A Malta da Rua dos Plátanos – abertura

MaltaPlátanosAs primeiras casas de alvenaria, de um só piso, modestas na sua cor branca e frisos azuis, foram erguidas em meados dos anos trinta do séc. XX. A rua foi traçada em macadame, assim permanecendo algum tempo até ser contemplada com um tapete de alcatrão. Alguém investido de poder mandou-a ornamentar de plátanos, árvores ainda frágeis cujas folhas em forma de mão aberta, pareciam acenar lá de cima. Com o tempo essas árvores tornaram-se adultas e vieram a justificar o nome que demos à rua: Rua dos Plátanos. Para nós que, anos mais tarde, aí nascemos às mãos das curiosas, ante o sorriso dorido das nossas mães, ou para quem lá residia, a rua tornou-se popular. Quando alguém procurava pelo arruamento, logo nós respondíamos com alegria e orgulho.
— Rua dos Plátanos.
Não era esse, porém, o topónimo do local. As autoridades deram-lhe o nome de um poeta português do séc. XVI, que a nós nada dizia. Nem às nossas famílias. Claro que o topónimo não vingou. Apenas o carteiro se referia à rua pelo seu verdadeiro nome: Rua Cristóvão Falcão. Nessa época, de poetas apenas tínhamos ouvido falar em Luiz Vaz de Camões e em Bocage. No meio operário os poetas não se livravam da fama de loucos e vagabundos, com algumas excepções. Não acatámos de ânimo leve que as autoridades apadrinhassem com nome diferente a rua. Pelo seu recorte arborícola, e pela densidade dos plátanos, apenas um topónimo conquistara o direito a existir. Suas Excelências desprezavam os sentimentos e a opinião do povo, gente a quem a vida deslustrara. Pouco depois de a placa oficial ser colocada recebeu um bombardeamento de pedras que a desfigurou. Apareceram três polícias latagões com caras de ferver em pouca água e barrigas opadas de gases, tentando deitar a mão aos desordeiros. A sua presença não nos impressionou. Escapámos com a manha de miúdos rebeldes e a eficácia dos nossos pés ligeiros. Ficou por ali a contenda. Rua dos Plátanos continuou a ser o nome querido e proclamado da rua, embora o seu verdadeiro nome persistisse nas placas colocadas nos extremos da rua. Mais tarde, já aluno do liceu e com o apoio de um professor, senti pena daquele acto que desfigurara o nome do autor de Crisfal.
Com o correr dos anos, os plátanos apontaram os seus ramos ao espaço azul e oiro, braços gigantes entrelaçados numa comunhão de hastes e folhas, formando uma extensa e impenetrável abóbada verde. Bonita alameda, podem crer. Em virtude do crescimento das árvores e dos seus ramos de folhas largas, o Sol tinha dificuldade em entrar na rua e acalentar os moradores. Apenas o Sol, porque quanto ao resto, a rua franqueava-se a tudo. Ou seja: aos nossos jogos de futebol de trapeira; ao hóquei em campo jogado com stique feito pelas nossas próprias mãos; às doenças que nos visitavam com regularidade, saltando de uns para os outros com o seu cortejo de dor e tristeza; ao pitrolino que vendia azeite, petróleo, sabão e lixívia com a carroça puxada por macho ronha e trôpego; às discussões entre vizinhas num ping-pong de impropérios que aumentavam de tom consoante os maridos estoiravam os salários nas tabernas. E até ao chilreio dos pardais, que cantavam árias límpidas e repetitivas, indiferentes a viverem numa rua pobre de um país esquecido pelo mundo. Há que referir o som da telefonia da Clotilde, simpática anciã que fazia gala em mostrar a toda a gente que a música era a riqueza da sua casa. Clotilde finava-se aos poucos cansada da vida e do sofrimento, sobrevivendo com uma pensão de viuvez que mal dava para o trabalho em a ir receber. Valia-lhe a vizinhança, que lhe dispensava carinho e apoio. Ela, por seu lado, auxiliava qualquer mãe que necessitasse de uma tarde sem os filhos agarrados às saias, de modo a poder dar serventia na casa de alguma senhora do bairro novo. A casa de Clotilde foi a primeira creche da vila.

(Parágrafos iniciais do livro publicado pela Book Cover Editora, de Francisco Melo, com agenciamento de Ana Monteiro. À venda online na editora e também na Wook. Dentro de dias estará nas livrarias).