Lourenço Marques (trecho)

ALGUÉM DEVIA ESTAR NO MEIO DAS NUVENS, SIM, PORQUE, de repente, quando se voltou, obrigando o pescoço a fazer o que há pouco parecia impossível, olhar para o lado, viu ainda uma sombra. Há minutos doía-lhe o pescoço, doíam-lhe as pernas, sentia o suor descer da testa para o rosto sem poder levantar as mãos para o limpar. Gotas salgadas de suor, suor sujo, suor com poeira, sal, a língua molha os lábios e lambe as gotas de suor. Depois, deixou de sentir fosse o que fosse, havia alguém que se movia no quarto e falava, mas ele não ouvia, talvez tivesse os ouvidos sujos de poeira, lembrou-se de repente da nuvem de poeira que o jipe levantava ao longo da estrada, do calor da tarde, da ramagem das árvores, mas logo deixou de perceber se estava deitado numa cama ou se ainda guiava o carro pela estrada fora, qualquer coisa lhe martelava a cabeça, qualquer coisa, qualquer voz, até que deixou de sentir fosse o que fosse (…)

Francisco José Viegas in “Lourenço Marques”, 3.ª ed., ASA, Porto, 2003