fica mais leve, mais airoso, uma mancha toda por igual. A forma para esquecer o conteúdo. Enfim, um tempo de poucas ambições, mas de crescentes patrulhamentos.