O cio das manhãs

É só para relembrar. Poesia. Em breve nos locais habituais e online, e também no Brasil. Preço da edição em Portugal 12€. No Brasil R$32. E-book 5€.

“O cio das manhãs”. Poesia. Astrolábio Edições.

Melancolia

Contigo viajo à procura do sol
de sorrisos cristalinos
como o orvalho das manhãs
para acender a luz e
iluminar a minha tristeza

Minha amiga, alma gémea
minha caderneta de versos
que escrevo nas manhãs cinzentas
quando tu vens procurar
o meu silêncio e dormir a meu lado
num conforto de palavras

Não penses que te amo
embora andes sempre a meu lado
desafiando-me a quebrar
Não conseguirás impedir-me
de procurar o sol das tardes mornas e
doces, de produzir canções alegres
e de caminhar pela vida
de rosto iluminado e olhar determinado
Não me derrotarás, melancolia.

© António Garcia Barreto

O livro e o resto

Sabia, sei por conhecimento próprio, que os povos nórdicos leem muito. Não apenas por lhes ser incutido o gosto pela leitura e pela cultura em geral, desde crianças, como pela circunstância de viverem invernos rigorosos que os remetem para o interior das habitações cercadas de neve e gelo. São vidas difíceis, apesar de estarem habituadas ao rigor do tempo. Lamento que em Portugal não se possa dizer “Nós por cá todos bem” e a cultura esteja tão desprezada em todas as suas vertentes, particularmente o livro que é a situação que melhor conheço. Isto apesar da carolice de alguns profissionais que não desistem de levar a bom porto a sua área de atividade cultural. O assunto é complexo e tem muitas pontas por onde se pegar (e em que poucos pegam).

Acordei a necessitar deste desabafo.

Covid-19

Se o Covid-19 não nos matar, as medidas para o conter vão acabar por nos endoidecer, por fazer de nós seres controlados pelo medo, o stress, a ansiedade.
Tão depressa há confinamento como desconfinamento. Ora se diz que são necessárias máscaras na rua, ora se lê que não faz sentido, porque o vírus não anda no ar. E já agora expliquem-me qual a necessidade de todos os dias nos massacrarem com o número de mortes e de infetados pelo covid-19? E os restantes doentes e mortos? Não falam deles? Isto é algum jogo, algum concurso? Os jornais fazem pandã com os políticos, encharcando-nos com notícias repetidas e pouco esclarecedores. Parem! Talvez fosse melhor gastarem orçamento colocando placards em sítios estratégicos com as principais medidas a ter em conta pelo cidadão para escapar ao contágio. Tenham paciência, senhores políticos que gerem a pandemia e jornalistas que a divulgam. É necessário bom senso.

As botinhas do cão

A burguesa passeava o cão que calçava botinhas cor de laranja. A que chega a vida inútil das pessoas. E eu a lembrar-me do vagabundo nas escadas da estação de caminho de ferro arrumado a um canto como um objeto inútil, os sapatos rebentados que segurava nos pés com atacadores de ténis a envolvê-los, a manter a sola segura ao gaspeado. Não, não é neorrealismo. É a puta da vida atual desta civilização medíocre que nos calhou viver. Chegará o dia em que as pessoas andarão ao contrário, com as mãos no chão e os pés no ar, talvez por ser moda. Ou pela inutilidade das suas vidas. Como as botinhas do cão. Haja bom senso.