Bombaim

“A Bombaim contávamos chegar na noite seguinte. Chegar a meio da noite a uma cidade que não se conhece pode torná-la mais estranha ainda. As primeiras pessoas avistadas, as primeiras palavras ouvidas, o ar leve ou pesado, a brisa, caso a haja, carregada de ruídos próximos ou longínquos, que não se sabe de onde vêm e intrigam mais por isso, tudo adquire uma importância inusual. Num misto de curiosidade e de cansaço, adivinho em vez de ver, a fadiga alerta-me os sentidos, os ouvidos tornam-se mais atentos, as narinas mais sensíveis, reparo melhor em cada ser, em cada som ou cheiro, sem saber se fico mais consciente de mim mesmo ou se o espírito do lugar toma conta de mim e me dissolvo nele.”

Almeida Faria in “O Murmúrio do Mundo“, 3.ª ed., Tinta da China, Lisboa, 2012