Vida simples, mas sem futuro

Hora de almoço. Íamos os três almoçar à Casa do Poeta, que não tinha nada de poesia, salvo se poesia rimasse com gastronomia. O restaurante herdara o nome de um antigo café de bairro. Nesse dia almoçámos cabeça de garoupa, a três. O grande entusiasta das cabeças de peixe era o Francisco. Gonçalo preferia bifes, mas não reclamava. Estava sempre de acordo com os outros. Eu também gostava de cabeças de garoupa, mas o Francisco abusava. De vez em quando, impunha a minha vontade e comíamos feijoada, ou bacalhau à Gomes de Sá.
Depois do café regressámos ao escritório, ainda em hora de almoço. Íamos para a janela fumar e seguir as evoluções dos barcos no rio, céu claro e dia luminoso para fazer inveja aos estrangeiros que nos visitavam. Colegas e amigos, fora do emprego discutíamos política em voz baixa, jogos de meias palavras, líamos à socapa jornais da oposição, ouvíamos baladas dos cantores de intervenção: José Afonso, Fausto, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira. O 25 de Abril ainda não se anunciava no horizonte.
O verão estava no auge, o calor secava a vontade e amodorrava os corpos. Apetecia fechar os olhos e adormecer sentados à secretária. Trabalhávamos num escritório comercial com diversas salas contíguas. Algumas raparigas de sabrinas nos pés e cabelo apanhado por uma fita preta, com vestidos às bolinhas, trauteavam, em surdina, canções em voga enquanto atualizavam em máquinas mecanográficas de cartões perfurados as contas correntes dos clientes. Pareciam-me um pouco démodés. Aqueles vestidos às bolinhas e o cabelo apanhado por uma fita vinham lá de trás, dos anos 50/60. Mas deixavam-nas cintilantes, frescas e insinuantes. Alimentavam a minha líbido. Fugiam ao padrão feminino instalado em mães e avós: donas de casa. Recebiam salário, eram atrevidas, independentes, davam troco às nossas palavras. Riam muito umas com as outras. E riam-se de nós, os homens novos. Dos mais velhos também riam, mas por razões diferentes. Confrontávamos o riso delas com o nosso riso. Havia jogos de sedução no ar. Vida simples, mas sem futuro.

António Garcia Barreto in “A menina Eva e outras estórias de vizinhança”

Autor: António Garcia Barreto

Um tipo à procura de palavras para escrever frases que falem de coisas inúteis.