VIAJAR

IMG_8840Há um rumorejar de
folhas e ramos
brisa serena
trinado de pássaro
sob a sombra fresca
de uma acácia
Defronte tenho o mar
da cor das águas profundas
sigo um barco a navegar
rumo a um porto no mundo
Levanto-me da mesa do café
e faço a viagem a pé

António Garcia Barreto in “Lúcido Rumor”
(foto minha)

Fábula

foto-10Maria tinha um gato. Manuel tinha um cão. O gato não gostava do cão. Maria acusou Manuel de virar o cão contra o gato. O cão não gostava do gato. Manuel acusou Maria de acicatar o gato contra o cão. Passado tempo o cão morreu, mas não foi o gato que o matou. Meses depois morreu o gato, e, claro, não foi o cão que o matou.
Manuel e Maria voltaram a ser felizes.

Compra vantajosa

Hoje, por mero acaso, entrei num centro comercial onde na área central estava instalada uma feira do livro, igual a outras que se encontram, no verão, numa espécie de insufláveis junto às praias. Vendem restos de coleções a metade do preço, ou mais. Mas também lá encontrei livros acabados de sair, como o último do John Le Carré, e. g. É preciso escolher bem, pois também se encontram muitos monos. Comprei:

  • Mais Fados & Companhia“, de Vasco da Graça Moura (poeta, ensaísta, tradutor, gestor público) – por 5 euros (ainda intacto numa bolsa de celofane)
  • Felicidade na Austrália“, de Liberto Cruz (poeta, romancista, ensaísta) – por 2 euros
  • O Olimpo dos Desventurados“, de Yasmina Khadra (pseudónimo do escritor argelino Mohammed Moulessehoul, antigo oficial do exército, que usa o nome da mulher como pseudónimo, pois à época em que começou a escrever ainda era militar no activo. Tem vários títulos traduzidos em Portugal e editados pela Editorial Bizâncio) – por 3 euros
  • O Último Olhar de Manú Miranda“, de Orlando da Costa (escritor, copywriter, militante comunista, pai de António Costa, atual primeiro.ministro, e de Ricardo Costa, jornalista) – por 5 euros

Total: 15 euros. E uma manhã feliz. 🙂

Também fomos jovens

fantasia-casal-anos-60-branco-e-vermelhoTínhamos a paixão pelo hóquei em patins, pelo futebol e pelo râguebi. Éramos jovens e vivíamos em bando harmónico, que se abria e fechava em grupos mais pequenos para depois voltarmos ao bando, sempre que se justificasse. A paixão pelos carros juntava-nos na serra de Sintra para assistir, sobretudo, ao espetáculo dos Minis a comer as curvas sobre o piso de paralelepípedos. Gostávamos também de passar a tarde de domingo a jogar bilhar ou matraquilhos, a beber imperiais ou cafés, enquanto falávamos de namoros ou das raparigas que nos enlevavam. Eram conversas de tom geral, porque do namoro de cada um ninguém abria a boca. Era pessoal e intransmissível. Durante a semana estudávamos ou trabalhávamos, ou jogávamos nos dois tabuleiros consoante a necessidade das famílias. E havia os bailes ao som de bandas cujo nome se perdeu. As raparigas eram meigas e adultas antes de tempo, usavam uma fita a segurar os cabelos, eyeliner a sublinhar os olhos, rímel e batom. Até que um dia suou um toque de clarim que mobilizou os rapazes para a guerra. O bando desfez-se e nunca mais se reuniu. Ao fim de treze anos a guerra acabou e nada mais voltou a ser como dantes.

António Garcia Barreto (imagem da Internet)

A Malta3

“A malta são as crianças sem infância de uma época quase esquecida, decorrida entre o final da década de 40 e o 25 de Abril. Crianças, depois adolescentes e adultos, que do nada fizeram tudo, lutando e construindo o seu próprio futuro.”

Podem adquirir online na WOOK.