A cena

Carlos sentado frente à televisão via um filme de vampiros. No intervalo, entre a miscelânea publicitária, saltou do écran uma mulher escultural, sentando-se no sofá, a seu lado. Carlos enfrentou a surpresa com um olhar lascivo.
— Estás sozinho?
— A minha mulher está deitada.
— Ainda bem — disse a diva, lambuzando-o com um olhar voluptuoso.
— Aqui pode ser perigoso — contrapôs Carlos, indeciso no desenlace.
— Não é nada — volveu ela, enlaçando-o, e ferrando-lhe os caninos na jugular.
— Ah!… — gritou ele de dor, antes de ser atirado ao chão.
Ao ouvir o grito, a mulher saiu do quarto.
— O que foi?
— Não sei. Deve ter sido um pesadelo.
— E esse fio de sangue a escorrer pelo pescoço?
— Talvez fosse uma melga.
— Sim, uma melga gigante — disse a mulher, sorrindo, mostrando uns caninos proeminentes.

António Garcia Barreto in “A Menina Eva e Outras Estórias de Vizinhança”

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