Cartas de Amor (2)

(continuação)

Em resultado destes factos, ou talvez não, acabou por assentar banca, permanente, sob o plátano centenário, deixando de procurar pelas aldeias os corações apaixonados que pretendiam os seus serviços de caneta, papel e alma. Tudo acondicionado em sobrescritos de cor azul ou rosa, consoante a tradição e o encomendador exigiam. Agora, quem necessitasse de uma carta de amor escrita a preceito, procurava-o sob o plátano e ditava as linhas-mestras da missiva. De imediato Camilo Kappa elaborava a carta com uma eficácia desarmante. Em seguida, lia-a ou dava-a a ler e, se preciso fosse, era também ele que a expedia no posto de correios da localidade. Sempre em Correio Expresso ou outra forma prioritária, que o amor é impaciente, esclarecia. E nesse aspeto mostrava-se atualizado.
As cartas de amor que Camilo Kappa escrevia tinham o dom ou a arte de unir os namorados para o resto da vida, felizes, como nos contos de fadas. Talvez por isso as mães recomendassem às filhas apaixonadas que, pelo menos uma vez, passassem pela banca de Camilo e lhe pedissem para escrever uma carta para os namorados. E as mães de rapazes casadoiros mandavam dizer o mesmo por interposta pessoa. Estava em causa a felicidade dos filhos. Realmente dava gosto ler uma carta, qualquer que fosse o modelo, escrita por Camilo Kappa. Não era só o sentimento que as habitava, belo e estranhamente perfumado, mas também a ternura, alguma malícia, a felicidade em tons de azul e oiro. A própria letra com que as cartas eram escritas era tão bela, que só podia sair das mãos de um calígrafo de coração apaixonado. Pelo menos, era o que afirmavam os mais acérrimos defensores das cartas de amor escritas por Camilo Kappa.

(continua e termina na próxima postagem)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013