Detetive Eneias Trindade

Feitas as abluções matinais, vesti um fato de tecido leve, escolhi um chapéu de tom claro e saí de casa disposto a tomar o pequeno-almoço na leitaria Mimosa. Café com leite e uma torrada bem coberta de manteiga, a que o meu compadre Artur acrescenta duas colherzinhas de doce de gila, para deixá-la com um sabor peculiar. A felicidade pode ser um instante assim.
Na leitaria, as mesas estavam quase todas ocupadas pelos clientes habituais. Um jornal, em cima da mesa, apertado na régua de madeira, esperava que alguém decidisse pegar-lhe. Ler o Heraldo de Lisboa é uma das minhas rotinas diárias mal saio à rua, antes de ir para o escritório. Através da montra aprofundei o contacto com o movimento da cidade. Lisboa encanta-me mesmo quando a realidade que nela se vive me desencanta. Sou sensível aos seus cheiros e à sua luz, aos pregões e à maresia que, em dias de brisa, sobe do Tejo. Funcionários de rosto inexpressivo dirigiam-se para os bancos e repartições públicas, num ritmo de passada imposto pela rotina. O pregão de um ardina ecoou dentro da leitaria. Era uma voz de criança enrouquecida pelo excesso de uso e pela friagem das madrugadas à porta das oficinas gráficas. Logo a seguir, chegou-me o chiar do rodado de um elétrico da Carris. Buzinadelas e outros sons difíceis de interpretar completavam a melodia desse início de manhã. A cidade saudava o dia luminoso. Dia de Verão, a prometer canícula lá mais para a tarde. Decidi pegar no Heraldo com a ponta dos dedos, como se fosse um bicho sarnento. Interessava-me, sobretudo, a página dos Sports com o comentário dos jogos de futebol desse domingo. Em destaque aludia-se à vitória de José Maria Nicolau no tradicional Porto – Lisboa, em ciclismo, nesse ano de 1935, repetindo a proeza do ano anterior. Folheei mais umas páginas. As notícias nem sempre me enlevam e receei toldar ainda mais o humor desastrado com que acordara. No canto superior direito da primeira página, uma reportagem com um título em letras capitulares, noticiava A estranha morte do professor Cartago. Desconhecia quem fosse. Pareceu-me nome de prestidigitador. Imaginei-me no Coliseu assistindo a um espetáculo de circo, ouvindo o mestre-de-cerimónias anunciar: O grande ilusionista, Professor Cartago, oferece-nos as suas magias e ilusões. Palmas, por favor! Enfim, se o fulano tinha falecido as palmas eram abusivas. O melhor era rezar-lhe pela alma.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras”, 3.º romance da série Detetive Eneias Trindade, registado no IGAC