O bife

Naquela família modesta, de operário e costureira, com dois filhos, a vida corria ao sabor do dinheiro que entrava em casa. Do dinheiro e do vinho. Explico-me: o dinheiro não abundava, às vezes faltava mesmo, e, nessa ocasião, entrava o vinho.
O vinho até entrava de modo engraçado, sempre pela boca e comportamento de Jesualdo, pai e marido, bom homem a quem faltara o carinho de mãe na idade em que ele faz sempre falta. Jesualdo, nos dias mais ingratos, em que a vida lhe corria mal, metia-se nos copos com os amigos e transformava-se, bebesse pouco ou bebesse muito. Se bebia pouco, azedava, ficava atravessado com a bebida, arranjando complicações por tudo e por nada; se bebia muito dava-lhe para o sentimento e chorava sem saber por quê, junto da mulher e dos filhos. Benilde gostava mais desta fase, mas não era ela que mexia os cordelinhos do comportamento do marido. Jesualdo ficava num estado emocional frágil, que um café e uma noite de sono regenerava.
Piores eram os dias em que chegava a casa de olhar fustigador implicando com Benilde e com os filhos a propósito de coisas sem razão, de que só um bêbado se lembra. Foi o que aconteceu naquele dia de verão, ao jantar. Jesualdo entrara em casa a implicar com a mulher por causa de uma camisa mal passada. Depois calou-se, sentando-se à mesa. O jantar, por sinal, ou capricho de Benilde, era um luxo para época: bife com batatas fritas.
— Este bife é rijo! —vociferou com o olhar vermelho, a prometer borrasca.
— Pedi no talho que arranjassem bifes tenros por causa dos meninos — justificou-se Benilde, perante o alheamento das crianças, felizes pelo manjar tão raro em dias de semana.
— Este bife é rijo! — tornou Jesualdo, levantando-se e abrindo a janela da cozinha que dava para um descampado. Pegou no prato com o bife e as batatas fritas e atirou-o pela janela.
Vestiu o casaco e voltou para a taberna. Benilde não chorou. Apenas encolheu os ombros, depois sentou-se à mesa a jantar com os filhos. As crianças comeram tudo. No final, foram à janela ver onde tinha ido parar o prato com o bife e as batatas fritas que o pai atirara pela janela fora.
— O bife era bem bom, mãe — disse uma das crianças. O irmão concordou. A mãe sorriu.

António Garcia Barreto in “Contos Curtos”