Cabeça de Tuba

AcaciasV_300O tenente Coutinho parecia talhado para carranca de brigue. Ou por isso, ou pela fisionomia larga e algo bronca, o certo é que era mais conhecido por Cabeça de Tuba. Um Adamastor sem brilho e sem história que as vicissitudes da vida haviam transformado em oficial menor de um exército moribundo, na véspera de uma retirada definitiva. A bizarria do seu porte e a eficácia do seu gesto assumiam o valor de um arcabuz na guerra moderna. Contava-se que conseguira os galões após vinte anos de tarimba, almoçando feijão com massa em messes fedendo gorduras, remoendo desditas e decorando o código de disciplina militar, vírgula a vírgula, num esforço de meninges assolapadas. Teriam sido anos difíceis, os dessa ascensão lenta mas perseverante, marcando passo ao som de clarins roufenhos tocados por músicos de banda filarmónica desviados da função. Anos a receber ordens sobranceiras de superiores atacados por crises de bílis que sonhavam com campanhas napoleónicas no decurso de digestões difíceis. A seguir a tanto esforço castrense obteve a recompensa de ser subalterno. Isto numa idade em que outros ou eram generais ou já tinham mudado de vida. Era natural que se sentisse oficial de segunda linha, suportando a pedra no sapato, mas não. Pavoneava os galões com o orgulho tosco de quem chegou no fim da jornada e recebeu um prémio de consolação. Mas isso era o menos. O pior é que era um tremendo chato, um manipulador de ódios, fomentando complicações onde só existiam pequenas falhas humanas, destruindo prazeres em nome de um conceito muito próprio de «dever e serviço».

António Garcia Barreto in “À Sombra das Acácias Vermelhas“, Roma Editora, Lisboa

Autor: António Garcia Barreto

Um tipo à procura de palavras para escrever frases que falem de coisas inúteis.