Cartas de amor (1)

Contemporânea Editora. Edição esgotada
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Camilo Kappa era escritor. Um escritor de cartas de amor. Sentava-se todas as tardes debaixo de um plátano centenário, no largo do mercado da aldeia, com uma escrivaninha improvisada e uma grande placidez no olhar. Na sua frente o material de escrita: uma caneta de tinta permanente, um bloco de folhas de papel e alguns modelos de cartas para auxiliar a escolha do cliente. Um dia perguntaram-lhe por que usava caneta de tinta permanente numa época em que as esferográficas dominavam o mercado. Explicou que uma carta de amor tinha de ser escrita com uma caneta nobre, porque o amor merecia-o. Ninguém mais se atreveu a fazer-lhe a mesma pergunta. De início, outros prestadores de serviços ambulantes, oferecendo-se para plastificar cartões ou preencher impressos oficiais, montaram banca ao lado de Camilo Kappa. Mas este depressa os abandonou e preferiu o lugar solitário debaixo do plátano, pretextando que escrever uma carta de amor exigia solidão.
Às duas da tarde, nos dias amenos, Camilo Kappa abria o escritório. Sentava-se num banquinho de lona aguardando pela chegada dos clientes. O seu olhar neutro e uma pose simpática, embora distante, agradava à clientela. Afinal, uma carta de amor exige discrição e Camilo Kappa aparentava-a. Há muitos anos que escrever cartas de amor era a sua profissão. E também a sua forma de contribuir para a felicidade do mundo. Viajara de aldeia em aldeia aproveitando os dias de mercado para escrever as cartas que as raparigas e os rapazes lhe solicitavam, a troco de uma gratificação deixada ao livre arbítrio do encomendador. Nos últimos anos, porém, registara-se um acentuado decréscimo de interessados em cartas de amor. Camilo Kappa andava triste, não só por ver diminuir o seu já parco rendimento, mas porque escrever cartas de amor era parte fundamental da sua vida. As cartas de amor alimentavam-lhe o estômago e a alma. Um desses dias confessou mesmo a uma cliente que as pessoas aparentavam ter cada vez mais estômago e menos alma. Por isso não escreviam cartas de amor. Houve quem tentasse fazê-lo compreender que actualmente existiam outras, muitas e diversas solicitações à nossa volta. Que o mundo da informação globalizou os sonhos e os gestos, que as pessoas namoravam à velocidade de bytes por segundo através da Internet, por e-mail e telemóvel. Já ninguém falava do seu amor por carta, preferindo praticá-lo nas suas diversas vertentes e ensejos. E sorriam perante o seu olhar apagado e distante. Um professor com quem às vezes bebia um copo no bar do mercado, confessou-lhe que o pragmatismo invadira o mundo. Os sonhos eram moldados pelos programas de televisão e o amor transformara-se num jogo com vencidos e vencedores. Camilo Kappa encarava as pessoas e as suas opiniões sem lhes dar muito crédito. Respondia-lhes que os sonhos tinham sete fôlegos, como os gatos, não sendo fácil reduzi-los a estereótipos. O amor trocado através de cartas ficava registado não só no coração, mas também em suporte de papel, para mais tarde recordar. Rematava que não se pode reduzir o amor e a vida a escassos momento de ventura física.

(continua)

António Garcia Barreto inContos do Amor Breve“, Amazon.com, Charleston, SC, 2013