A Malta da Rua dos Plátanos

94678930_965262513943744_4601711824465821696_oA propósito do dia 25 de Abril, excerto do romance “A Malta da Rua dos Plátanos“, de António Garcia Barreto, publicado pela Book Cover Editora.
O relato da “malta”. Memórias do antes e depois de uma data que marcou gerações. A vida como ela era. A vida como se tornou. A ler e reler.

“Rompeu a manhã por entre uma malha de feixes dourados a trespassar as folhas dos plátanos, que tremeluziam embaladas por uma ténue aragem. Um chilreio de pardais na copa das árvores era a sinfonia da rua. O sol procurava infiltrar-se nas ruas húmidas, nos becos mais esconsos, batendo às janelas a acordar os moradores para esse dia que se adivinhava maravilhoso. Sabia bem respirar a aragem tépida daquela manhã de Primavera. Um homem caminhava a passo largo levando nos braços um bebé, para decerto o entregar em casa da ama ou de algum familiar. Na paragem do autocarro uma fila de pessoas aguardava pelo transporte que as levaria ao local de trabalho. Um grupo de crianças dirigia-se para a escola em grande algazarra. Alzira saiu de casa para adquirir o pão fresco da fornada da manhã. O marido, que se encontrava ligeiramente melhor da doença que o minava, abalara para a fábrica uma hora antes, o mesmo acontecendo com Mário. Raramente tomavam o pequeno-almoço. Às vezes, apenas uma chávena de café. Pegavam muito cedo ao serviço. Alzira, mal reparando nas pequenas alegrias da vida, notou nessa manhã que pairava no ar algo de difícil interpretação, uma novidade por esclarecer. Olhou à sua volta procurando uma razão para o sentimento inexplicável que a envolvia. Nas janelas e em algumas varandas, mulheres ainda com restos de sono perscrutavam a manhã à procura de qualquer coisa que não sabiam bem o que poderia ser. Não era usual a hora tão matutina. Estranhou não ver idêntica atitude em nenhuma das vizinhas mais chegadas. Enfiou-se no padeiro,meio curiosa, culpando-se por não ter dormido bem a noite. O coração apoquentava-a. No interior da padaria duas habituais freguesas daquela hora, além da padeira que as atendia, pareciam desejosas de revelar um segredo que as três comungavam. Uma notícia circulava de boca em boca, num sussurro temeroso, como se aguardassem por alguém ou por alguma coisa que confirmasse a sua veracidade. Uma das mulheres virou-se para Alzira:
– Ouviu a rádio, vizinha? Parece que ouve um golpe de Estado, ou lá como se chama isso.
As duas outras mulheres aquiesceram com um sim mudo ao olhar interrogador da mãe de Mário.
– Um golpe de Estado? Uma revolta militar como aquelas que havia antigamente? As outras encolheram os ombros. A padeira, que se levantava muito cedo, tinha sempre com ela um pequeno rádio transístor que lhe servia de companhia enquanto não chegavam os primeiros fregueses. Esclareceu:
– Estão a ler uns comunicados e no meio põem canções e música. Não se ouve mais nada. De tempos a tempos voltam a ler o comunicado e logo a seguir tornam as canções.
Alzira enervou-se. Sempre tudo tão sossegado e agora, sem ninguém esperar, aquilo. Ficou sem saber como agir. Ainda se tivesse o marido junto de si, ou algum dos filhos, talvez eles soubessem de alguma coisa. Era natural que António tivesse ouvido falar, na fábrica, da preparação de alguma revolta. Os homens é que sabiam dessas coisas das guerras e das revoluções. Por isso iam à tropa. O combate das mulheres era entre tachos e panelas, a coser meias, a limpar a casa, a cuidar dos filhos. Pegou no saco do pão e disse «até logo», dirigindo-se para casa com a intenção de sintonizar a telefonia. Na Rua dos Plátanos e nas limítrofes engrossava o caudal de populares. A vida parecia ter parado para que algo se revelasse. A última vez que vira tanta gente junta na rua foi quando se dera o último tremor de terra. Desta vez as pessoas aparentavam calma. Formavam-se pequenos grupos, a conversar. Pouco depois algumas crianças regressavam da escola encantadas por não haver aulas. Um rapaz mais espigado repetiu em voz alta o que ouvira dizer no colégio:
