Exercícios literários

Entrei na igreja e disse para comigo, o que estás aqui a fazer? Não obtive resposta. Não sou bom a encontrar resposta para os meus problemas. Já os dos outros respondem-me melhor. Gosto de entrar naquela igreja seiscentista onde apenas ao domingo, durante a missa, conhece a presença de respeitáveis cidadãos e crentes, presumo, pertencentes à média burguesia de funcionários públicos reformados que habitam na vila. Gente que veio de um passado de forte expressão católica, muito medo disfarçado, e um quotidiano sem rasgos de imaginação. Porque não era bem visto ser audaz e imaginativo, a não ser em atos controlados pela doutrina oficial. Nos restantes dias da semana a igreja encontra-se fechada, ou, eventualmente, aberta, talvez para os santos e os anjos respirarem com naturalidade. Foi assim que, uma vez mais, entrei na igreja para usufruir de uns momentos de paz e meditação. Meditar na minha vida, do que fiz dela e do que poderei ainda vir a fazer. Não rezo. Não sei rezar, salvo o Pai Nosso e as Ave-Marias que aprendi numas vagas aulas de catequese a que me furtei com habilidade e sem remorsos. Não sou anticlerical. Não tenho tempo para isso. Entro aqui, neste imenso claustro, sento-me, olho em redor e sinto-me em paz. Já outros me confirmaram sentirem o mesmo em situações idênticas. É lá com eles. Comigo é apenas um retiro espiritual para robustecer a alma (e esta palavra já encerra alguma religiosidade) e enfrentar os dias em que nem sempre o sol se descobre no meu peito. 

© António Garcia Barreto