As botinhas do cão

A burguesa passeava o cão que calçava botinhas cor de laranja. A que chega a vida inútil das pessoas. E eu a lembrar-me do vagabundo nas escadas da estação de caminho de ferro arrumado a um canto como um objeto inútil, os sapatos rebentados que segurava nos pés com atacadores de ténis a envolvê-los, a manter a sola segura ao gaspeado. Não, não é neorrealismo. É a puta da vida atual desta civilização medíocre que nos calhou viver. Chegará o dia em que as pessoas andarão ao contrário, com as mãos no chão e os pés no ar, talvez por ser moda. Ou pela inutilidade das suas vidas. Como as botinhas do cão. Haja bom senso.