“Deixo sempre alguém fora de mim”

(Decidi partir para Portugal, fui despedir-me
da autoridade local que ficou pasmada. Quando
cheguei a Kristiansund tinha-me esquecido de
ir cumprimentá-la.)

josegomesferreira

Deixo sempre alguém fora de mim em mim
no lugar de onde parto
flor que a si mesma se corta no jardim,
olhos pegados no espelho,
sempre a ver-me jovem na cama do quarto.

E a mão direita? Onde deixei essa mão?
Nos teus seios, talvez. Ou na melodia escandinava
em que a vizinha do 2.º andar, deitada ao comprido
no chão,
tentava ouvir o próprio coração
no piano em que eu tocava
– ponte sem sentido
de solidão para solidão
num espelho partido.

José Gomes Ferreira in “Poesia VI”, 2.ª ed., Diabril, Lisboa, 1976
(O poema refere-se ao breve tempo em que José Gomes Ferreira foi cônsul em Kristiansund, na Noruega, e ao seu alheamento poético. Ou andar sempre nas nuvens…)