A perna

Um homem sentado num banco de jardim com um ar visivelmente cansado, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça enfiada entre as mãos, soltou um prolongado suspiro. Uma mulher que acabara de se sentar na outra extremidade do banco, sem que ele desse por isso, olhou-o de forma perscrutadora. Parecia querer adivinhar-lhe as narrações da alma.
— Sente-se bem? — perguntou com uma amabilidade impositiva.
Ele pareceu acordar da sua dor.
— Esta maldita perna não me dá descanso.
— Precisa de ajuda?
O homem sorriu. Um sorriso doloroso. Levantou a calça até ao joelho e desmontou a perna artificial, que lhe magoava o coto.
— Eu cá me arranjo — acabou por responder.

António Garcia Barreto, “A Menina Eva e Outras Estórias de Vizinhança”