– Há tropas em Lisboa com tanques e espingardas a sério. Dizem que é uma revolução.
Alzira cruzou-se com a tia Joana e as vizinhas Amélia e Josefa, delas transparecendo surpresa idêntica à sua.
– Na rádio estão a pedir para as pessoas se manterem em casa. Acho que são militares revoltosos que invadiram a cidade de Lisboa. Estão por todo o lado – contou a tia Joana. – Comentava-se o mesmo ali na padaria.
Uma outra vizinha, cujo marido trabalhava por turnos e chegara agora a casa, garantia que a capital transbordava de tropas. O Quartel da GNR, no Largo do Carmo, estava cercado por tanques e populares. O primeiro pensamento de Alzira foi para os seus:
– O meu marido e o Mário foram para o trabalho. Do Alfredinho não sei nada. Se calhar anda por lá também. Valha-me Deus!
Despediu-se das vizinhas dirigindo-se para casa com a intenção de ouvir a rádio ou ligar a televisão. Aos poucos foram-se conhecendo mais pormenores dos acontecimentos na capital. A rádio continuava a transmitir comunicados de um designado Movimento das Forças Armadas, sempre intercalados com música. Os comboios iam trazendo pessoas que relatavam os acontecimentos à sua maneira. Sim, havia um levantamento militar, as tropas invadiram a Baixa da cidade de Lisboa e concentravam-se também noutros locais da cidade, comentavam os recém-chegados.
– Não há transportes em Lisboa. Houve uma revolta e o Marcelo Caetano está cercado no Quartel do Carmo.
– Em Lisboa a tropa está por todo o lado e o povo acompanha-a – sublinhava um desconhecido.
– Os estabelecimentos estão encerrados e as pessoas seguem os acontecimentos empoleiradas nas árvores do Largo do Carmo. – Ninguém arreda pé.
Outro punha-se a descrever, com ênfase, o que presenciara, como se fosse um herói ou uma personagem a representar num palco, conseguindo atrair gente para escutar as suas palavras. Alzira introduziu a chave na fechadura da porta de casa. Sem o esperar deu de caras com o marido. Apareceu-lhe com o ouvido colado ao transístor de bolso. Ficou admirada por vê-lo ali.
– Sempre é verdade o que se diz por aí?
– Deixa-me ouvir – interrompeu-a com bons modos.
«AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS. CONFORME TEM SIDO TRANSMITIDO, AS FORÇAS ARMADAS DESENCADEARAM NA MADRUGADA DE HOJE UMA SÉRIE DE AÇÕES COM VISTA À LIBERTAÇÃO DO PAÍS DO REGIME QUE HÁ LONGO TEMPO O DOMINA… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … CONSCIENTE DE QUE INTERPRETA OS VERDADEIROS SENTIMENTOS DA NAÇÃO, O MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS PROSSEGUIRÁ NA SUA AÇÃO LIBERTADORA E PEDE À POPULAÇÃO QUE SE MANTENHA CALMA E QUE RECOLHA ÀS SUAS RESIDÊNCIAS. VIVA PORTUGAL!»
O comunicado fora lido pausadamente, com uma voz firme e suave, de quem acredita no que está a fazer. Era a voz da revolução em marcha. A situação estava esclarecida. Finda a leitura, uma canção inundou o espaço.
«Grân-do-la Vi-la More-e-e-na
O povo-é quem mais or-de-e-e-na…»

Autor: António Garcia Barreto

Um tipo à procura de palavras para escrever frases que falem de coisas inúteis.