A livraria

A3ED0984-5127-44AC-B220-15FB73F0FFF8Passei quase cinco anos da minha juventude a trabalhar numa grande livraria do Chiado. Grande, de ocupar todo um prédio de três andares. Fui para lá, a meu pedido, depois de ter reprovado um ano. Estava um pouco cansado da escola. A verdade é que a situação se conjugou com outra semelhante: a minha mãe conhecia a mulher do gerente e o filho deles também tinha reprovado nesse ano. Éramos da mesma idade e cábulas.
Eu gostava de livros, lia tudo o que me caía nas mãos. Além de revistas de histórias aos quadradinhos, como o Cavaleiro Andante, jornais infantis e revistas com mulheres nuas, de procedência desconhecida. Lembro-me que nas duas primeiras semanas me foi dado como tarefa única, percorrer, de pescoço no ar, todas as secções da livraria, do rés-do-chão ao último andar, familiarizando-me com títulos, tipos de livros e lugares de arrumação. Só para terem uma ideia, havia secções tão díspares como medicina e direito; desporto e viagens; agricultura e livros infantis; literatura e engenharia; arte e livros estrangeiros; história e livros escolares, além de secções de revistas nacionais e estrangeiras.
Ao fim dessas duas semanas, não conseguia baixar o pescoço. Aquilo era um castigo. Por ter reprovado? Ou porque o trabalho castigava? Estive quase para bater em retirada, saindo pela porta dos fundos, sem me justificar. Mas eu gostava de livros, do cheiro do papel impresso, e da possibilidade e surpresa de descobrir mundos sempre que abria um livro. E adorava aquelas revistas estrangeiras que me davam a conhecer outras realidades. Não sendo despiciendo para o meu interesse de adolescente as fotografias, a cores, de atrizes de cinema, em biquini, que a minha imaginação logo despia totalmente. Passado esse primeiro tempo de pescoço no ar foi-me dada a possibilidade de atender clientes, ao lado dos empregados seniores. Aprendi com eles a ser livreiro. Aprendi com eles a ser um homem. Aí comecei a ter um contacto ainda mais de perto com os livros, sendo incentivado pelos encarregados de sala, a levar livros para ler em casa, retornando-os depois. A meu favor, havia ainda as ofertas dos vendedores das editoras, sempre disponíveis para oferecer livros acabados de publicar, novidade nos escaparates. Formei uma pequena biblioteca pessoal. Conheci, assim, pela leitura, os autores portugueses mais representativos da época, bem como os clássicos, sobretudo Eça e Camilo. Conheci-os pela leitura dos seus livros e pelo convívio com alguns deles, frequentadores quase diários da livraria, reunindo-se a meio da tarde em tertúlias político-literárias. Lembro-me de Aquilino Ribeiro, já no final da vida; Fernando Namora, fumador inveterado de cigarros Aviz; Urbano Tavares Rodrigues, elegante e educado; o poeta e sedutor David Mourão-Ferreira; o poeta e médico Armindo Rodrigues; Amândio César, um homem do regime; e gente do teatro como Eduardo Damas, entre outros. É claro que devorei também livros de autores estrangeiros: John Steinbeck, Hemingway, Somerset Maugham, Tolstoi, Gogol, Jorge Amado, que sei eu?
À livraria não faltavam clientes assíduos (e outros sazonais ou de acaso). Eram médicos, juristas, professores, artistas, literatos, jornalistas, estudantes universitários, procurando livros da sua área profissional, bem como literatura em geral. Pessoas menos dadas a leituras não se coibiam de entrar na livraria e pedir a um empregado que lhe recomendasse um livro: romance, livro de contos, de poesia, livro para crianças, destinado a oferta. O empregado da secção respectiva sabia recomendar e sugerir vários títulos.
Aquele trabalho acabou por agradar-me, até porque me pagavam um salário. A escola ficou para trás e só mais tarde a recuperei. Havia também momentos problemáticos. A saída de um livro cujo autor estivesse arrolado no índex da censura. Sabíamos que o mais certo era o livro vir a ser apreendido pela PIDE. Aí originava-se uma correria até à editora para trazer os livros, disfarçadamente, e escondê-los no fundo das tulhas de papel velho. Servíamos assim clientes habituais, opositores do regime. É claro que deixávamos expostos dois ou três exemplares, para a polícia levantar um auto e recolher os livros, satisfeita pelo dever cumprido. Mas enganados.
Em épocas de contestação estudantil, não eram raras as perseguições aos estudantes levadas a cabo pelo capitão Maltez, à frente dos seus guarda-republicanos, de Mauser aperrada. Os estudantes escondiam-se onde podiam, nas escadas, nas lojas, nos armazéns, nos cafés, e na livraria. O capitão, empunhando o seu pingalim, nunca passou da porta. Não é que não lhe apetecesse prender dois ou três estudantes. Mas suponho que ele tinha medo dos livros. Já a minha avó dizia que a leitura fazia dores de cabeça.

© António Garcia Barreto