Luis Sepúlveda, RIP

O céu era um inchada barriga de burro, pendendo ameaçadora a escassos palmos das cabeças. O vento morno e pegajoso varria algumas folhas soltas e sacudia com violência as bananeiras raquíticas que ornamentavam a frontaria da administração da circunscrição.
Os poucos habitantes de El Idilio, mais um punhado de aventureiros chegados das redondezas, estavam reunidos no cais, esperando a vez de se sentar na cadeira portátil do doutor Rubicundo Loachamín, o dentista, que aliviava as dores dos seus pacientes graças a uma curiosa espécie de anestesia oral.
– Dói-te? – perguntava ele.
Os pacientes, aferrados aos braços da cadeira, respondiam abrindo desmesuradamente os olhos e a suar em bica.
Alguns pretendiam retirar das respetivas bocas as mãos insolentes do dentista e responder-lhe insultando-o como ele merecia, mas as suas intenções esbarravam nos braços fortes e na voz autoritária do odontologista
– Quieto, carago! (…)

Luis Sepúlveda, “O Velho Que Lia Romances de Amor”, 8.ª ed., Edições ASA, Porto, 1996