O Rio Triste

Fernando-NamoraNo dia 14 de Novembro de 1965, nesta cidade de Lisboa, um homem saiu cedo de casa e já não voltou. Nesse dia e nos que se seguiram. Também não o viram mais no emprego. Chamava-se ou chama-se (pois há quem pense que o caso não foi suficientemente deslindado), Rodrigo dos Santos Abrantes. Um nome vulgar se exceptuarmos talvez o Rodrigo, e por isso mesmo detestado pelo próprio, que, como se verá mais adiante, projectara mudá-lo para Rodrigo Macieira – as razões também as saberemos a seu tempo.
Vale a pena esmiuçar, e sobretudo fantasiar (já que as pistas concretas de que dispomos não nos levariam longe), as circunstâncias em que se deu esse desaparecimento. Rodrigo, após o pequeno-almoço, tomado como sempre sob a ressaca do maldito despertador, isto é, num silêncio amuado e gestos irritadiços, espreitou os ares pela janela das traseiras, logo deduzindo que a friagem recomendava que se precavesse com a gabardina (…)

O Rio Triste” (abertura), Fernando Namora, Círculo de Leitores, Lisboa, 1983 (edição de 15.000 exemplares)

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