Rubem Fonseca, RIP

Nunca pensei que um dia me pediriam para matar uma pessoa, mas isso aconteceu ontem. Até dois dias atrás eu alugava um cubículo num sobrado velho no centro da cidade, mas fui despejado de lá. Agora estou aqui na estação rodoviária, sentado num banco, fingindo que espero um ónibus.
Meu cubículo era um canto da sala onde os inquilinos viam televisão, isolado por um tabique de madeira envernizada de pouco mais de dois metros de altura; o pé direito da sala devia ter mais de quatro metros; um espaço grande entre o tabique e o tecto permitia a entrada de ar mas também tornava possível a alguém, trepado numa cadeira, me espiar dormindo na cama estreita. Eu tinha horror que me observassem dormindo. Ao deitar, quando sentia uma coceira no rosto, sinal de que o sono estava chegando, eu cobria a minha cabeça com o lençol.

Rubem Fonseca in “O Buraco na Parede”, Campo das Letras, Porto, 1996

 

Autor: António Garcia Barreto

Um tipo à procura de palavras para escrever frases que falem de coisas inúteis.