Este samba no escuro

Raquel RibeiroQuem entra em Havana pelo oriente sabe que, no recorte do horizonte, as luzes da cidade vão surgir austeras atrás do morro. O Capitólio e o amarelo da cúpula. O azul quase eléctrico do Habana Libre. O verde triangular do Focsa. E uma miríade de pontos a costurar a cidade. Álvaro estava atento, no topo do camião a céu aberto, tiritando até às entranhas com a humidade da noite, à espera de que ela aparecesse como um espectro, adiante, onde o olhar alcançava. Não coçava a orelha quando a comichão assanhava, não cerrava os olhos quando o vento feria, calara a boca há várias horas quando soube que Havana estava perto e que, a partir de então, tudo o que dissesse podia ser usado contra si – mesmo o anunciado espanto boquiaberto quando a vista do Capitólio o arrebatasse.

Raquel Ribeiro in “este samba no escuro” (trecho), Tinta-da-China, Lisboa, 2013