O Menino

O que o Menino gostava era da aventura de viajar de comboio até à terra dos avós. Todos os anos pelas férias grandes. Uma aventura como aquelas que lia nos livros onde aprendera a soletrar ainda antes de ir para a escola. Uma viagem que demorava horas embalado pelo ligeiro solavanco da carruagem a deslizar sobre os carris, o som do apito da máquina a vapor varando o espaço, aviso da sua circulação junto a passagens de nível ou na curva dos caminhos. Cheirava a fumo largado pela chaminé da locomotiva, uma nuvem de um branco-cinza, resultado da queima do carvão na fornalha da máquina aquecendo a água da caldeira produzindo a pressão do vapor que fazia a locomotiva puxar as carruagens. Tudo isso lhe ensinara o avô, antigo maquinista dos caminhos de ferro.
Gostava daqueles minutos de paragem nas estações principais onde umas mulheres se aproximavam das janelas para vender pequenas bilhas de água fresca, pastéis de feijão, arrufadas e, às vezes, cachos de uvas. O Menino tinha sempre vontade de beber água, comer um pastel de feijão ou uma arrufada, e um galho de uvas. A viagem continuava com a paisagem a fugir do vidro da janela pela esquerda alta.

(agb)